É consenso: a temporada de 93 foi a melhor de Senna na F1

Houve grandes momentos, mas o ano marcou a sua trajetória e deixou um fantástico legado nas corridas

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© Instituto Ayrton Senna

Qual foi a melhor temporada de Ayrton Senna na F1, dentre as dez que disputou, de 1984 a 1993? A lembrança dos 25 anos da sua perda, em Ímola, Itália, naquele 1º de maio de 1994, fez fãs do piloto e da F1 discutirem seu extraordinário legado com interesse ainda maior este ano.

Na edição desta semana do F1 Vintage vou reunir algumas das opiniões de profissionais do evento sobre o tema, recolhidas ao longo dos anos. Começo por algo que chama a atenção pela verdade que encerra. No último GP de Mônaco, em maio, Flavio Briatore, como de hábito, apareceu no paddock.

E lhe mecionaram o nome de Senna, associado à efeméride dos 25 anos. Veja sua resposta: “Já? Impressionante, parece que foi ontem que no pódio daquela corrida eu informei Michael que Senna estava mortalmente ferido”. Briatore era diretor da Benetton, por quem competia Michael Schumacher, vencedor da prova.

“Senna está tão vivo que hoje, 25 anos depois, ainda falamos nele como se, de repente, fosse entrar daqui a pouco no paddock.” A respeito da melhor temporada de Senna na F1, o dirigente italiano campeão do mundo com a Benetton em 1994 e 1995, e Renault, 2005 e 2006, afirmou: “Não vi Senna correr antes de 1989. Mas a partir daí foi nosso mais difícil adversário. Creio que em 1993 o que fez, com bem menos potência que Prost, por exemplo, foi impressionante. Michael não pôde expor toda sua capacidade naquele ano porque nosso chassi ainda não estava no nível dos melhores”.

A melhor temporada de Senna na F1

Agora a opinião de quem trabalhou com Senna no seu tempo de McLaren, de 1988 a 1993, e tornou-se uma espécie de confidente, o mexicano Jo Ramirez, chefe do time: “Eu me lembro que logo depois da corrida de Mônaco, em 1993, com todos caminhando para o pódio, Bernie (Ecclestone) passou na frente dos nossos boxes, viu Ron (Dennis) e disse exatamente isto: ‘Você paga um milhão de dólares por corrida, mas ele corresponde plenamente, não?’ Todos nós rimos”.

O ex-chefe da McLaren diz que não está contando um segredo: “Todos sabem que Ron pagava 1 milhão por GP para o Ayrton. Mas depois de seis corridas, naquele ano (1993), Ayrton liderava o campeonato e Alain (Prost), com um carro muito mais potente que o nosso, estava em segundo. O que Ayrton fazia com aquele carro só mesmo ele seria capaz”.

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1991 também foi especial

Para Ramirez, o mundial de 1993 e o de 1991 foram os maiores de Senna na F1. “Em 1991, a Williams tinha um carro muito mais rápido que o nosso. No começo eles tiveram problemas, em especial no câmbio (semiautomático, uma novidade para a equipe), e Ayrton ganhou tudo porque sabia que depois seria difícil. Como em 1993, Ayrton venceu pessoalmente sete das vitórias daquele ano, andou mais que o carro”.

No fim de 1992, a McLaren perdeu a Honda, com quem havia sido campeã em 1988, 1990 e 1991 com Senna, e 1989, Prost, além de quatro títulos de construtores. Ron Dennis teve de ir no mercado buscar um motor. O único disponível e confiável, apesar de ser o de menor resposta de potência, era o Ford V-8 na versão cliente. A Benetton o tinha na versão oficial, por causa da parceria com a montadora americana.

Equipamento limitado

O modelo MP4/8-Ford de Senna dispunha de algo como 30 cavalos a menos do Ford V-8 de Michael Schumacher, na Benetton, e impensáveis 80 cavalos a menos do V-10 Renault da Williams de Prost e Damon Hill. A McLaren passou a dispor da mesma versão do Ford V-8 da Benetton apenas na segunda metade do ano, a partir do GP da Grã-Bretanha, nono do calendário com 16.

Esse é um dos motivos principais de muitos profissionais da F1 afirmarem que apesar de não ter sido campeão, em 1993, Senna disputou o seu melhor campeonato, com performances que fazem parte da antologia da F1, como as vitórias em Interlagos, Donington, Inglaterra, dando uma volta em Prost, ambas sob chuva, e Suzuka, com menos potência e um pit stop a mais.

No fim das 16 etapas de 1993 Senna tinha cinco vitórias, diante de sete de Prost. O francês somou 99 pontos, Senna, 73. Três quebras comprometeram suas chances de chegar mais perto. No GP de San Marino, pane hidráulica. No do Canadá, elétrica. No da Hungria, no acelerador eletrônico. Mas como lembrou Ramirez, depois de seis corridas Senna ainda liderava o mundial.

© Instituto Ayrton Senna

Opinião do piloto

Entrevistei muitas vezes Senna naquele ano. Uma dessas conversas me chamou a atenção em especial. O seu abandono, em Montreal, associado à vitória de Prost levou o piloto da Williams a liderar a classificação, 47 a 42. Senna nos disse sobre perder o primeiro lugar no campeonato: “Não tem mágica, se não fosse aqui seria nas corridas seguintes, em Silverstone, Hockenheim, Spa, Monza, todas pistas muito rápidas que eu vou tomar pau porque tenho bem menos cavalos”.

Pois foi nessa fase da temporada que Prost abriu uma confortável vantagem para definir a conquista do seu quarto título no GP de Portugal, em seguida ao de Monza. O francês venceu quatro seguidas, Canadá, França, Inglaterra e Alemanha. Em Hockenheim, Senna foi quarto. Ele nos disse: “Não dá para pensar em competir com o baixinho (Prost). Ele entra na reta acelera e abre um caminhão”.

