Como é a preparação física de um piloto de competição?

Você já pensou que os jogadores de futebol, de vôlei e até mesmo os lutadores de MMA podem treinar a qualquer momento pra dominar seu esporte, mas os pilotos de corrida raramente tem a oportunidade de acelerar com seus carros fora de uma competição? É verdade, em categorias como a Fórmula 2 e Fórmula 1, os competidores só podem treinar na pista algumas poucas vezes no ano, uma regra criada pela própria FIA para dar condições iguais para todos na prova. Por isso mesmo um esportista desses precisa estar ainda mais preparado para lidar com a velocidade, a força e as rápidas decisões que uma etapa de F1 e F2 exigem. Na reportagem a seguir, o jornalista Livio Oricchio entrevistou o brasileiro Sérgio Sette Câmara para conhecer mais sobre essa rotina de preparo (e sobre estar sempre pronto para correr).

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Por Livio Oricchio, de Zurique (Suíça)

É provável que você já tenha visto, ao menos na TV, imagens da competição de biatlo. Refrescando a memória: é aquela modalidade esportiva em que esquiadores, na neve, devem parar e atirar com uma arma de cano longo, em um alvo fixo, e em seguida voltar a esquiar.

Espera aí, cara. Esse é um texto sobre automobilismo ou esportes das olimpíadas de inverno? É sobre corrida de automóvel, mas chego lá. Você sabia que há semelhanças importantes entre alguns dos desafios do biatlo e os impostos pelas provas de automóvel aos pilotos?

Daqui a pouco, quando o Sérgio Sette Câmara, o nosso convidado regular deste espaço, piloto da F2, falar como é a preparação física de um piloto profissional você entenderá melhor a lembrança do biatlo.

Desculpe, gostaria de ter a explicação agora, você deve ter pensado. Ok, combinado. Vamos lá.

Se você perguntar a um praticante do biatlo, desses que competem por medalhas olímpicas, como o francês Martin Fourcade, ouro este ano na olimpíada de inverno da Coreia do Sul, ele dirá, sem pensar muito, que uma das maiores dificuldade dos praticantes é ser preciso no tiro imediatamente após parar de se movimentar com o esqui.

“Em razão da nossa demanda orgânica intensa, pois a musculatura e a parte cardiovascular no esqui são bastante exigidas, temos uma concentração elevada de adrenalina na corrente sanguínea. E nessa condição, com a frequência cardíaca elevada, todo ser humano perde sintonia fina de movimentos. No tiro, o que você mais precisa para ser preciso é uma frequência cardíaca baixa, uma taxa de respiração baixa, para elevar a sua concentração e ser mais preciso. E é o que mais nos falta naquele instante quando paramos de esquiar.”

Guarde essa informação em um cantinho do cérebro.

Vamos para o automobilismo, agora. O que você acha que acontece no organismo de um piloto, por exemplo da F2, como o nosso Sérgio Sette Câmara?

Raciocinemos juntos. Seus olhos, sob o capacete, dentro do cockpit do Dallara-Mecachrome, estão detectando um deslocando a 250, 280, 300 km/h na pista. É uma informação e tanto. Não é natural para o ser humano. O que o corpo faz? Libera na corrente sanguínea o hormônio especializado para essas situações de risco elevado, a adrenalina. Faz sentido, não acham?

A adrenalina vai elevar sua capacidade de reagir. No caso, aumentar o número de batimentos cardíacos por minuto, a frequência, seu nível de vigília crescerá, exatamente o que necessita, pois seu cérebro detectou que há uma alta condição de risco. Qual a consequência? Redução da capacidade de sermos precisos nos detalhes. Mas o piloto, como o praticante do biatlo, necessita muito ser preciso.

Veja só: para saber o ponto exato de iniciar a frenagem, o quanto esterçar o volante, onde colocar as rodas do carro na curva, estar atento aos muitos ruídos do carro, cada um lhe passa uma informação, administrar a aceleração. Tudo isso, amigos, não apenas para ser mais rápido que os adversários, tentar vencer a disputa. Como assim? Não se esqueça que há uma coisinha maior em jogo aí, nessa velocidade: a própria vida do piloto. É bom, portanto, saber muito bem o que está fazendo.

Sebo nas canelas

A evolução, a seleção natural descrita por Charles Darwin favoreceu o surgimento da adrenalina em boa parte das espécies animais para enfrentarmos mais preparados situações de perigo iminente. Ou mesmo avaliarmos melhor se vale a pena encará-lo. Em outras palavras: enfrentar o inimigo ou bater em retirada.

Acontece que tanto o praticante do biatlo quanto o piloto estão lá porque desejam. Não vão renunciar a luta. Ao contrário. Em um certo sentido, vivenciar aquele desafio lhes é prazeroso. É diferente do homem primitivo que, de repente, em uma caçada, viu-se cara a cara com um tigre dente de sabre.

Uma enxurrada de adrenalina vai chegar no seu sangue em frações de segundo para o combate ou lhe dar mais velocidade para escapar do tigre. O nosso homem das cavernas virou a presa. O grunhido que ele emitiu para o grupo poderia hoje ser traduzido assim: “Turma, salve-se quem puder!”

Nós já vimos, portanto, que tanto um esporte mencionado quanto o outro vão selecionar indivíduos que não apenas tenham maior ou menor habilidade em esquiar e atirar, em um caso, e controlar uma máquina a 300 km/h, mas também serem capazes de, contra a natureza, administrar os efeitos desse hormônio tão imprescindível não apenas para a espécie humana, a adrenalina. Sim, uma gazela também dispõe de adrenalina para fugir ao ataque do guepardo.

Ufa, precisava de tudo isso antes de iniciar uma reportagem sobre preparação física dos pilotos profissionais? Eu é que pergunto, agora: conscientes dessa questão, de como é importante saber gerenciar os efeitos da adrenalina, não passamos a encarar o tema de outra forma?

É provável que muitos passem a respeitar ainda mais os praticantes desses dois esportes. Com um toque de admiração ainda maior para os pilotos porque, como mencionado, um erro provocado pela falta de sintonia fina de movimentos, gerada pela concentração de adrenalina no sangue, pode ter consequências sérias. Por mais seguro que o automobilismo se tornou, o risco sempre existirá.

Nós poderíamos nos estender bem mais no tema. Dizer, por exemplo, que um esportista do biatlo está uma condição aeróbica, ao ar livre, se movimentando, em outras palavras mais favorável que a do piloto. Estes usam balaclava e capacete, podem mexer apenas, a rigor, pernas e braços. Não seria exagero afirmarmos que sua condição é anaeróbica. Mas com uma frequência cardíaca elevada. Que paradoxo!

E esse estado de vigília máxima, dentro do cockpit, deve ser mantido no caso da F2 por cerca de uma hora, tempo da corrida do sábado. Imagine que na F1 são quase duas horas, submetendo os pilotos a acelerações de até cinco vezes a da gravidade (G). É dose para leão, amigos.

O que faz o preparo físico? Em primeiro lugar, permite que ambos atinjam frequências cardíacas mais baixas do que em um cidadão normal na mesma condição. Educa o corpo a interpretar aquela condição do piloto como um perigo menos sério e, assim, haver uma menor descarga de adrenalina. E o treinamento também ajuda muito a enfrentar a natural deficiência de concentração gerada pela adrenalina, essenciais para o atleta do biatlo e o piloto serem precisos.

Uns respondem melhor que os outros, mas todos, nesse nível de profissionalismo, desenvolvem respostas relativamente eficazes para esse enorme desafio. Haja vista os resultados alcançados pelos atletas – sim, um piloto é um atleta também -, no biatlo e no automobilismo.

O preparo do piloto

Por Sérgio Sette Câmara, em depoimento à Livio Oricchio

Oi pessoal. Vocês não se veem livre de mim nem mesmo quando não tem corrida no fim de semana, como agora, não? É que como falei acho bem legal contar uma série de detalhes do meu trabalho nos autódromos, algo que não aparece na imprensa, por exemplo.

O foco maior da nossa preparação física, ao contrário do que muita gente pensa, não é durante o campeonato, como acontece no futebol. O time começa em um nível, a tendência é crescer e quando chega a fase decisiva da disputa os jogadores estão voando.

No nosso caso, nós damos realmente duro nos meses que antecedem os testes e o início do campeonato. Depois, a preocupação maior é nos manter em uma condição atlética e fortalecer a parte mental. Deixa eu dar os detalhes desse trabalho.

Eu e meu preparador, Joan Carmona, catalão, definimos um programa de treinamento de quatro dias por semana. Pode variar, vou explicar. São, em média, três horas por dia, podendo ser mais, divididas em uma hora e meia de manhã e uma hora e meia à tarde. Acontece que nossa preparação deve prever, também, além do desenvolvimento físico, o técnico, específico de piloto, e o mental.

Refiro-me a praticar horas e horas de ensaios no simulador e reuniões com a equipe, estudar o que podemos fazer juntos, sempre, para tornar o carro mais rápido, equilibrado, ou ainda procedimentos de trabalho no fim de semana de competição.

“Fazer sucesso no automobilismo não depende apenas de você ser mais ou menos hábil na pilotagem. Essa continua sendo a condição básica para crescer.”

O que posso dizer é que tempo livre, como o da semana passada, é bastante raro. Passei uns dias com a família em Portugal. Mas o meu próprio treinador fez força para que eu me desligasse depois da frustração de Silverstone, quando quebrou o meu motor na iminência de chegar no pódio. Isso no sábado. E no domingo, largando lá atrás, em uma corrida curta, sem pit stop, a possibilidade de fazer algo grandioso quase não existe na F2.

Quando eu falo em simulador, não é sair de casa, chegar onde ele se encontra, treinar, falar com o engenheiro, e voltar para casa. É bem mais que isso. Vocês sabem que eu moro ao lado de Barcelona desde que vim para a Europa, quando tinha 15 anos e hoje estou com 20, não? Mas o simulador que melhor me prepara é o de uma empresa na Holanda.

