A F1 não é feita apenas de campeões. Mas de pilotos bem fraquinhos também

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Nós já conversamos neste espaço do site da Youse sobre alguns dos pilotos mais geniais de todos os tempos, como Juan Manuel Fangio, Jim Clark e Ayrton Senna, donos de, juntos, dez títulos mundiais. Mas como tudo na vida, há sempre o outro lado da moeda, no caso os pilotos que, apesar de esforçados, acabaram expondo suas limitações.

Como em toda atividade humana, há os mais e os menos capazes. E não é demérito nenhum ser menos eficiente que os concorrentes. Há até os que, diante dessa constatação, se sentem mais estimulados a reduzir a diferença de performance que os separa dos mais bem preparados e dotados.

E dentre esses, mesmo se dedicando com afinco sua evolução não é significativa. Por um motivo principal: a natureza não lhes proveu de algo essencial para fazer sucesso no mundo do controle da velocidade: talento.

O tema de hoje é exatamente esse, alguns pilotos que se caracterizaram por tentar seguir a carreira, mesmo diante das evidências de que como se diz na linguagem popular “não levavam jeito para a coisa”.

Não é preciso dizer que nem todos os torcedores têm essa visão mais isenta e respeitosa dos pilotos menos dotados e os acaba transformando em motivos de chacota. Muitos os chamam de “chicanes móveis”, para falar o mínimo. Só lembrando, chicanes são aquelas duas ou três curvas bem lentas, juntas, como regra contornadas em primeira ou segunda marca, inseridas no meio de longas retas para reduzir a velocidade dos carros.

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Alex Yoong

Podemos começar nossa lista de pilotos que entraram para a história por causa de suas limitações com o malaio Alex Yoong. Ele competiu na F1 não faz muito tempo, em 2001 e 2002, pela equipe italiana Minardi. Como companheiro de Mark Webber, em 2002, perdeu sempre por larga margem a disputa por melhor colocação no grid e não conseguiu sequer se classificar para largar em três GPs. Seu tempo na sessão de definição do grid ficou acima dos 107% do registrado pelo pole position.

O pai do piloto chegou a declarar que o filho não estava preparado para enfrentar o desafio da F1. É algo quase inédito, pois para a maioria dos pais de pilotos seus filhos são sempre campeões do mundo em potencial, mesmo diante de evidências inquestionáveis de falta de maior habilidade.

Chama a atenção, no caso de Yoong, o fato de ele nunca ter marcado um único ponto nas categorias de formação para a F1, como a Fórmula 3000, hoje F2, e a Fórmula Nippon. Mesmo sem demonstrar poder acompanhar o ritmo bem mais elevado da F1, a FIA lhe emitiu a superlicença, documento que o autorizava disputar a competição.

Hoje isso jamais aconteceria. Em 2015, a FIA criou um sistema de pontuação para emitir a superlicença. Os pilotos têm necessariamente de demonstrar serem capazes nas categorias escola, obter resultados. Por exemplo, apenas os três primeiros na F2 têm direito à superlicença.

Hans Heyer

Mas se a diferença entre Yoong e os demais pilotos da F1 em 2001 e 2002 ficou evidente, há casos ainda muito mais clamorosos. Um em particular tornou-se único na história do mundial. Você acreditaria se eu dissesse que um piloto alemão não obteve tempo para largar entre os 24 no grid, por ter sido o 27º na classificação, e mesmo assim, por conta própria, entrou na corrida?

No GP da Alemanha de 1977, disputado em Hockenheim, Hans Heyer, conhecido por competir com carros de turismo, veículos de série modificados, viu na prova no seu país a chance de mostrar ao mundo sua capacidade. Disputou a definição do grid com o carro da ATS, time alemão, e ficou muito longe de registrar o tempo necessário.

Os não classificados podiam disputar a corrida se os classificados não pudessem largar. Na largada, Alan Jones, com Shadow, e Clay Regazzoni, Ensign, colidiram. E não é que Heyer ordenou os mecânicos ligarem o motor do seu ATS para deixar os boxes e entrar na corrida? Ilegalmente, sem autorização, pois não tinha o direito.

