Abu Dhabi 2010: Alonso perdeu um título quase certo. E chorou muito.

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Desolado, Alonso não se conformou com a perda do título. Nunca um piloto chorou tanto no autódromo. Foto: Paul Gilham/Getty Images Europe

Depois do emocionante GP Brasil, agora só falta a 21ª e última etapa do Mundial de F1, o GP de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, dia 1º, para o encerramento do campeonato. E é sobre a épica edição da prova de 2010 que vamos conversar hoje. O final da história envolve Alonso e é surpreendente.

Estava lá, cobrindo para o Estadão, para quem trabalhei por 20 temporadas de F1. Chegamos em Abu Dhabi com incríveis quatro pilotos ainda com chances de serem campeões. O líder era Fernando Alonso, da Ferrari, com 246 pontos, seguido por Mark Webber, Red Bull, 238, Sebastian Vettel, Red Bull, 231, e Lewis Hamilton, McLaren, 222. Nunca quatro pilotos se apresentaram na etapa de encerramento podendo vencer o campeonato.

O favorito era Alonso, pelo maior número de pontos e as cinco vitórias nas 18 provas já disputadas. O número de vitórias é importante por ser o primeiro critério de desempate. Webber e Vettel somavam quatro vitórias e Hamilton, três.

O piloto espanhol recebia tratamento diferenciado da Ferrari. Era o primeiro piloto, a ponto de no GP da Alemanha, seu companheiro, Felipe Massa, estar na sua frente e o time obrigar ambos trocarem de posição. Já a Red Bull não interferia na disputa entre Vettel e Webber, bem como a McLaren com Hamilton e Janson Button.

Outra informação importante diz respeito ao fornecedor de pneus, a Bridgestone. Eles eram bem duros, permitindo aos pilotos completar a corrida com uma única parada. Naquele ano, também, a FIA proibiu o reabastecimento, os carros voltaram a largar com gasolina no tanque para seguir até a bandeirada.

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Terceiro no grid

No sábado tivemos a definição do grid, importante por causa da conhecida dificuldade de se ultrapassar nos 5.554 metros, 21 curvas, quase todas de baixa velocidade, do Circuito Yas Marina. Era apenas a segunda vez que a F1 se apresentava no suntuso autódromo, integrado a um hotel luxuoso e uma marina. No ano anterior, o de estreia de Abu Dhabi no calendário, Sebastian Vettel, da Red Bull, havia vencido.

Em 2010, Vettel estabeleceu a pole position. Ao seu lado, na primeira fila, largou Hamilton. A seguir, Alonso, terceiro, e Button, quarto. O também candidato ao título, Webber, ficou em quinto, com Massa em sexto. No deserto não chove. A corrida começou às 17 horas, com o ambiente a 29 graus e o asfalto, 33.

A vantagem de Alonso dava-lhe uma pequena tranquilidade, 8 pontos a mais de Webber, 15 para Vettel e 24, Hamilton. Se Webber fosse segundo, por exemplo, bastaria um quinto lugar para o espanhol ficar com o título. O australiano não poderia vencer, pois mesmo com Alonso em segundo o mundial iria para Webber.

Se Vettel recebesse a bandeirada em primeiro, Alonso garantiria o seu terceiro mundial e o 16º de pilotos da Ferrari com um quarto lugar. As chances de Hamilton eram somente matemáticas, já que a diferença dele para Alonso era de 24 pontos e havia 25 em jogo, os pontos atribuídos ao vencedor. Se o inglês hoje seis vezes campeão do mundo fosse primeiro no GP de Abu Dhabi de 2010, Alonso com o décimo lugar ganharia o campeonato.

Fomos para a largada. Alonso perde o terceiro lugar para Button. Vettel mantém a liderança, com Hamilton em segundo, Button, terceiro e Alonso, quarto. Webber segue logo atrás, em quinto.

Safety car decisivo

Ainda na primeira volta, Michael Schumacher, da Mercedes, e o italiano Vitantonio Liuzzi, da Force India, enquanto lutavam pelo oitavo lugar colidiram na curva 6. A Mercedes do alemão para em uma posição bem perigosa, provocando a entrada do safety car.

Como expliquei há pouco, os pneus Bridgestone permitiriam ir até a bandeirada sem desgaste comprometedor. Assim, ainda no fim da primeira volta, aproveitando-se do safety car, vários pilotos foram para os boxes para o seu pit stop, dentre eles o russo Vitaly Petrov, da Renault, décimo no grid.

Na oitava volta, o instável Webber danificou o carro ao raspar o lado direito do seu Red Bull no guardrail. Na 11ª foi o primeiro dentre os quatro candidatos ao título a fazer o pit stop para a troca de pneus. A corrida teve 55 voltas.

Aí as coisas começaram a se complicar para Alonso e a Ferrari. O estrategista da equipe, o australiano Chris Dyer, se preocupou, essencialmente, com Webber. E literalmente esqueceu que Vettel, apesar das poucas chances, podia também ser campeão. Assim, Dyer decidiu na 15ª volta que já era hora de chamar Alonso para que, ao regressar à pista, saísse na frente de Webber.

A preocupação do estrategista da Ferrari era Alonso deixar os boxes atrás de Webber, pois se o australiano vencesse seria campeão.

Estratégia errada para Alonso

Alonso, da Ferrari, permaneceu 40 voltas atrás de Petrov, Renault, e terminou somente em sétimo, perdendo o campeonato. Foto: Crispin Thruston/Action Images

De fato, na 15ª volta, Alonso regressou à pista na frente de Webber. Mas atrás de Petrov, que como mencionei havia feito uma parada, com safety car, ainda na primeira volta. Mas Alonso teria ainda 40 voltas até a bandeirada para avançar de sétimo, posição depois da parada, até a quarta colocação para tornar-se campeão, mesmo com a vitória de Vettel.

Mas quem disse que é fácil ultrapassar no traçado concebido pelo grupo de arquitetos do alemão Herman Tilke? Como escrevi, apesar das duas grandes retas e curvas lentas que as antecedem, é preciso uma diferença de velocidade importante entre dois carros para um deixar o outro para trás no Yas Marina.

Mas a Renault de Petrov tinha uma velocidade final de reta reconhecida por todos como dentre as melhores da F1. Alonso tentou de tudo para ganhar a sexta posição do russo e partir para cima de seu companheiro no time francês, Robert Kubica, quinto, e Nico Rosberg, Mercedes, quarto. Estavam todos próximos. O modelo Ferrari F10 era mais rápido que os carros da Renault e Mercedes. Em outros circuitos é bem provável que os ultrapassaria.

Lembro-me de trabalhar como repórter/comentarista da Rádio Globo, além do Estadão, em 2010, e ao ver Alonso sair dos boxes em sétimo, atrás do pelotão liderado por Petrov, sexto, na 15ª volta, e ter dito que as voltas seguintes seriam reveladoras não apenas do que aconteceria naquela corrida como na definição do mundial. Se Alonso não ultrapassasse logo Petrov perderia um campeonato quase ganho.

Tentou de tudo

O espanhol colocou sua Ferrari lado a lado a Renault do russo duas vezes, mas sem êxito. Por nada menos de 40 voltas Alonso seguiu de perto Petrov, sendo informado de que com o primeiro lugar Vettel ficaria com o título. A Ferrari instruiu seu piloto a arriscar tudo.

Vettel havia permanecido na pista até a 24ª volta, quando fez sua parada. O segundo colocado, Hamilton, uma volta antes. Se o estrategista da Ferrari tivesse se preocupado em marcar Vettel também e não somente Webber, o teria chamado para os boxes na volta 25, por exemplo, em vez da 15ª.

Era muito evidente que ao parar na 15ª volta Alonso sairia dos boxes atrás do pelotão de Petrov e seria muito difícil ultrapassá-lo.

Vettel parou na 24ª volta, Button assumiu a ponta, mas quando o inglês da McLaren fez seu pit stop, apenas na 39ª volta, Vettel retomou a liderança e lá manteve-se até a bandeirada, 16 voltas mais tarde. Hamilton foi segundo e Button, terceiro.

Ficou no tráfego

Alonso, bloqueado, perdia terreno a cada volta. Na 55ª e última volta, estava 43 segundos e 797 milésimos atrás de Vettel. O mesmo vale para Webber, sem possibilidade de avançar na classificação da corrida. Terminou em oitavo, atrás de Alonso.

O alemão da Ferrari ganhou o GP de Abu Dhabi e com a sétima colocação de Alonso conquistou o seu primeiro título, ao somar 256 pontos diante de 252 do espanhol. Webber foi terceiro, 242, e Hamilton, quarto, 240.

Eu nunca vi um piloto chorar tanto, em mais de 30 anos de F1, como Alonso naquele 14 de novembro de 2010 no Circuito Yas Marina. A direção da Ferrari procurava, em vão, consolá-lo.

Aquele homem durão, de personalidade forte, com fama de egoísta, exigir para si quase todas as atenções da equipe, desabou. Não foi a nenhuma entrevista, alegando falta de condições emocionais para atender a imprensa.

Quanto ao estrategista da Ferrari, Dyer, de nada adiantou seu passado de glória na escuderia italiana como engenheiro de Michael Schumacher em parte daquele período de grande sucesso, os cinco títulos seguidos, de 2000 a 2004. Dyer foi sumariamente demitido. Alonso chegou em Abu Dhabi 15 pontos na frente de Vettel e saiu 4 atrás, com carro para poder vencê-lo.

A Ferrari havia sido campeã pela última vez em 2007, com Kimi Raikkonen. E Alonso conquistado seu último mundial em 2006, com Renault.