Emerson e seu pai, o Barão, os pioneiros do automobilismo brasileiro

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O que há em comum entre os pilotos brasileiros que neste fim de semana competem na F2, F3, em Spa-Francorchamps, na Bélgica, e os representantes do país na corrida de Fórmula Indy de Portland, nos Estados Unidos? Isso para nos restringirmos apenas a essas competições.

Resposta: todos são, de certa forma, discípulos do pioneiro no automobilismo brasileiro, o piloto que mostrou o caminho das pedras, tanto para quem desejasse disputar o mundial de F1 ou o norte-americano de F-Indy, as duas categorias de monopostos, para carros com rodas descobertas, mais importantes do mundo.

E Emerson deixou claro também como se faz para obter sucesso: conquistou dois títulos da F1, em 1972, com Lotus, e 1974, McLaren, e foi campeão da F Indy, em 1989, pela Patrick. Ganharia ainda duas vezes a corrida de carros mais famosa do planeta, a mítica 500 Milhas de Indianápolis, em 1989, na Patrick, e 1993, Penske.

Maior desbravador do automobilismo brasileiro

Em uma conversa informal com Emerson, há bons anos, ao abordar esse seu pioneirismo no automobilismo brasileiro, ouvi que maior desbravador foi seu pai, Wilson Fittipaldi, o Barão, promotor de corridas nos anos 40 e 50 em São Paulo, em um autódromo construído distante da cidade, entre as represas de Guarapiranga e Bilings, Interlagos.

Leia no fim do texto o que Emerson me contou sobre o trabalho do Barão e a importância para ele e seu irmão, Wilson, tornarem-se profissionais do automobilismo e estimularem gerações.

Depois de vencer campeonatos de kart e corridas de automóvel no Brasil, entre 1964 e 1968, Emerson conseguiu algum dinheiro com patrocinadores e embarcou para a Inglaterra, a fim de ter uma carreira internacional de piloto além do automobilismo brasileiro, como fez seu ídolo, o grande Chico Landi no fim dos anos 40 e início dos 50.

Emerson na 500 Milhas de Indianápolis, em 1993, Penske.

Chegou vencendo

Frequentou a escola de pilotagem de Jim Russell e com um carro alugado foi disputar a Fórmula Ford. Sem maiores dificuldades para se adaptar ao alto nível das competições na Inglaterra, novidade para ele, mesmo sem dispor do melhor esquema começou a colecionar vitórias.

Com 22 anos, na primeira temporada na Europa, Emerson foi campeão britânico de F Ford e Fórmula 3. Isso chamou a atenção do fundador e dono da equipe Lotus, o genial Colin Chapman, engenheiro inovador da F1. Pois acredite que pouco mais de apenas um ano depois de desembarcar na Inglaterra, sem nada conhecer e mesmo falar a língua, Emerson estreava na F1 na lendária Lotus.

Foi no dia 18 de julho de 1970, com o modelo 49C-Cosworth, da Lotus, já antigo, pois estreara na F1 em 1967. Recebeu a bandeirada em oitavo. O austríaco Jochen Rindt, seu companheiro, com o modelo novo, Lotus 72, venceu. Mas como para Emerson não é preciso muito para estar entre os campeões, naquela mesma temporada de estreia na F1, 1970, o piloto venceu o GP dos Estados Unidos, em Watkins Glen, já com Lotus 72. Rindt viria a perder a vida na etapa de Monza, duas antes.

Para completar o ciclo de precocidade, Emerson tornou-se, em 1972, na Lotus, o mais jovem campeão do mundo até então, com 25 anos de idade.

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Do outro lado do Atlântico

Em 1984, Emerson Fittipaldi tinha 38 anos. Havia deixado a F1 em 1980 depois de enfrentar os imensos desafios de criar seu próprio time. Perdeu quase todo o patrimônio que conquistou. O interesse por voltar a competir associado ao desejo natural de reconstruir a vida financeiramente o levou a aceitar o convite para disputar corridas que bem pouco têm a ver com a F1, a americana F Indy.

A exemplo do seu caráter pioneiro na Europa, sem contar Landi, muitos anos antes, em outra era, Emerson começou a desvendar os vários segredos da F-Indy, ainda mais diferentes para pilotos do automobilismo brasileiro que atuavam na Europa. Nos Estados Unidos, as provas em circuitos ovais com os carros atingindo 400 km/h eram e são comuns.

Pois Emerson aprendeu rapidamente o que esse “novo” automobilismo exigia e, exemplo do que fez na Europa, começou a ganhar corridas, como no trioval de Michigan, um dos mais velozes do mundo. Como mencionado, fez também sucesso.

Emerson Fittipaldi comemora a conquista da Indy500 | Foto: IMS

Seguidores do mestre

A essa altura, 1989, seu legado já havia gerado para o Brasil mais quatro títulos mundiais na F1. Nelson Piquet seguiu os passos de Emerson, em 1977, para em 1981 e 1983 ser campeão com a Brabham e em 1987, Williams. Ao mesmo tempo, outro jovem carismático e impressionantemente rápido já encantava o mundo também com seu talento, Ayrton Senna. Com McLaren, venceu o mundial de 1988 e seria campeão, ainda, em 1990 e 1991, sempre com McLaren.

Os dois, Piquet e Senna, sempre lembraram que se não fosse Emerson lhes mostrar como se fazia para seguir carreira na Europa provavelmente não estariam ali. Disserem mais: decidiram ser pilotos depois de acompanhar a trajetória de Emerson na Europa. Os dois seguiram exatamente os mesmos passos. Piquet já chegou para a F3, enquanto Senna começou também na F Ford, para passar pela F3 antes de desembarcar na F1.

Mais discípulos do automobilismo brasileiro

Do outro lado do Atlântico Norte, na F Indy, as sementes plantadas por Emerson germinaram esplendidamente também no automobilismo brasileiro. Em 2000 e 2001, Gil de Ferrari foi campeão, em 2002, Christiano da Matta, e em 2004, Tony Kanaan.

Mais: a lista de vitórias brasileiras nas 500 Milhas de Indianápolis cresceu prodigiosamente. Helio Castro Neves comemorou a prestigiadíssima vitória em 2001, 2002 e 2009. Gil, em 2003, e Kanaan, em 2013.

Esses dados não representam mais que apenas o resumo do resumo do sucesso do automobilismo brasileiro pelo mundo, todos inspirados no pioneiro, Emerson. Eles conquistaram os mais importantes e distintos títulos nas pistas.

Como tudo começou no automobilismo brasileiro

Agora revelo o que Emerson me contou sobre seu pai. Nos anos 1940, o Barão era radialista. Convenceu empresas a investir no patrocínio de corridas. O dono da rádio Pan-Americana, Paulo Machado de Carvalho, apoiava a iniciativa, permitindo ao Barão usar a rádio para promover os eventos.

Em 1948, Chico Landi foi disputar o GP de Bari, na Itália. Correu com Ferrari e venceu os grande nomes da época, como Tazio Nuvolari, Alberto Ascari e Giuseppe Farina. No ano seguinte, a rádio Pan-Americana enviou o Barão para transmitir a mesma corrida. E lá na Itália ele assistiu às Mil Milhas. Ficou encantado. Regressou ao Brasil e em 1956 organizou em Interlagos a primeira edição da histórica Mil Milhas Brasileiras.

Emerson Fittipaldi presta homenagem ao pai, Barão.

Foi nesse evento que Emerson sentiu as emoções da alta velocidade pela primeira vez, com nove anos. O gaúcho Catarino Andreatta o levou na sua carretera, nos treinos livres, para algumas voltas no traçado de oito quilômetros de Interlagos. “Eu me segurava onde dava”, lembrou Emerson. Não havia cinto de segurança. Se apaixonou ainda mais.

No início dos anos 50, a dona de Interlagos, a construtora Autoestrada, decidiu loter a área do autódromo. O Barão liderou um movimento, chegando à Câmara Municipal, o que fez com que a Prefeitura de São Paulo assumisse Interlagos. Está até hoje lá, fomentando o automobilismo brasileiro.

Criou a CBA

Mais do Emerson para explicar o pioneirismo do pai no automobilismo brasileiro. No começo dos anos 60, a autoridade esportiva brasileira no automobilismo era o Automóvel Clube do Brasil, reconhecido pela FIA. Só que os seus desmandos e desinteresse eram tantos que o Barão e o publicitário Mauro Salles de Oliveira, dentre outros, convenceram a FIA a retirar o direito do Automóvel Clube e repassá-lo à entidade criada com a ajuda decisiva do Barão, a Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA), mantido até hoje.

“Agora me responda, por favor, se o Barão foi ou não o grande pioneiro?”, perguntou-me Emerson. Fiquei tão animado que contei a história do Barão em livro, depois de longas entrevistas com ele. Wilson Fittipaldi pai estendeu sua obra até 2013, quando foi promover outros eventos, aos 92 anos de idade.

O legado de pai e filho estão aí, responsáveis diretos pelo automobilismo brasileiro, apesar da ausência de pilotos brasileiros hoje na F1, ser ainda um esporte dentre os mais seguidos e de sucesso no país.