Os comissários não entenderam a presença daquele carro na pista. E lá ficou até a nona volta quando regressou aos boxes com problemas no câmbio. Foi só então que a direção de prova o ordenou ficar lá mesmo. Sob pena de chamarem os seguranças.

Heyer foi o único piloto até hoje a não se classificar oficialmente não largar, não terminar a corrida e ser excluído da prova tudo ao mesmo tempo!

Yuji Ide

O japonês Yuji Ide chegou na Super Aguri, escuderia japonesa na F1, em 2006, como uma promessa do seu país. Mas era tão lento que depois de apenas quatro corridas a FIA decidiu lhe retirar a supelicença, por colocar os demais em risco.

Narain Karthikeyan

Há ocasiões em que não há dúvida, determinado piloto foi comprovadamente o último colocado, o menos eficiente dentre todos que estavam na pista. Esse foi o caso do indiano Narain Karthikeyan, em 2011, no GP da Europa, disputado no circuito de rua de Valência, Espanha.

Ele obteve com o carro da equipe HRT o 24º e último tempo na sessão de classificação, no sábado. Na corrida, no domingo, os 24 pilotos que largaram receberam a bandeirada, não houve um único abandono. E quem foi o 24º e último? O próprio, Karthikeyan, com três voltas a menos do vencedor, Sebastian Vettel, da Red Bull.

Johnny Dumfries

Poderíamos citar muitos outros exemplos que mesmo no mundo seleto da F1 chegaram a impressionar pela falta de talento. Gostaria de citar mais um antes de ir para o escolhido final. Em 1986, Ayrton Senna teve como companheiro na Lotus-Renault Turbo o aristocrata escocês Johnny Dumfries.

Sabe quanto ele era mais lento que Senna, na média, nas definições do grid, naquela volta lançada, onde o motor turbo podia dispor de mais pressão e desenvolver incríveis 1.200 cavalos de potência? Acredite, 4 segundos.

Tome um exemplo númerico, podendo estendê-lo a outros GPs da temporada. Rio, 1986. Senna estaleceu a pole position com 1min25s501. Dumfries, com o mesmo carro, o 11º, com 1min29s503, ou nada menos de 4 segundos e 2 milésimos pior.

No fim das 16 etapas, Senna havia somado 55 pontos, quarto no mundial, Dumfries, 3 pontos, o 13º. O escocês terminou a temporada, mas encerrou a carreira na F1.

Al Pease

Dia 20 de setembro de 1969, Circuito Mosport Park, próximo a Toronto, GP do Canadá. O voluntarioso inglês/canadense Al Pease decidiu que era hora de mostrar ao mundo o que era capaz de fazer com um carro de F1 nas mãos, diante da sua torcida, depois de alguma experiência com veículos de turismo no país onde vivia.

Alugou um Eagle-Climax para disputar a corrida, a nona da temporada. A sessão de classificação deu bem o tom do que os demais pilotos aguardavam no veloz traçado. Pease foi 11,1 segundos mais lento que o pole position, Jacky Ickx, com Brabham-Ford. Uma outra referência da diferença de velocidade. Média de Ickx na pole, 184,0 km/h. A de Pease, 160,0, diferença de 24 km/h!

Como naquela época os controles eram muito menos rigorosos que hoje, Pease largou tranquilamente com seu Eagle. Quando os líderes chegaram na 46ª volta, Pease estava ainda na 22ª. Nessa hora, Jackie Stewart, da Matra-Ford, piloto que seria campeão do mundo naquele ano, foi não apenas atrapalhado por Pease como os dois chegaram a se tocar.

O chefe da equipe de Stewart, o inglês Ken Tyrrell, reclamou com os comissários. Aquilo era um absurdo. Pouco depois a direção de prova ordenou a exposição da bandeira preta: Pease estava excluído do GP do Canadá de 1969. Motivo: performance muito abaixo do mínimo necessário para manter a segurança da competição. É o único caso até hoje.

Fique tranquilo, no nosso próximo encontro voltaremos a falar dos melhores, ou de passagens curiosas envolvendo-os.