F1 Vintage: Companheiro de Fangio para nos boxes e dá o carro para argentino ser campeão

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Combinemos o seguinte: um encontro aqui, toda semana, para falarmos de F1 Vintage, para usar um termo da moda. O que você acha de resgatarmos experiências curiosas, engraçadas, surpreendentes, cheias de júbilo, tristes, envolvendo pilotos e outros profissionais do passado da F1?

Vou começar com uma história que hoje nos deixaria estarrecidos. Aconteceu nos anos 50, a primeira década de existência da F1. Oficialmente o mundial começou no dia 13 de maio de 1950, em Silverstone, na Inglaterra. Até então não havia um campeonato. Cada GP era uma disputa independente. 

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E mesmo depois de a F1 ter sido criada, essa filosofia seguiu sendo praticada. Em 1950, a temporada teve sete etapas, mas foram disputados mais 18 GPs nos mais distintos países, a maioria em circuitos de rua, nenhum válido para o mundial.

Mas nós dizíamos de um episódio no mínimo estranho, capaz de mesclar dúvida, espírito esportivo, desprendimento, incompreensão, dentre outros sentimentos. 

Foi no GP da Itália de 1956, oitavo e último do calendário, realizado no dia 2 de setembro, no lendário circuito de alta velocidade de Monza, aquele com a pista bastante inclinada. Nada menos de 50 voltas no traçado de exatos dez mil metros, 500 quilômetros de corrida.

Enzo Ferrari havia decidido investir para contratar o melhor piloto da F1 do momento, o argentino Juan Manuel Fangio, campeão nos dois anos anteriores, 1954 e 1955, pela Mercedes. 

Quatro pilotos no páreo

Mas dois abandonos nas etapas da Argentina e Bélgica fizeram com que Fangio chegasse à prova decisiva do ano, na Itália, lutando pelo título com três outros pilotos, o seu companheiro na Ferrari, o inglês Peter Collins, e a dupla da Maserati, o inglês Stirling Moss e o francês Jean Behra.

Olha que loucura: naquela época, as equipes podiam inscrever dois pilotos no mesmo carro. Assim, caso houvesse interesse, o chefe de equipe podia mostrar a placa (não havia rádio, introduzido na F1 somente nos anos 80) para que o piloto do mesmo carro e ainda na corrida parasse nos boxes para cedê-lo ao companheiro.

Vamos ao GP de Itália de 1956. Enzo Ferrari inscreveu Fangio no carro de Collins e do outro piloto do time, o italiano Eugenio Castellotti, a fim de aumentar suas chances de ficar com o título. Fangio obteve a pole position. 

Fim do sonho do tri?

Na 20ª volta, o motor da Ferrari DS50 de Fangio apresenta problemas, obrigando-o a entrar lento nos boxes. Parecia que o sonho do tricampeonato do argentino, quarto título na brilhante carreira (chegaria ao quinto mundial) havia acabado ali. Moss, com a Maserati 250, lidera, com Collins, Ferrari DS50, em segundo. Essa classificação garantia a Collins, com 24 anos, seu primeiro título. Fangio já tinha 45 anos. Essa dado viria a ser determinante para o que aconteceria em seguida.

Depois da etapa anterior a de Monza, em Nurburgring, Alemanha, Fangio liderava o mundial com 30 pontos, seguido por Collins e Behra, 22, e Moss, 19. O vencedor recebia 8 pontos; o segundo, 6; o terceiro 4; o quarto, 3; o quinto, 2, e autor da melhor volta, 1. Apenas os melhores cinco resultados das oito etapas podiam ser computados para a soma total de pontos.

Voltemos à corrida. A volta é a 32ª de um total de 50, Moss lidera com Collins em segundo. Fangio abandonou na 20ª volta e Behra, na 32ª, com problema elétrico. O argentino está irrequieto nos boxes, andando para lá e para cá. 

Até hoje, quase 53 anos depois, ainda há controvérsia sobre o que se passou naquele instante. O anel inclinado de Monza, com base de concreto, não asfalto, causava elevado desgaste dos pneus. Collin foi para os boxes, precisava substituí-los. Lembra o que escrevi há pouco: se terminasse na posição em que estava, segundo, seria campeão.

Veja detalhes sobre como era a Fórmula 1 nos anos 50

Frase histórica

Mas, de repente, todos viram Collins deixar a Ferrari DS50 para o outro piloto inscrito no carro assumi-lo. Como assim? Se ele continuasse na prova, recebesse a bandeirada em segundo, não conquistaria o campeonato, o primeiro de um inglês da história? Sim.

O fato é que Collins cedeu sua Ferrari para Fangio! Ele pronunciaria uma frase, ao se aproximar do companheiro, que ainda hoje reverbera entre os que se interessam pela história do esporte de modo geral: “É mais justo que você seja campeão, eu sou ainda jovem, terei outras oportunidades”.

Que ele afirmou não há dúvida, Collins assumiu depois. O que se questiona é se ele deixou o cockpit da Ferrari espontaneamente ou foi uma ordem explícita do Comendador, Enzo Ferrari. Como mencionado, o rádio chegaria na F1 apenas 30 anos mais tarde. 

O que se sabe do caso: ninguém expôs nenhuma placa na beira da pista para Collins. Ele parou o seu modelo DS50 e já deixou o cockpit, antes que um mecânico se aproximasse. Não se esqueça, não havia cinto de segurança, o cockpit era aberto. Aparentemente não lhe foi comunicado para repassar o carro a Fangio. 

Há os que veem no gesto de Collins um exemplo de esportividade, doação pessoal, e os que entendem ter sido ordenado a permitir que o título ficasse com Fangio e não com ele.

Fangio assumiu a Ferrari DS50 e recebeu a bandeirada em segundo, a posição original de Collins, cinco segundos atrás de Moss, o vencedor. Quando um piloto trocava de carro, os pontos somados eram divididos entre os dois, o que terminou a corrida e o que a iniciou.

Assim, Fangio somou 3 pontos de metade dos 6 atribuídos ao segundo colocado e chegou a 33, sendo 30 úteis. Moss ganhou 8 pontos da vitória e um da melhor volta, ficando com 28, ou 27 úteis. Collins perdeu até o vice. Tinha 22 pontos e somou mais três da metade do segundo lugar, atingindo 25, dois a menos de Moss.

E se você pensa que Collins demonstrou tristeza, arrependimento por sua corajosa decisão, saiba que celebrou com o argentino o seu tricampeonato, quarto título. E reafirmou ter decidido por conta própria. 

Triste, não deu certo

Um pecado que o planejado por ele naquele dia, conquistar o título também em um futuro breve, não aconteceu. Ainda na Ferrari, dois anos mais tarde, com 26 anos, Collins perdeu a vida em um acidente no GP da Alemanha, em Nurburgring. 

Em 2002, os fãs da F1 no Brasil ficaram profundamente indignados com a ordem de equipe determinada por Jean Todt, diretor da Ferrari, para que Rubens Barrichello, líder, deixasse seu companheiro, Michael Schumacher, segundo colocado, ultrapassá-lo para vencer o GP da Áustria, sexta etapa de um calendário com 17. 

O mesmo vale para Stefano Domenicali, também da Ferrari, ordenar o engenheiro de Felipe Massa, Rob Smedley, mandá-lo abrir caminho para o parceiro, Fernando Alonso. Massa liderava o GP da Alemanha, em Hockenheim, em 2010, na 48ª volta, a 19 da bandeirada, com o espanhol atrás dele. Alonso venceu, Massa ficou em segundo. Era a 11ª etapa de um calendário com 19.

Vale a pergunta: o que não aconteceria se fosse para Rubinho ou Massa cederem a Ferrari a fim de Schumacher ou Alonso serem campeões do mundo em detrimento dos seus interesses, na verdade os da nação também?

Confira o vídeo do GP de Monza em 1956: