Em 1958, Fangio não correu em Cuba: foi sequestrado pelos revolucionários

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Juan Manuel Fangio, argentino, já com 46 anos de idade, havia conquistado meses antes daquele 23 de fevereiro de 1958 o seu quinto título mundial na F1, o quarto seguido, desta vez com a equipe Maserati.

Em Cuba, Fulgêncio Batista liderava o país com mão de ferro. Ditadura sangrenta. Havia dado um golpe de estado em 1952, o segundo – o primeiro foi em 1933 -, e precisava mostrar ao mundo que “tudo ia bem na ilha”.

Já no ano anterior, 1957, a ideia de organizar uma corrida de carros com bons pilotos e equipes da época havia dado ótimos resultados para o governo.

Batista abriu os cofres para, em 1958, convencer Fangio correr em Cuba com a Maserati 300S, o inglês Stirling Moss e o americano Phil Hill, Ferrari 335 Sport, o alemão Wolfgang von Trips, Ferrari 315 Sport, e os franceses Jean Behra e Maurice Trintgnant com Maserati 300S, dentre outros astros da época.

Mas a corrupção desmedida de Batista e o descaso com a população geraram um grupo revolucionário chamado Movimento 26 de Julho, liderado pelo jovem Fidel Castro. Eles queriam denunciar para o mundo o que ocorria em Cuba. Uma minoria, ligada a Batista, vivia como um rei enquanto o povo passava até fome. O movimento combatia na clandestinidade.

A segunda edição do GP de Cuba, com a presença de Fangio, seria um acontecimento na nação caribenha. O traçado percorreria às avenidas à beira mar, no bairro chamado Malecon, um convite para visitar o país.

O chefe de operações do movimento de Castro era Faustino Perez. Após estudar como tirar proveito da concentração de interesse na corrida de carros que reuniria a nata dos seus profissionais em Havana, Perez teve a ideia de simplesmente sequestrar o maior piloto do mundo, Fangio. Com mencionado, há pouco cinco vezes campeão, uma unanimidade.

Seria o correspondente a hoje Lewis Hamilton ir disputar um GP em um país onde há movimentos interessados na queda do governo e ele acabar sequestrado. Dá para imaginar o impacto que uma notícia dessas teria na imprensa e na opinião pública mundial?

Pois foi exatamente o que aconteceu no dia 23 de fevereiro de 1958, em Havana: Fangio ficou sequestrado 27 horas.

O planejamento

Perez entrou em contato com Oscar Lucero Moya, o principal executor das ações do movimento. Estabeleceram que a melhor hora seria sequestrar Fangio no domingo à noite, um dia antes da corrida. Um grupo formado por nove integrantes do Movimento 26 de Julho, dentre eles o seu líder, Lucero, e a esposa, estaria no hall do hotel Lincoln, na velha Havana.

Eles aguardariam o melhor momento de agir. Pouco antes das 21 horas, Fangio saiu do elevador para se encontrar com amigos e o pessoal da Maserati. Foi quando tudo aconteceu:

“Estávamos conversando quando um homem vestindo jaqueta de couro se aproximou com uma pistola automática na mão. Nos alertou em voz decidida para ninguém se mexer, caso contrário nos mataria”, contou depois Fangio. Era Lucero.

No primeiro instante, Fangio achou que era uma brincadeira. Mas a seguir entender ser sério. Lucero o ordenou acompanhá-lo discretamente até a saída. O restante do grupo os cobriria.

Um Plimouth preto permaneceu estacionado próximo para receber Fangio, Lucero e alguns dos seus agentes. Não conduziam em disparada, como talvez fosse de se esperar, mas lentamente, para não chamar a atenção. Trocaram de carro duas vezes antes de chegar a uma residência na área rural de Havana.

Desculpe, senhor sequestrado

Fangio contaria não ter sido ameaçado, mau tratado, ao contrário, Lucero lhe pedia desculpas. Na residência, Fangio dispôs do conforto de um hotel.
A notícia do sequestro de Fangio virou manchete no mundo todo. Situação no mínimo embaraçosa para Batista.

Mas para tentar reverter o desgaste, o ditador de Cuba achou que o melhor a fazer seria seguir adiante com o evento, a corrida aconteceria no dia seguinte, segunda-feira, programação original. O povo havia amado a primeira edição e, desta vez, apesar da ausência de Fangio, alguns dos melhores pilotos e carros do mundo estavam lá.

A segunda-feira amanheceu sem que a polícia de Batista avançasse na investigação do sequestro, apesar de apresentar às testemunhas álbuns de fotos para identificar os supostos criminosos.

Fugir da polícia

Faustino Perez, o braço direito de Castro, foi conversar com Fangio. Deu detalhes do que desejam com seu sequestro. Tão logo a corrida acabasse, seria liberado. Estavam negociando com o embaixador da Argentina em Cuba, Raul Lynch, levá-lo a sua casa. Isso daria um tempo para escapar do assédio imediato da polícia.

Perez diria, anos mais tarde, que Fangio não se interessou em ouvir a transmissão da corrida no rádio.

Se o sequestro de Fangio já representava um golpe para os planos de Batista de capitalizar com o GP, o que aconteceu na sétima volta colaborou ainda mais para isolar o ditador.

O piloto cubano Armando Garcia Cifuentes perdeu o controle da sua Ferrari na curva próxima à Embaixada dos Estados Unidos e projetou-se na direção da torcida, de pé, ao lado da pista, sem proteção alguma. Resultado: sete mortos e 40 feridos. A competição foi declarada encerrada em Moss, vencedor.

Estava na hora de liberar o sequestrado. O responsável pelo desfecho da operação era Arnold Rodriguez. Fangio contou o que ouviu: “De novo me pediu desculpas. Disse que quando a revolução fosse bem sucedida e chegasse ao poder eu seria convidado de honra do governo para viajar a Cuba”.
Fangio disse mais: “Eles me deram uma carta, sempre em tom de desculpa, por me usarem com propósitos políticos. Falei que se fosse por uma boa causa, aceitava o ocorrido”.
Fangio foi deixado na residência do embaixador argentino e o grupo liderando inicialmente por Lucero e depois Rodriguez pôde escapar. O sequestro foi um sucesso. O projeto e os acontecimentos na corrida colaboraram para enfraquecer Batista.

Herói nacional

Em janeiro do ano seguinte, 1959, portanto 11 meses depois de Castro, Perez, Lucero, Rodriguez, dentre outros, realizarem o ato mais ousado associado ao universo da F1, Batista fugiu às pressas para a Espanha. A revolução cubana levou Castro ao poder.

O Movimento 26 de Julho pagou um preço. Um traidor denunciou Lucero à polícia de Batista dois meses após o sequestro. Foi torturado e executado. Virou um herói da revolução. Há uma universidade com o seu nome.

Nos anos seguintes, Fangio viveu longe de Cuba. Naquela temporada, 1958, o argentino disputou somente duas etapas do campeonato, Argentina, abertura, e França, sexta, ainda na Maserati, e abandonou as pistas.

O bicampeonato com a Mercedes, 1954 e 1955, o fez estar sempre associado à montadora alemã. E foi essencialmente essa ligação que o fez regressar a Cuba em 1981. O governo fez uma grande aquisição de caminhões Mercedes e Fangio aproveitou a ocasião de assinar o contrato para voltar à ilha.

Faustino Perez era ministro de Castro. No encontro, Fangio o tratou com deferência, não demonstrou ressentimentos. Quando o piloto argentino completou 80 anos, em 1991, o ex-grupo de guerrilheiros lhe enviou uma mensagem para celebrar a data e assinou: “Seus amigos e sequestradores”.