Assim, tenho de acordar de madrugada, dirigir até o aeroporto de Barcelona, voar até Amsterdã, dirigir outro tanto, treinar, e fazer o caminho de volta no fim da tarde, para entrar em casa já de noite. Esses desgastes, amigos, não são “privilégios” somente meus. Tenha a certeza de que meus adversários da mesma forma têm imensos desafios a superar.

Fazer sucesso no automobilismo não depende apenas de você ser mais ou menos hábil na pilotagem. Essa continua sendo a condição básica para crescer. Mas os resultados são atrelados a uma longa série de fatores, como o seu grau de preparação física, técnica e mental e o estágio da equipe, dentre outros.

No passado, o peso do talento do piloto nessa equação que te leva à conquistas era muito maior. Hoje continua dependendo muito de nós, mas apenas a nossa competência já não é mais suficiente. É preciso que outros fatores, como mencionei a eficiência da equipe em tudo, até politicamente, para vencer.

Voltando a falar da minha preparação, eu gosto muito de pilotar kart. É um exercício excelente, mantém os reflexos em dia, algo imprescindível para nós.

O que faço no programa de quatro dias por semana, com três horas por dia, entre o realizado de manhã e à tarde? Para começar, trabalhamos a musculatura na academia. O volante dos carros de F2 não é hidráulico. É preciso realmente força para girá-lo. Gosto de treinar com bicicleta, de nadar, correr nas montanhas próximas de casa, e em tanques de areia também.

Eu treino no Centro de Alto Rendimento Esportivo, que todo mundo chama de CAR. Foi criado para a olimpíada de Barcelona de 1992 e é mantido até hoje pelo governo. Eu realizo lá um programa particular, também possível. É muito bem estruturado. Eu falei que vim para a Europa com 15 anos. Saiba que fui viver sozinho no CAR.

Trabalhava o físico e terminei a minha formação escolar básica residindo também na instituição, em um quarto bem pequeno. Nessa época, o meu preparador já orientava pilotos, de carro e de moto. Eu ia disputar a concorridíssima F3 europeia e fazia o meu treinamento com oito, nove outros pilotos, de tudo, coordenados pelo Carmona.

“Um corpo bem treinado ajuda a te dá lucidez para decidir corretamente o que fazer ali na hora, em milésimos de segundo”

Deixa eu falar uma outra coisa que nem todos sabem. Nós não podemos ser supermusculosos. Temos de ser fortes, mas ao mesmo tempo nossa musculatura deve permitir os movimentos mais extremos possíveis. Portanto, a preparação de um piloto segue regras um tanto particulares. A velocidade de reflexo, como mencionei, é algo preponderante para nós. E com músculos de um halterofilista isso não funciona.

E já que transformamos nossa conversa em um confessionário, vou dizer o que penso da preparação física. Sem ela você não vai a lugar algum. Além de ter dar a base para suportar as necessidades orgânicas da competição, um corpo bem treinado ajuda a te dá lucidez para decidir corretamente o que fazer ali na hora, em milésimos de segundo. No nosso caso isso é mais que importante, mesmo fundamental. Quando você está a 300 km/h é bom saber o que faz, não acham?

Cabeça, amigo, cabeça

Mas além de fisicamente você estar bem técnica e mentalmente para responder com o máximo possível. Atente para a extensão do que vou afirmar: os décimos de segundo finais de performance de um piloto não vêm da preparação física, pois de maneira geral todos têm acesso a ela, mas da preparação técnica e, principalmente, mental.

Eu e o Carmona damos especial atenção a esse componente, o desenvolvimento mental. Como produzirmos mais a partir do equilíbrio interior. Não apenas para ganhar velocidade, mas para lidar, também, com as frustrações. Automobilismo é um esporte em que o sucesso depende diretamente da eficiência, confiabilidade do equipamento.

Imagine se eu transferisse para a próxima etapa do campeonato da F2, na Hungria, dias 28 e 29, o desgaste que tive na Inglaterra, ao ter o motor quebrado e ver meus adversários crescerem na classificação. Você tem de aprender que no que depende de você, é necessário responder, sempre, com 110%. E no que não é de sua responsabilidade, saber conviver.

É fácil? Claro que não. Eu precisei de dias para engolir a falta de resultados em Silverstone, mesmo consciente de que o que estava ao meu alcance foi feito. Agora, depois do trabalho mental a que me referi, entendo melhor a situação e levo comigo otimismo para Budapeste, como levei para Paul Ricard, na França, depois de ficar de fora do GP de Mônaco, por causa da batida na sessão de classificação. Erro meu.

Vocês têm aí, amigos, um geralzão do que faço para procurar me manter competitivo na F2, vencer e criar as condições para realizar o meu sonho, o mesmo dos 19 outros pilotos do grid: desembarcar na F1, no primeiro momento, e na sequência iniciar uma série de conquistas. Acredite, trabalho pesado por isso. Torça por mim, tenha a certeza de que ajuda. Até a próxima, amigos!

Confira o vídeo: