Conheça o novo carro da McLaren para a F1 2019

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Talvez o que de mais importante podemos subtrair do discurso de apresentação do modelo MCL34-Renault da McLaren, nesta quinta-feira, seja o comentário do diretor executivo do Grupo McLaren, o americano Zak Brown, enquanto observava o carro:

“Esse é início de um processo que nos levará a lutar de novo pelas vitórias.”

É isso. Para você ser grande é preciso ter consciência de que, no momento, a McLaren perdeu essa condição. E para voltar a estar entre os grandes em um universo complexo como o da F1 2019 é preciso tempo, ou como afirmou Brown, iniciar um processo. Foi o que o time com sede em Woking, na Inglaterra, fez.

Há um bom pedaço de Brasil na McLaren. Primeiro com o piloto de testes, o mineiro Sérgio Sette Câmara, 20 anos, patrocinado pela Youse. Já trabalha duro no simulador para ajudar o modelo MCL34 se tornar mais rápido e equilibrado. Existe a possibilidade de ele acelerar o carro de verdade, não apenas no simulador, ao longo do ano. Sua sensibilidade como piloto, elogiada por seu companheiro na F2, em 2018, Lando Norris, na Carlin, já chegou aos líderes da McLaren. E através do próprio Norris, titular da equipe este ano.

Ao mesmo tempo em que se dedica aos trabalhos na McLaren, Sérgio tem uma agenda cheia na sua equipe de F2, a francesa DAMS. Dia 26 a F2 começa a pré-temporada, em Jerez de la Frontera, na Espanha. Um bom campeonato de Sérgio na F2, este ano, sem os problemas de 2018, somada à rica experiência na McLaren, o deixará em boas condições para estrear na F1 em 2020 por alguma equipe. Veja reportagem à parte.

Outro brasileiro no projeto McLaren é o seu diretor esportivo, o ex-campeão da F Indy e vencedor das 500 Milhas de Indianápolis, Gil de Ferran. Atuará também na escuderia que a McLaren terá para disputar com Fernando Alonso as 500 Milhas de Indianápolis este ano.

VEJA+: Sette Câmara diz o que achou do novo carro da McLaren

Não é tudo. A Petrobras patrocina a McLaren desde fevereiro do ano passado. O projeto é desenvolver no seu centro de pesquisa, no Rio de Janeiro, gasolina e óleos lubrificantes para o time inglês, unidade motriz e transmissão. Mas ainda ambos produtos estão um pouco longe de poderem estar na unidade motriz Renault da McLaren ou mesmo na transmissão.

A Petrobras trabalhou com grande sucesso associada a Williams, de 1997 a 2007. Neste instante enfrenta um pouco mais de dificuldades para desenvolver seus produtos. Sua gasolina chegou a ser cortejada na F1.

Pela primeira vez depois de 12 anos a McLaren substituiu seus dois pilotos, Fernando Alonso e Stoffel Vandoorne. No Circuito da Catalunha, na semana que vem, o MCL34 será pilotado pelo espanhol Carlos Sainz Júnior, 24 anos, com quatro anos de experiência na F1, e o inglês Lando Norris, 19, estreante, terceiro na F2 em 2018.

Aparentemente convencional

Novo carro da McLaren na F1

O modelo da F1 2019 aparentemente não adota soluções revolucionárias, como seria de se esperar de seu chefe de aerodinâmica, Peter Prodromou. Ele trabalhou muitos anos com Adrian Newey, na RBR, e ao sair de lá para ser o número 1 na McLaren, no fim de 2014, exigiu com carta branca para agir.

Os três últimos modelos foram coordenados por ele. Nenhum se mostrou eficiente, já descontada a pouca potência e confiabilidade da unidade motriz Honda em 2016 e 2017.

No ano passado, Prodromou mostrou para o novo grupo gestor da McLaren que seria um erro deixar mais uma vez tudo na sua mão. Assim, o engenheiro inglês de origem cipriota responde pela aerodinâmica, em decisões agora colegiadas.

E a ausência de soluções capazes de fazer os demais diretores técnicos permanecerem horas tentando estudar o que a McLaren pretendia é um sinal de que os dois novos líderes técnicos, o italiano Andrea Stella e o inglês Pat Fry, impuseram limites para Prodromou. Isso tudo se o MCL34 for o que vimos nesta quinta-feira. De repente, lá em Barcelona, na segunda-feira, no início dos testes, o carro aparece cheio de mudanças e tudo isso que estamos falando não vale mais. É, no entanto, pouco provável.

A McLaren não está na condição de correr mais elevados riscos. Nesse instante o melhor caminho é não arriscar. Usar o exemplo da Renault, que foi oitava em 2016, na sua volta a F1, sexta, em 2017, e quarta na temporada passada. Este ano investiu pesado para se aproximar dos três primeiros. A McLaren necessita de um planejamento dessa natureza.

As palavras de Brawn no auditório do centro de tecnologia da McLaren sugerem que seus proprietários também pensam assim. São eles: o grupo de investimento do governo de Barein, Mumtalakat, sócio majoritário, o saudita Mansour Ojjeh, este desde os tempos de Ayrton Senna, nos anos 80, e o canadense Michael Latifi.

Novo carro da McLaren na F1

O modelo MCL34-Renault para a F1 2019 tem sofisticada aerodinâmica na porção central, onde ainda há maior liberdade para os projetistas inserirem apêndices, já que no aerofólio dianteiro foram praticamente proibidos. Quem vê as dimensões de suas tomadas de ar laterais acredita que a McLaren ainda compete com unidade motriz Honda, dada a sua dimensão, a de maior abertura dentre todos os carros deste ano já apresentados.

No conjunto mecânico, a suspensão dianteira foi inspirada na da Mercedes do ano passado, com o triângulo superior conectado à área da roda através de um pequena haste, para ficar mais alto e interferir menos nos fluxos de ar. O grupo de engenheiros da McLaren dedicou grande atenção a muitos detalhes do carro. 

Passo a passo

Seguramente é um projeto concebido mais com os pés na terra que os últimos. Pode até demonstrar nos testes de Barcelona não corresponder à expectativa. Mas diante do que o MCL34 sugere ser, as chances são maiores de levar a McLaren a voltar a crescer. Se der um salto ainda maior, tanto melhor para a F1 2019. Mudanças conceituais de regulamento como a deste ano ajudam nesse sentido.

No ano passado, a escuderia ficou em sexto, com 62 pontos. Mas os dois outros adversários com a mesma unidade motriz Renault fizeram muito mais. A Renault, quarta, somou 122 pontos, o dobro. E a RBR, terceira, sete vezes mais, 419. Se a McLaren avançar nessa escala será já sinal de ter iniciado o processo mencionado por Brown.

https://www.youtube.com/watch?v=cE417LrFAgY

Em breve, novos diretores

Stella, Fry, Prodromou vão responder, em breve, a um novo diretor técnico, o inglês James Key, ex-STR. Não é o líder na área de engenharia que a McLaren necessita, segundo quase todos no paddock comentam, mas pode ser útil.

Mais importante para o time será a estreia do engenheiro alemão Andreas Seidl, ex-chefe da sempre campeã Porsche no Mundial de Endurance (WEC), em maio. Apesar da falta de experiência com a F1, demonstrou grande capacidade de liderança. Como também é competente, aprenderá rápido o que será necessário para, como diretor geral, fazer a McLaren evoluir.

Dentre as mudanças nas áreas técnica e administrativa a chegada de Seidl é junto da promoção de Stella para a chefia de engenharia as que devem resultar em melhorias para a escuderia. Na F1 poucos entenderam a contratação de Fry, dispensado pela Ferrari depois de pouco acrescentar, e mesmo a de Key.

A partir das 9 horas, o MCL34 começará a demonstrar, na pista catalã, a que veio na F1 este ano.