Em 3° na F2, Sette Câmara se prepara para reta final do campeonato

Confira o depoimento exclusivo do piloto sobre a retomada do campeonato no circuito de Spa-Francorchamps, na Bélgica

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“Chega de férias. Não vejo a hora de voltar a acelerar o meu carro.” Essa foi a forma como Sérgio Sette Câmara, piloto patrocinado pela Youse, primeiro se manifestou quando a reportagem lhe pediu para falar sobre a paralisação dos campeonatos da F1, F2 e F3, do dia 5 até este domingo. As três competições retomam suas atividades no próximo fim de semana no circuito favorito da maioria desses profissionais, Spa-Francorchamps, na Bélgica.

A F1 realiza a sua 13ª etapa. A F2, de Sérgio, a nona, e a F3, dos brasileiros Pedro Piquet e Felipe Drugovich, a sexta.

Até quarta-feira, Sette Câmara permanecerá trabalhando na sede da sua equipe, a francesa DAMS, em Le Mans, ao lado do mítico autódromo das 24 Horas de Le Mans. Neste domingo, o piloto de Belo Horizonte, 21 anos de idade, treinou no simulador onde faz parte da sua preparação na Holanda.

E nesta segunda e terça-feiras também simula as corridas na Bélgica e a seguinte, em Monza, Itália, uma semana apenas depois, de 6 a 8 de setembro, no equipamento da DAMS, além das tradicionais reuniões com os engenheiros. Nestas é discutido o melhor acerto do carro para começar os primeiros treinos livres, na sexta-feira, e através de vídeos das edições passadas da prova analisam as melhores estratégias, dentre outros estudos.

Depois de oito etapas, dois terços do calendário, a F2 entra na reta final. São mais quatro GPs até o encerramento do campeonato. O líder é o holandês Nyck de Vries, da ART, 24 anos, com 196 pontos, seguido pelo canadense Nicholas Latifi, 24 anos, companheiro de Sérgio Sette Câmara na DAMS, com 166. Sérgio está em terceiro, com 141. O italiano Luca Ghiotto, 24 anos, da UNI-Virtuosi, com 135, e o inglês/coreano Jack Aitken, da Campos, 23 anos, estão próximos, com 135 e 134.

Em seguida aos GPs da Bélgica, da Itália, e da Rússia, este de 27 a 29 de setembro, a F2 fará outra grande pausa no calendário. Só volta para as duas provas de encerramento do ano, no Circuito Yas Marina, em Abu Dhabi, de 29 de novembro a 1º de dezembro, quando a F1 também realiza a última etapa do mundial.

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O objetivo de todos os pilotos, obviamente, é chegar na F1. Sette Câmara precisa terminar o ano entre os quatro primeiros para o obter a superlicença, documento emitido pela FIA. Os três primeiros na F2 recebem os 40 pontos na carteira de piloto necessários para a emissão da superlicença. O quarto colocado, 30 pontos. Mas Sérgio tem 10 pontos do sexto lugar no campeonato do ano passado.

Para chegar na F1 com maior lastro, contudo, é importante terminar o ano da F2 entre os três primeiros. Nesta temporada da F1, por exemplo, os três primeiros colocados da F2, em 2018, tornaram-se titulares. O campeão George Russell, 22 anos, é piloto da Williams; o vice, o tailandês Alexander Albon, 23, estreia na Red Bull-Honda no GP da Bélgica; e o terceiro, o inglês Lando Norris, 19 anos, compete pela McLaren.

Albon disputou as 12 primeiras corridas da F1, este ano, pela Toro Rosso. Como o francês Pierre Gasly não acompanhou nem de longe o ritmo de Max Verstappen na Red Bull, a direção da empresa decidiu deslocar Gasly para a Toro Rosso e verificar melhor o potencial de Albon com um carro mais rápido, o da Red Bull, exatamente como fez entre Max e o russo Daniil Kvyat, em 2016, a partir do GP da Espanha. Foi quando o mundo da F1 descobriu o supertalento de Max.

Sérgio: “Antes de pensar em passar para F1 preciso terminar bem o trabalho na F2”.

Confira o depoimento de Sette Câmara

Após duas semanas distante das pistas da Europa, Sérgio Sette Câmara regressou ao Velho Mundo para a sequência da temporada e deu o depoimento abaixo para a Youse:

Oi, amigos.