O traçado alemão naquela época, de 6.815 metros de extensão, era caracterizado por longos trechos de aceleração plena. Com bem menos cavalos de potência não havia o que Senna fazer.

Ron Dennis, só elogios

Em 2014, entrevistei Ron Dennis, no GP de Abu Dhabi. Obviamente falamos de Senna, um bate papo no fim da conversa. Sua opinião: “Ayrton começou a trabalhar conosco em 1988. Sem conhecer o time, nossa dinâmica, bem diferente da que estava acostumado (na Lotus), demonstrou o que já sabíamos, uma velocidade como talvez não tenha existido na F1. Aquele campeonato que venceu(1988), tendo Alain como companheiro, foi para mim marcante. Quando achávamos que não seria possível, como em Suzuka, me parece que cruzou em 13º a primeira volta, ganhou a corrida e o mundial. Criou um novo patamar de desempenho. Alain se sentia desconfortável nas sessões de classificação”.

Mais de Ron Dennis: “Ayrton não desistia nunca. Trabalhava até conseguir o que queria. Seus campeonatos de 1988, 1991 e 1993 foram brilhantes. Fora disso teve performances incríveis também”.

Das 41 vitórias de Senna na F1, 35 foram na McLaren. E das 65 poles, 46 com os carros de Ron Dennis.

Outra experiência minha, em 1993, que considero importante registrar. Assistíamos à celebração do pódio, em Suzuka, no Japão. De repente me vi quase lado a lado com Neil Oatley, o projetista do MP4/8-Ford de Senna. Ouvi dele: “Vencer como Ayrton fez hoje, com menos cavalos e um pit stop a mais é… (um tempo para seguir falando) embaraçante para os adversários. Só ele poderia fazer o que fez aqui”.

Para atestar o que Oatley afirmou, a superioridade do equipamento de Prost em 1993 com o modelo FW15C da Williams, o francês estabeleceu 13 pole positions, o seu companheiro, Hill, duas, 2, e Senna uma, na última prova, em Adelaide, na Austrália.

© Instituto Ayrton Senna

Modelo histórico

A vantagem não estava apenas no motor V-10, mas também no chassi. A Williams tinha dois dos maiores projetistas da F1, Adrian Newey e Patrick Head. Com a total liberdade do regulamento, em especial na eletrônica, o modelo FW15C de Prost e Hill tinha suspensão ativa, direção hidráulica, câmbio automático, acelerador eletrônico, sistema fly-by-wire, freios ABS, controle de tração. O carro é considerado até hoje o mais sofisticado já projetado e construído na história da F1.

Uma experiência pessoal: a penúltima vez que visitei a sede da Williams, em Grove, estava no salão dos carros da equipe. Pedi a Jonathan, filho de Frank Williams, se poderia sentar em um carro, em especial. Ele me disse que os volantes não saíam. Mas eu poderia tentar. Para surpresa dele também, apertei os dois botões do volante do FW15C e o tirei sem dificuldade. Obviamente sentei e tive por alguns bons minutos a visão de Prost de dentro do cockpit. Não dá para esquecer. O FW15C é um marco da engenharia da F1.

Os adversários dispunham de recursos semelhantes, mas menos desenvolvidos. A partir do ano seguinte, 1994, quase tudo isso foi proibido na F1.

Reforçar a equipe

Por fim, vale resgatar o que Frank Williams me disse em uma das tantas entrevistas que fiz com ele. O dirigente já havia visto que Michael Schumacher, apesar da temporada difícil, em 1993, viria muito forte nos anos seguintes. A Benetton reunira um grupo técnico que Williams conhecida bem, liderado por Ross Brawn e Rory Byrne, além de ter uma montadora por trás, em 1994, a Ford, e a partir de 1995, a Renault.

“Acredito que para enfrentar o desafio do outro lado precisamos de um piloto como Ayrton.” Foi o que falou em seguida ao anúncio de que ele seria o seu piloto em 1994. Prost deixaria não apenas a Williams como a F1. Contra sua vontade. Se pudesse competiria pelo menos mais uma ou duas temporadas com a Williams. Mas seu direito de veto ao companheiro se restringia apenas ao seu primeiro ano na Williams, 1993. Frank Williams exerceu o seu e avisou Prost de que iria assinar com Senna. Para ele, um piloto mais capaz de vencer Schumacher e seu staff.

O que Frank Williams e ninguém poderia imaginar era que com a mudança drástica do regulamento, de 1993 para 1994, Newey iria coordenar o projeto de um carro, o modelo FW16-Renault, “inguiável”, da definição de Senna. Da mesma forma ninguém esperava que Senna pudesse perder a vida na terceira etapa daquele ano, no Circuito Enzo e Dino Ferrari.

Minha opinião? Passei a seguir Senna na F1 de perto, indo à maioria dos GPs, a partir de 1987, quando estava ainda na Lotus. Demonstrava todo ano ser um piloto bem acima da média, com performances excepcionais, capazes de gerar elogios de todos, mesmo dos desafetos. Mas o ano que Senna mais me impressionou foi o de 1993, por conta do já exposto.

Competia em outra categoria e, como ele disse, se a maioria das pistas da segunda parte do campeonato não fosse de alta velocidade, daria para lutar pelo título até o GP da Austrália. Senna fez bem mais do que o fantástico, mas limitado, MP4/8-Ford, permitia.

Veja o vídeo da chegada histórica de Ayrton Senna no GP do Brasil de 1993 realizado em Interlagos: