Como é a preparação física de um piloto de competição?

Fazer sucesso no automobilismo não depende apenas de você ser mais ou menos hábil na pilotagem. Essa continua sendo a condição básica para crescer.

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É provável que você já tenha visto, ao menos na TV, imagens da competição de biatlo. Refrescando a memória: é aquela modalidade esportiva em que o atleta, na neve, deve parar e atirar com uma arma de cano longo, em um alvo fixo, e em seguida voltar a esquiar, que exige uma preparação física extraordinária.

Espera aí, cara. Esse é um texto sobre automobilismo ou esportes das olimpíadas de inverno? É sobre corrida de automóvel, mas chego lá. Você sabia que há semelhanças importantes entre alguns dos desafios do biatlo e os impostos pelas provas de automóvel aos pilotos?

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Vida de atleta

Vamos para o automobilismo, agora. O que você acha que acontece no organismo de um piloto, por exemplo da F2, como o nosso Sérgio Sette Câmara?

Raciocinemos juntos. Seus olhos, sob o capacete, dentro do cockpit do Dallara-Mecachrome, estão detectando um deslocando a 250, 280, 300 km/h na pista. É uma informação e tanto. Não é natural para o ser humano. O que o corpo faz? Libera na corrente sanguínea o hormônio especializado para essas situações de risco elevado, a adrenalina. Faz sentido, não acham?

A adrenalina vai elevar sua capacidade de reagir. No caso, aumentar o número de batimentos cardíacos por minuto, a frequência, seu nível de vigília crescerá, exatamente o que necessita, pois seu cérebro detectou que há uma alta condição de risco. Qual a consequência? Redução da capacidade de sermos precisos nos detalhes. Mas o piloto, como o praticante do biatlo, necessita muito ser preciso.

Veja só: para saber o ponto exato de iniciar a frenagem, o quanto esterçar o volante, onde colocar as rodas do carro na curva, estar atento aos muitos ruídos do carro, cada um lhe passa uma informação, administrar a aceleração. Tudo isso, amigos, não apenas para ser mais rápido que os adversários, tentar vencer a disputa. Como assim? Não se esqueça que há uma coisinha maior em jogo aí, nessa velocidade: a própria vida do piloto. É bom, portanto, saber muito bem o que está fazendo em uma preparação física de um piloto.

A preparação física de um piloto

Por Sérgio Sette Câmara, em depoimento à Livio Oricchio

Oi, pessoal. Vocês não se veem livres de mim nem mesmo quando não tem corrida no fim de semana, como agora, não? É que como falei acho bem legal contar uma série de detalhes do meu trabalho nos autódromos, algo que não aparece na imprensa, por exemplo.

O foco maior da nossa preparação física de um piloto, ao contrário do que muita gente pensa, não é durante o campeonato, como acontece no futebol. O time começa em um nível, a tendência é crescer e quando chega a fase decisiva da disputa os jogadores estão voando.

No nosso caso, nós damos realmente duro nos meses que antecedem os testes e o início do campeonato. Depois, a preocupação física maior é nos manter em uma condição de atleta e fortalecer a parte mental. Deixa eu dar os detalhes desse trabalho.

Eu e meu preparador, Joan Carmona, catalão, definimos um programa de treinamento de quatro dias por semana. Pode variar, vou explicar: são, em média, três horas por dia, podendo ser mais, divididas em uma hora e meia de manhã e uma hora e meia à tarde. Acontece que nossa preparação deve prever, também, além do desenvolvimento físico, o técnico, específico de piloto e o mental.

Refiro-me a praticar horas e horas de ensaios no simulador e reuniões com a equipe, estudar o que podemos fazer juntos, sempre, para tornar o carro mais rápido, equilibrado, ou ainda procedimentos de trabalho no fim de semana de competição.

Quando eu falo em simulador, não é sair de casa, chegar onde ele se encontra, treinar, falar com o engenheiro, e voltar para casa. É bem mais que isso. 

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Treino marcado

Assim, tenho de acordar de madrugada, dirigir até o aeroporto de Barcelona, voar até Amsterdã, dirigir outro tanto, treinar, e fazer o caminho de volta no fim da tarde, para entrar em casa já de noite. Esses desgastes, amigos, não são “privilégios” somente meus. Tenha a certeza de que meus adversários da mesma forma têm imensos desafios a superar.

Fazer sucesso no automobilismo não depende apenas de você ser mais ou menos hábil na pilotagem. Essa continua sendo a condição básica para crescer. Mas os resultados são atrelados a uma longa série de fatores, como o seu grau de preparação física de um piloto, técnica e mental e o estágio da equipe, dentre outros.

No passado, o peso do talento do piloto nessa equação que te leva à conquistas era muito maior. Hoje continua dependendo muito de nós, mas apenas a nossa competência já não é mais suficiente. É preciso que outros fatores, como mencionei a eficiência da equipe em tudo, até politicamente, para vencer.

Voltando a falar da minha preparação, eu gosto muito de pilotar kart. É um exercício excelente, mantém os reflexos em dia, algo imprescindível para nós.

O que faço no programa de quatro dias por semana, com três horas por dia, entre o realizado de manhã e à tarde? Para começar, trabalhamos a musculatura na academia. O volante dos carros de F2 não é hidráulico. É preciso realmente força para girá-lo. Gosto de treinar com bicicleta, de nadar, correr nas montanhas próximas de casa, e em tanques de areia também.

Eu treino no Centro de Alto Rendimento Esportivo, que todo mundo chama de CAR. Foi criado para a olimpíada de Barcelona de 1992 e é mantido até hoje pelo governo. Eu realizo lá um programa particular, também possível. É muito bem estruturado. Eu vim para a Europa com 15 anos. Saiba que fui viver sozinho no CAR.

Trabalhava o físico e terminei a minha formação escolar básica residindo também na instituição, em um quarto bem pequeno. Nessa época, o meu preparador já orientava pilotos, de carro e de moto. Eu ia disputar a concorridíssima F3 europeia e fazia o meu treinamento com oito, nove outros pilotos, de tudo, coordenados pelo Carmona.

Deixa eu falar uma outra coisa que nem todos sabem. Nós não podemos ser super musculosos. Temos de ser fortes, mas ao mesmo tempo nossa musculatura deve permitir os movimentos mais extremos possíveis. Portanto, a preparação física de um piloto segue regras um tanto particulares. A velocidade de reflexo, como mencionei, é algo preponderante para nós. E com músculos de um halterofilista isso não funciona.

E já que transformamos nossa conversa em um confessionário, vou dizer o que penso da preparação física. Sem ela você não vai a lugar algum. Além de ter dar a base para suportar as necessidades orgânicas da competição, um corpo bem treinado ajuda a te dar lucidez para decidir corretamente o que fazer ali na hora, em milésimos de segundo. No nosso caso isso é mais que importante, mesmo fundamental. Quando você está a 300 km/h é bom saber o que faz, não acham?

Preparação mental 

Mas além de fisicamente você estar bem técnica e mentalmente para responder com o máximo possível. Atente para a extensão do que vou afirmar: os décimos de segundo finais de performance de um atleta não vêm da preparação física, pois de maneira geral todos têm acesso a ela, mas da preparação técnica e, principalmente, mental.

Eu e o Carmona damos especial atenção a esse componente, o desenvolvimento mental. Como produzirmos mais a partir do equilíbrio interior. Não apenas para ganhar velocidade, mas para lidar, também, com as frustrações. Automobilismo é um esporte em que o sucesso depende diretamente da eficiência, confiabilidade do equipamento.

Imagine se eu transferisse para a próxima etapa do campeonato da F2, na Hungria, dias 28 e 29, o desgaste que tive na Inglaterra, ao ter o motor quebrado e ver meus adversários crescerem na classificação. Você tem de aprender que no que depende de você, é necessário responder, sempre, com 110%. E no que não é de sua responsabilidade, saber conviver.

É fácil? Claro que não. Eu precisei de dias para engolir a falta de resultados em Silverstone, mesmo consciente de que o que estava ao meu alcance foi feito. Agora, depois do trabalho mental a que me referi, entendo melhor a situação e levo comigo otimismo para Budapeste, como levei para Paul Ricard, na França, depois de ficar de fora do GP de Mônaco, por causa da batida na sessão de classificação. Erro meu.

Vocês têm aí, amigos, um geralzão do que faço para procurar me manter competitivo na F2, vencer e criar as condições para realizar o meu sonho, o mesmo dos 19 outros pilotos do grid: desembarcar na F1, no primeiro momento, e na sequência iniciar uma série de conquistas. Acredite, trabalho pesado por isso. Torça por mim, tenha a certeza de que ajuda. Até a próxima, amigos!