Confesso sentir saudades de contar minhas histórias aqui neste espaço destinado também a confissões. Baterias recarregadas. Se você me perguntasse como me sinto, responderia assim. Não vejo a hora de voltar a controlar um carro a 300 km/h, em especial nessas duas pistas fantásticas que adoro, Spa e Monza. Aliás foi em Spa que obtive minha primeira vitória na F2, em 2017, com o carro da amável equipe MP Motorsport.

Antes de falar da F2, deixa eu contar um pouco o que fiz nas últimas semanas. Depois do GP da Hungria, dia 4, viajei para a Inglaterra para realizar um trabalho no simulador da McLaren. Na sequência, como todas das equipes de F1 são obrigadas a fechar suas sedes por 15 dias, e o pessoal da F2 também tira férias, voei para o Brasil.

Foram duas semanas maravilhosas com a minha família, em Minas, os amigos do tempo do início de carreira, no kart, período dentre os mais deliciosos que experimentei. Continuei trabalhando fisicamente e, como falei, andei bastante de kart, excelente atividade para manter os reflexos em dia.

Essas pausas são importantes para todos no automobilismo. Elas foram criadas, imagine que apenas nos últimos anos, para os profissionais das corridas que vivem pulando de país e país pelo mundo terem convivência familiar. Aqui na Europa, julho e agosto são meses das férias escolares. E é verão. Sempre ouvi do pessoal das minhas equipes que antes de implantarem essas férias em agosto, eles mal viam os filhos crescer. As competições prosseguiam durante as férias das crianças.

Neste domingo trabalhei naquele simulador que sempre falo aqui, na Holanda. Tenho uma boa relação com o pessoal de lá. É sempre útil. Depois de um dia de trabalho voei para Paris e de carro segui para Le Mans, cerca de duas horas distante. Hoje, segunda-feira, amanhã e até na quarta-feira, pela manhã, vamos nos concentrar não apenas nos GPs da Bélgica e da Itália, agora na sequência, mas também no que preciso fazer para avançar na classificação do campeonato.

Lutar pelo título está um pouco difícil porque o Vries, que é bom piloto, se aproveitou de algumas dificuldades que o Nicholas (Latifi) e eu tivemos para abrir bons pontos. Mas vejo o vice como um alvo bem possível de ser alcançado.

O trabalho que realizamos antes de irmos para a Hungria deu certo. Em 2018, a DAMS não teve um grande carro lá e em Spa. Mudamos o acerto para o evento de Budapeste e terminei em quinto, no sábado, e terceiro no domingo. Andamos para a frente. Acredito que a preparação que fizemos para Spa, agora, deva nos dar também a chance de lutar por bons pódios.

E, como falei, adoro correr nesses traçados rápidos, desafiadores.

Imagino que os amigos que seguem minha carreira gostariam de perguntar como vão os meus planos para a F1. Companheiros, para pensar em F1 eu preciso primeiro fazer a minha parte, mostrar que posso ser piloto da F1. Não apenas chegando entre os quatro primeiros no campeonato para obter a superlicença, mas com performances convincentes, como as de domingo, na Hungria, quando fui terceiro, a vitória na segunda prova em Spielberg, na Áustria, e os dois pódios na etapa de abertura da F2, no Barein, dentre outros bons resultados.

Os chefes de equipe de F1 historicamente observam com maior atenção essa fase final da temporada da F2, por conta de o próprio mercado de pilotos de F1 se movimentar mais. Até o GP da Itália, portanto em menos de duas semanas, acredito que a Mercedes anunciará quem será o companheiro de Lewis Hamilton em 2020. E a partir daí uma série de negociações já em curso vão avançar.

Espero fazer a minha parte, agora, sinto-me melhor preparado, e ver o que irá acontecer na F1. O que já vimos é que provavelmente não será como este ano, quando tivemos quatro estreias, as dos três primeiros da F2, em 2018, e do italiano Antonio Giovinazzi, na Sauber, vice da F2 em 2017. Provavelmente teremos menos vagas disponíveis.

Não posso desviar o meu foco da F2. Se fizer isso, com certeza não vou conquistar os resultados, desenvolver as performances que podem me dar a chance de passar para a F1.

Vamos lá. Nosso próximo encontro, agora, será direto do Circuito Spa-Francorchamps, na quinta-feira. Estou feliz por retomar nosso contato aqui. Grande abraço!