A verdadeira história da vitória de Senna no GP Brasil de 1991

Como Senna conseguiu concluir a prova representou quase um mistério para o time: só Ayrton para realizar uma proeza dessas.

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1991. Dia 24 de março. O GP do Brasil era o segundo da temporada  Ayrton Senna desembarcou em São Paulo depois de ganhar a etapa de abertura do campeonato, em Phoenix, nos Estados Unidos. A Williams havia construído um carro mais veloz que o da McLaren, mas por ser inovador precisaria de um tempo para ser desenvolvido. Era, no início, frágil. Seu projetista viria a se tornar uma lenda na F1, Adrian Newey.

É sobre a extraordinária história desse evento, em Interlagos, onde Senna realizou um dos seus sonhos – vencer a corrida de casa -, que nos debruçamos agora. Apresentá-la hoje tem sentido: domingo será disputado o 48º GP do Brasil.

Senna a respeito da prova: “Não foi a minha maior vitória, mas a mais sofrida. Ficará guardada na minha memória para o resto da vida”, afirmou. Os profissionais da F1 a colocam dentre as maiores das suas 41 vitórias.

Ouvi dois personagens-chave daquele fim de semana único em Interlagos,  em que Senna daria mais uma demonstração de sua capacidade, ao pilotar as últimas sete voltas apenas com a sexta marcha.

O primeiro é o italiano Riccardo Patrese, piloto da Williams. Na 61ª volta da corrida, a dez da bandeirada, era o segundo colocado, nada menos de 40 segundos atrás de Senna, líder. Cruzaria a linha de chegada apenas 2s 991 depois do brasileiro.

“Se soubesse dos problemas de Senna duas voltas antes talvez pudesse vencer”, afirmou Patrese. “Mas Senna era um piloto não apenas muito rápido como dotado de grande senso de estratégia. Escondeu o quanto pôde suas dificuldades”.

O outro personagem é o mexicano Jo Ramirez, o coordenador da equipe de Senna, a McLaren, consciente do drama do piloto com o câmbio. “Embora sem conhecer sua extensão, pois Ayrton não nos contou no rádio ser tão grave.” Ramirez torcia para Patrese não ultrapassá-lo, queria ver o amigo comemorar sua primeira vitória no GP do Brasil. “Sabia quanto aquilo era importante para Ayrton”. Ramirez revelará detalhes pouco conhecidos da conquista.

A McLaren MP4/6-Honda de Senna, em 1991, na curva Mergulho, em Interlagos. | Imagem: GettyImages

Mansell voava na pista

A corrida se desenvolvia dentro do programado por Senna. Largar na pole position e manter-se em primeiro o tempo todo, como gostava de conduzir a competição. Mas a exemplo do demonstrado na abertura do Mundial duas semanas antes, o modelo FW14-Renault V-10 da Williams representava um passo adiante em relação do MP4/6 Honda V-12 da McLaren. Nigel Mansell ultrapassou o companheiro de Williams, Patrese, na largada, e na 20ª volta estava apenas 7 décimos de segundo atrás de Senna.

Outra vez parecia ser possível Senna não comemorar a tão sonhada vitória em casa. Já havia sido campeão do mundo em 1988 e no ano anterior àquele prova, 1990, mas não conseguira ainda vencer diante da sua torcida, de quem não era mais ídolo, mas herói. Se Mansell ultrapassasse Senna, é provável que pudesse ser mais rápido.

Mas aí entrou em cena a primeira das “ajudas do céu”, segundo o próprio Senna falou, mais tarde. Mansell entrou nos boxes na 26ª volta, de um total de 71, para o primeiro pit stop. O trabalho da Williams foi desastroso. O “Leão” permaneceu parado 14 segundos. Perdeu não apenas o segundo lugar para Patrese, como o terceiro para Jean Alesi, da Ferrari.

Em seguida ao pit stop de Senna e Patrese, o inglês da Williams se encontra 7 segundos atrás de Senna, sempre líder. Como antes da parada, Mansell voava na pista, assumiu o segundo lugar e se colocou na 46ª volta, a 4s1 de Senna. O ataque parecia iminente.

Pneu furado

Hora de Senna contar com os acontecimentos favoráveis que não teve nas edições anteriores do GP do Brasil. Na 50ª volta, o Leão vai surpreendentemente para os boxes de novo. Motivo: pneu furado. Senna não acredita. Começa a imaginar que finalmente vai comemorar a vitória em Interlagos. Ao regressar à pista, Mansell está, na passagem seguinte, 51ª, a 34s8 de Senna. Nessa hora começou a chover levemente na área do autódromo.

O que Senna sabia e escondia era que a quarta marcha estava escapando. Comunicou à equipe, no rádio, apenas “dificuldade” com o câmbio. Havia, ainda, a alavanca de câmbio. O piloto precisava tirar a mão do volante para trocar a marcha.

Senna revelaria depois da bandeirada: “Faltando 20 voltas para o final, perdi completamente a quarta marcha. Foi quase o fim para mim. Eu precisava mudar as marchas sem passar pela quarta, tinha de fazer um esforço tremendo com o braço. Com isso, além de perder tempo, comecei a ter um desgaste (físico) maior do que teria já com o acumulado da corrida”.

Mansell dá voltas seguidas que o permitem descontar pouco mais de 2 segundos por volta em relação a Senna. Como restavam 20 voltas e a diferença era de 34 segundos, o Leão provavelmente ultrapassaria o herói da torcida e o impediria, mais uma vez, de ganhar em Interlagos. Na volta 57, o inglês estava a 21 segundos cravados de Senna. E restam 14 voltas. Patrese, a essa altura resignado com a superioridade dos dois primeiros na corrida, seguia em terceiro, a 20 segundos de Mansell.

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Sem força física

Os problemas de Senna se multiplicam exponencialmente. “Comecei a ter dores no pescoço, ombro e nos braços. De repente fiquei sem a quinta e a terceira marchas, nada funcionava.” E Mansell se aproximando, para a aflição dos 65 mil espectadores nas arquibancadas lotadas.

Volta de número 59, Mansell passa na linha de chegada a 18s9 décimos de Senna. Mais uma vez o piloto da McLaren conta com a ajuda divina. Ele citaria Deus no fim. O Leão roda no S do Senna. Na realidade, a perda de controle da Williams foi motivada pela quebra do câmbio semiautomático do modelo FW14. Mansell abandona. A Ferrari havia lançado essa complexa tecnologia em 1989 e a Williams, em 1991, a adotou.

Na 60ª volta o Leão está fora e Patrese, segundo colocado, na 61ª volta, a impressionantes 40s4 décimos de Senna. O brasileiro já não sabe o que fazer para se manter na pista. Mas ninguém conhece seu drama em detalhes, nem seus engenheiros. Estava sem a quarta, quinta e terceira marchas, pilotando um carro com um motor V-12, de 700 cavalos de potência e pneus com mais de 30 voltas no asfalto abrasivo de Interlagos naquela época.

Esconder a realidade de Senna

Patrese vê a diferença para Senna cair, mas diante de o piloto não comunicar nada de mais sério a sua equipe, ninguém deu nenhuma demonstração nos boxes de apreensão, o que certamente levaria o pessoal da Williams a comunicar Patrese que Senna deveria ter algo sério no carro. O italiano descreve aquele momento da prova: “Eu via as placas que meu time mostrava, a diferença estava caindo, mas pensei que Senna apenas administrava a enorme vantagem que tinha”.

Patrese diz, ainda: “Eu não acelerei mais porque, como falei, achei que Senna poderia ser mais rápido, se precisasse, e eu também tinha meus problemas com o nosso novo câmbio semiautomático. Poucos sabem que eu tinha apenas cinco das seis marchas. Era um problema do carro. Fomos para Interlagos com uma relação de marchas que era uma segunda quinta marcha, não a sexta propriamente. O projeto do câmbio precisava ser revisto na fábrica”.

Mesmo assim, Patrese tinha cinco marchas, e Senna, apenas uma, a sexta, na 63ª volta, como explicou: “Faltando oito voltas para o final, a única marcha que entrou foi a sexta. Quando eu tentava mudar entrava o ponto morto. Coloquei a sexta e fui em sexta as sete voltas que faltavam. Na reta tudo bem, mas nas curvas lentas era quase impossível guiar o carro. O esforço que eu tinha da fazer para segurar o volante era maior ainda porque o motor empurrava o carro para fora das curvas lentas. Além desse problema, o motor ficava com numa RPM (rotação) muito baixa, não tinha potência”.

Ramirez lembra desse instante, a 63ª volta: “Confiávamos na capacidade de Ayrton improvisar, vimos que ele mudou a sua forma de pilotar. Essa era outra das grandes qualidades de Ayrton, se adaptava a cada condição nova que se apresentasse. Se fosse hoje, mesmo sem Ayrton nos contar o que se passava, ao menos em detalhes, nós saberíamos do que se tratava e poderíamos, dos boxes, provavelmente ajudá-lo. Naquela época o piloto tinha de encontrar as respostas sozinho”.

Williams alerta Patrese

Duas voltas mais tarde, na 65ª, a equipe Williams entra no rádio para falar com Patrese. “Eles me disseram que Senna não estava administrando a vantagem, tinha sérios problemas. Não sabíamos o que era. Eu pensei, então, que era motor. A diferença entre os nossos tempos de volta não indicavam mais que Senna poderia voltar a exigir do carro”.

Volta 67. Restam quatro. Patrese com a palavra: “Meu time seguia me estimulando para dar tudo, acelera, acelera, podemos vencer, diziam”. Tempo do italiano, 1min21s4. Senna, 1min25s8. Diferença entre ambos: 9s9. Na volta 68, Patrese cruza a 5s4 décimos de Senna. Na 69, a 4s1.

O piloto da McLaren, exaurido, faz de tudo para não ser alcançado pelo piloto da Williams. “Eu via o Patrese chegando, chegando. Procurei mudar meu estilo de guiar para manter as RPM mais em cima, mas para isso eu tinha de ir mais forte para as curvas, segurar o volante ainda mais nos braços, literalmente”, disse na época.

Nova ajuda dos céus

Hora para outra providência dos céus, lembrando que restavam apenas duas voltas. De novo uma chuva fina molha levemente o asfalto. O desafio de Senna cresce ainda mais, por estar com apenas a sexta marcha. Ele contou: “Começou a garoar, quase passei reto na reta dos boxes, sem poder trocar as marchas, sem poder fazer nada. Quase foi tudo (embora) ali”.

Senna ainda: “Eu achei que não ia ganhar nas duas voltas finais com o problema no câmbio nas últimas 7 voltas. Eu falei… se der vai ser no grito. Aí eu pensei comigo, eu lutei tanto esses anos para chegar nisso e hoje lutei tanto… eu falei vai ter que dar, vai ter que dar”, contou, emocionado, Senna na ocasião.

Com o asfalto úmido, mesmo com todas as dificuldades de Senna com a McLaren apenas em sexta marcha, seu tempo de volta na penúltima passagem, 70ª, foi excelente, 1min25s1. Patrese é somente um pouco mais rápido, 1min24s7 (4 décimos de segundo). O público acredita mais, agora, na vitória. E vibra nas arquibancadas, muitos sem se importar com a leve chuva.

No asfalto seco Patrese conseguia ser bem mais rápido. Na chuva, ao contrário do que se poderia esperar, não. A garoa de São Paulo se mostrou decisiva para Senna completar a 71ª volta e receber a tão merecida bandeirada em primeiro lugar, 2s991 na frente de Patrese, realizando seu grande sonho. Pela reação da torcida, sonho dela também.

Depois do pódio, Senna se emocionou ao falar que a vitória lhe foi dada por Deus.

Senna e a Vontade de Deus

Senna falou mais tarde sobre como se sentia, no cockpit, naquele instante crucial da prova: “Disse (a si próprio), hoje vou ter que chegar em primeiro porque Ele é maior de todos e Ele vai me dar essa corrida depois de tudo e foi isso mesmo, Deus me deu essa corrida. Valeu. Estou feliz demais, a emoção foi muito grande”.

Logo em seguida a cruzar a linha de chegada Patrese sentiu o chamado gosto amargo na boca. “Senti, sim. A Williams me avisou muito tarde, mas foi mérito do Ayrton também. Seu senso tático fez com que percebêssemos seus problemas muito tarde. Duas voltas antes e eu teria provavelmente vencido.”

Senna percorria aos gritos a pista depois da bandeirada e parou na Reta Oposta para pedir a bandeira do Brasil a um comissário. Sua condição física havia atingido o limite. Precisou ser atendido pelo médico da FIA e seu amigo, Sid Watkins, ainda dentro do cockpit, em frente a arquibancada da Reta Oposta, com o público em festa com a impressionante vitória.

O piloto explica: “O motor parou (quando pediu a bandeira) porque não dava para engatar marcha nenhuma. A minha dor era absurda. Senti alguma coisa parecida na minha segunda corrida de F1, em 84, na Toleman (chegou em sexto no GP da África do Sul), eu tinha espasmo no corpo inteiro”.

Só muito depois da bandeirada Senna apareceu no pódio, cerca de 20 minutos, por causa do atendimento médico na pista. A imagem de Senna buscando as últimas forças para levantar o troféu do vencedor é uma das mais importantes da história de 44 GPs do Brasil de F1.

A McLaren abriu o câmbio do carro de Senna quando os equipamentos chegaram em Woking, sua sede, ao sul de Londres, dois dias depois. Ramirez estava lá. “Havia anéis sincronizadores quebrados e faltavam dentes nas engrenagens”. Como Senna conseguiu concluir a prova representou quase um mistério para o time, só Ayrton para realizar uma proeza dessas, disse.