A Lotus de Martin Donnelly se desintegrou, mas ele sobreviveu

Nosso repórter testemunhou um dos acidentes mais terríveis da F1, em 1990, na Espanha. Aqui, seu relato.

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Lotus 102 Lamborghini Camel.

Aconteceu no dia 28 de setembro de 1990, no Circuito de Jerez de la Frontera, a 80 quilômetros ao Sul de Sevilha, na Espanha. Na sessão de classificação de sexta-feira, a suspensão dianteira esquerda da Lotus-Lamborghini do irlandês Martin Donnelly, de 26 anos, se rompeu e ele seguiu reto na curva Ferrari, de alta velocidade, colidiu contra o guardrail, o carro se desintegrou e seu corpo apareceu estendido no meio do asfalto, inerte, com o banco nas costas.

Eu estava atrás do guardrail da curva seguinte, fui portanto testemunha ocular do terrível acidente. É o que narro agora.

A história de Martin Donnelly

Assistia à tomada de tempo com o piloto Roberto Pupo Moreno. Havia outra pessoa conosco, o alemão Horst Röger, um físico nuclear alemão, amigo de Gerhard Berger e meu também.

Ayrton Senna corria com McLaren-Honda e liderava o Mundial, 78 pontos, seguido por Alain Prost, da Ferrari, 60.

Nos aproximávamos do fim da sessão de classificação quando fiz um comentário enquanto olhava para Moreno. Ouvi então um estrondo forte, seco, não muito elevado. Imediatamente virei o rosto para o foco do barulho e tudo o que vi foram peças voando para todo lado, poucos metros a nossa frente. Chegamos a nos proteger de alguns pedaços que passaram perto.

Segundos mais tarde, olhei para a frente e não encontrei um carro, mas apenas metade dele. Do tanque de combustível, localizado nas costas do piloto, para a frente, a Lotus de Martin Donnelly se desintegrou.

Voltei-me para Moreno e o vi branco. “Não tem como um piloto sobreviver a um acidente desses”, falou, olhando para baixo, e iniciou, em choque, a caminhada de volta ao paddock.

O irlandês Martin Donnelly, antes do acidente em Jerez de la Frontera, Espanha, em setembro de 1990.

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Dura realidade

Eu não saí do local do acidente. Identifiquei que era uma Lotus. Nesse momento, vi que havia um corpo a uns 10 metros de mim, pois ele se projetou para a frente no impacto. Compreendi tratar-se de Martin Donnelly, pelo capacete.

Dá para imaginar como uma pessoa se sente ao ver que não existe mais carro e o piloto está no meio da pista, a sua frente, provavelmente morto?

Horst me disse que iria vê-lo, pois ninguém se aproximava de Martin Donnelly e segundos preciosos tinham se passado. Fui atrás dele. Mas não na direção do piloto, senão do outro lado do asfalto, pois atrás do guardrail havia uma ambulância e a abertura para entrar na pista.

Eu estava fora de mim. Acreditava que Donnelly havia parado de respirar e se talvez o médico que estava na ambulância tentasse reanimá-lo teria uma chance de sobreviver. Cada segundo podia valer sua vida. A sessão de classificação foi obviamente paralisada.

No meio do asfalto, eu gritava para o médico dentro da ambulância ainda. Ele tinha um rádio e aguardava a autorização do médico-chefe da FIA, doutor Sid Watkins, que estava no medical car, na saída dos boxes, e teria de percorrer os quatro quilômetros até chegar no local do acidente. Os comissários se posicionaram ao lado do corpo, para evitar de os demais carros, de volta aos boxes, não o vissem no asfalto.

Do tanque para a frente a Lotus deixou de existir, tudo foi desintegrado no acidente.

Martin Donnelly de olhos abertos, respiração ofegante

Horst, do lado de Martin Donnelly, se abaixou e levantou a viseira do capacete, com o médico ao lado, mas sem intervir. Foi nessa hora que detectei algo confortante para aquelas condições: deu para ouvir a respiração ofegante de Donnelly.

Chegou, finalmente, o doutor Sid Watkins e, claro, pediu para nos afastarmos um pouco. Só então o médico da ambulância agiu, ao passar a ajudar o colega da FIA.

Martin Donnelly tinha os olhos abertos, mas não os movia, e respirava com dificuldade, produzindo um som intenso. O doutor Watkins, neurocirurgião, observa com atenção um sangramento no ouvido esquerdo. Poderia ser sinal de algo bem mais sério, a fratura da caixa craniana, coerente com a dinâmica do acidente.

Xingou os fotógrafos

Ouvi nessa hora uns gritos vindos de trás de nós. Era o companheiro de Donnelly, o inglês Derek Warwick, se aproximando às pressas, xingando os fotógrafos que se espremiam na barreira que os comissários fizeram na saída do paddock, a uns 50 metros do corpo, para ninguém chegar perto. “Saiam daqui, saiam daqui”, gritou Warwick.

Logo em seguida chegou Ayrton Senna, vagarosamente, como quem não deseja enfrentar a realidade. Todos tinham a nítida impressão de que Martin Donnelly havia morrido no impacto quase frontal no guardrail. Ayrton ficou do nosso lado por alguns minutos, assistindo ao doutor Watkins prestar os primeiros socorros. Abaixou a cabeça e com os olhos cheios de lágrimas voltou para o paddock.

Deixei também o local. Assim que entrei no paddock fui cercado por colegas jornalistas. Eu me limitei a dizer que Donnelly estava vivo, essencialmente o que desejavam saber naquele momento e a única coisa que poderia dizer.

Mais tarde, na porta do ambulatório do autódromo de Jerez soube que Donnelly seria levado para um hospital em Sevilha. Nos informaram que tinha momentos de consciência, mas o quadro era “gravíssimo”.

Falta de sensibilidade

Vi algo naquele dia que faço questão de contar. Quando cheguei no meu hotel, o mesmo dos integrantes da Lotus, na cidade de Rota, do lado de Jerez, não acreditei no que presenciei no seu campo de futebol. O atacante de um dos times era o piloto Derek Warwick, o mesmo cidadão que horas antes, apenas, xingou os fotógrafos que buscavam imagens do acidente.

Mesmo sem saber se Donnelly iria sobreviver, Warwick encontrou meios emocionais de participar de uma partida de futebol. Vi que parte importante dos profissionais da F1 entendia e organizava a realidade a sua volta de maneira distinta da minha.

Donnelly permaneceu seis meses hospitalizado e sobreviveu, com enormes sequelas, como não mais articular a perna esquerda. Obviamente sua carreira de piloto acabou ali.

Em 1997, lá mesmo em Jerez, na decisão do título entre Jacques Villeneuve, Williams, e Michael Schumacher, Ferrari, Donnelly voltou ao circuito. Eu lhe disse ter acompanhado de perto tudo o que vivera lá.

O irlandês, sempre muito acessível, se interessou e me fez várias perguntas. Ouvia tudo com atenção, mas sem se impressionar. “Ainda bem que depois de tudo isso eu ainda pude voltar aqui, não?”, disse-me, rindo.