Administrar a guerra entre Vettel e Leclerc, o desafio da Ferrari

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Charles Leclerc e Sebastian Vettel Charles Leclerc e Sebastian Vettel
Foto: Divulgação FIA

O diretor da Ferrari, Mattia Binotto, disse no começo do campeonato que a luta, a disputa, a animosidade entre companheiros de equipe representava “um problema doce”. Desafio mesmo, afirmou, seria tornar o modelo SF90 da Ferrari capaz de vencer a Mercedes. “Isso, sim, é um problema.” O time alemão venceu as oito primeiras etapas da temporada.

Se a pergunta lhe fosse feita hoje, depois do GP da Rússia, no entanto, realizado neste domingo, é provável que Binotto expressasse outra visão do que seja administrar a convivência de Vettel e Leclerc, agora que a Ferrari dispõe de um carro competitivo. Os seus engenheiros venceram o desafio e tornaram o SF90 capaz de vencer com regularidade o modelo W10 de Lewis Hamilton e Valtteri Bottas.

Na prova no Circuito de Sochi, por exemplo, Leclerc não dificultou Vettel de ultrapassá-lo na largada, pois seria uma forma de ambos se defenderem do ataque de Hamilton e Bottas. Mas o acordo estabelecido entre os dois e Binotto previa que Vettel restituísse a liderança a Leclerc assim que as posições se estabilizassem.

Vettel não compriu a ordem enviada via rádio. Binotto então chamou Leclerc para o pit stop na 22ª volta e Vettel só na 26ª. Assim, quando Vettel voltou à pista estava naturalmente atrás de Leclerc.  O alemão entendeu a manobra, com toda sua experiência de quase 12 anos de F1, 236 GPs, e não gostou.

Já nas etapas anteriores vencidas pela Ferrari, Bélgica e Itália, com Leclerc, e Singapura, Leclerc, o clima entre os dois foi bastante tenso, beligerante, com Binotto tendo de intervir.

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Menino atrevido

Vettel está profundamente incomodado com o fato de, aos 32 anos, já ter conquistado quatro títulos mundiais, vencido 53 vezes, largado em 56 ocasiões na pole position e estar perdendo feio a disputa para um novato irreverente de 21 anos, com menos de duas temporadas de F1 no currículo.

Nos últimos nove GPs, por exemplo, desde o GP da França, Leclerc foi sempre mais rápido nas sessões de classificação. Está, portanto, 9 a 0. E nas corridas, o monegasco ganha do alemão também. Leclerc é o terceiro no campeonato, com 215 pontos, enquanto Vettel, quinto, com 194.

A Ferrari conseguiu desenvolver o seu modelo SF90 de maneira tão eficiente que Leclerc foi primeiro nas pistas mais rápidas do calendário, Spa-Francorchamps e Monza, e Vettel em uma das mais lentas, de rua, Marina Bay, em Singapura.

Ou seja, é de se esperar que nas cinco corridas que restam, este ano, Japão, México, Estados Unidos, Brasil e Abu Dhabi, Vettel e Leclerc sejam protagonistas de novo, lutem com boas chances de sucesso pela pole position e vitória.

Binotto já viu que se deixar a luta interna no seu grupo correr solta, a Ferrari irá perder. Deixará de conquistar o que o SF90 hoje permite, um desrespeito ao trabalho notável de seus engenheiros e aos milhões de euros investidos para reverter uma condição que parecia completamente favorável a Mercedes.

Toto Wolff, diretor da equipe alemã, está gostando muito de ver o desgaste provocado a Ferrari pelo duelo entre os seus pilotos. Sua organização só tem a ganhar com isso. Ele também teve de gerenciar a guerra entre Hamilton e o ex-companheiro, Nico Rosberg, de 2014 a 2016.

Atenção global em Vettel e Lecrerc

Os olhos da F1 e de milhares de fãs no mundo todo vão estar concentrados, a partir do dia 11, nas ordens que Binotto irá estabelecer para Vettel e Leclerc já a partir dos primeiros treinos livres do GP do Japão, em Suzuka. Provavelmente vão receber uma cartilha do que cada um pode fazer e falar.

Como afirmou Binotto, em Spa-Francorchamps: “Os interesses da Ferrari estão acima dos interesses dos pilotos”. Isso tudo, contudo, não representa nenhuma garantia que ambos vão acatar o acordado.

Se for esse mesmo o destino da história, então alguma solução mais drástica terá de ser tomada por Binotto. Nesse caso é provável que a Ferrari não crie dificuldades para uma eventual saída de Vettel, que recebe dez vezes mais que Leclerc. No paddock da F1 os comentários, provavelmente procedentes, são de que o contrato de Vettel é de 36 milhões de euros (R$ 160 milhões) por ano.