F1 Vintage: A F1 fala uma língua e o GP dos Estados Unidos outra

A F1 tenta se estabelecer nos Estados Unidos desde a sua origem, em 1950. E, acredite, nunca conseguiu. Como assim, afinal vamos para a oitava edição da corrida em Austin?

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De 1961 a 1980, a F1 se apresentou em Watkins Glen. Foi lá que Emerson Fittipaldi venceu seu primeiro GP, em 1970, com Lotus. | Sutton Imagens

A F1 se apresenta no GP dos Estados Unidos neste fim de semana, Circuito das Américas, em Austin, Texas, 19ª etapa do campeonato, prova que provavelmente deve permitir ao brilhante Lewis Hamilton, da Mercedes, conquistar seu sexto título mundial.

Neste GP dos Estados Unidos, tudo o que ele precisa fazer é somar quatro pontos, receber a bandeirada na oitava colocação, por exemplo, mesmo que seu adversário e companheiro de Mercedes, Valtteri Bottas, vença. Convenhamos que suas chances são grandes, considerando-se que Hamilton foi primeiro em dez das 18 corridas já disputadas este ano, tem 83 vitórias e 149 pódios no currículo de 247 GPs.

O tema de nossa conversa hoje é o GP dos Estados Unidos em si. Nem todos sabem, mas a F1 é um evento pouco ou quase nada conhecido na terra de Tio Sam. A F1 é uma competição essencialmente europeia, ainda que se desloque pela Oceania, Oriente Médio, América do Sul, Ásia e América do Norte.

Até mesmo a única equipe de proprietário americano, a Haas, de Gene Haas, tem sua sede em Banbury, Inglaterra. As nove demais são europeias. Mercedes, Alemanha, Ferrari e Toro Rosso, Itália, Red Bull, Áustria, Alfa Romeo-Sauber, Suíça, Renault, França, e McLaren, Racing Point e Williams, Inglaterra.

O Circuito das Américas, em Austin, recebe no fim de semana a F1 pela oitava vez. Mas luta para mantê-la | Imagem: COTA

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Tentativas frustradas do GP dos Estados Unidos

A F1 tenta se estabelecer nos Estados Unidos desde a sua origem, em 1950. E, acredite, nunca conseguiu. Como assim, afinal vamos para a oitava edição da corrida em Austin? A torcida dos profissionais da F1 é grande para que o evento se solidifique no Texas, mas não há nenhuma certeza.

Os promotores do GP dos Estados Unidos no Circuito das Américas lutam a duras penas para pagar o cobrado pela Formula One Management (FOM) toda vez que a F1 lá vai, algo estimado em 25 milhões de dólares (R$ 100 milhões), a temida promoter fee, razão de várias nações deixarem o calendário da F1. Sem esse pagamento elevado pode tirar o cavalinho da chuva que a FOM não leva sua competição para lá.

Antes de a F1 desembarcar no GP dos Estados Unidos, em Austin, Bernie Ecclestone, a partir de 1971, e seus antecessores tentaram estabelecer a F1 em vários locais dos Estados Unidos: Seabring (1 vez), Riverside (1 vez), Watkins Glen (20 vezes), Long Beach (8 vezes), Las Vegas (2 vezes), Detroit (7 vezes), Dallas (1 vez), Phoenix (3 vezes) e Indianápolis (8 vezes).

Mas por que tanta dificuldade para tornar a F1 um esporte minimamente popular nos Estados Unidos?

O Circuito de Indianápolis recebeu a F1 de 2000 a 2007, mas não teve como continuar pagando o alto valor cobrado. | Imagem: Mark Thompson/Getty Images)

Reservada para milionários

Uma combinação de fatores. Primeiro a natureza da competição. A F1 pratica a chamada “lei da selva”. Quem tem mais dinheiro, e muito dinheiro, não menos de 300 milhões de euros (R$ 1,5 bilhão) por ano, e sabendo-os aproveitar, vai lutar por vitórias e títulos. Sem essa condição “sine qua non” pode esquecer qualquer possibilidade de sucesso. E sequer se aventure na F1.

Os demais competidores são naturais coadjuvantes do espetáculo. Nos últimos anos, desde a introdução da tecnologia das unidades motrizes híbridas (motor turbo convencional integrado a dois motores elétricos), em 2014, somente a Mercedes venceu os campeonatos de pilotos e construtores. Com o iminente título de Hamilton no fim de semana, serão seis mundiais de pilotos e seis de construtores.

Eventuais vitórias nas corridas foram obtidas por Ferrari e Red Bull. Não sobrou absolutamente nada para as demais equipes.

Você já assistiu a uma prova da Nascar, a popularíssima Stock Car americana? Os carros andam juntos o tempo todo, não sabemos quem irá vencer até os instantes finais. Mais: a vitória é possível para um número grande de competidores. Na Fórmula Indy o cenário é semelhante.

Maior justiça

Não é tudo, o regulamento é extremamente restritivo quanto ao que cada time pode fazer em seus carros, a fim de evitar de quem tem mais dinheiro se diferencia dos demais, torne o carro mais rápido e confiável.

Enquanto na F1 Mercedes, Ferrari e Red Bull têm orçamento superior a 300 milhões de euros por ano, as melhores equipes da Nascar e da Fórmula Indy investem no máximo 20 milhões de dólares (R$ 80 milhões) para manter dois carros em seus campeonatos.

Estamos falando de diferenças abissais de orçamente entre o que é necessário para ser um potencial vencedor na F1 e na Nascar e Fórmula Indy. Como mencionado, as consequências dessas duas realidades para suas competições são brutais.

Os americanos compraram os direitos comerciais da F1. O grupo Liberty Media os adquiriu do sócio principal até 2016, o grupo britânico CVC, pela bagatela de 8 bilhões de dólares (R$ 32 bilhões). Acreditaram que na condição de donos poderiam modificar a F1, rever esses conceitos meio selvagens de privilegiar quem tem dinheiro.

Mudança histórica

Hoje, três anos depois de assumirem o evento, os homens do Liberty Media, liderados por Chase Carey, entenderam que não vão conseguir mudar muita coisa na F1. A cultura europeia é radicalmente distinta da sua.

Mas conseguiram emplacar algo que bem pouca gente acreditava ser possível: a existência de um limite orçamentário. A partir de 2021, as equipes não poderão gastar mais de 175 milhões de dólares (R$ 700 milhões) por temporada, sendo que o valor pago aos pilotos, aos três principais diretores do time e as despesas com marketing estão fora desse limite. É uma avanço extraordinário.

Quem sabe a médio prazo esse teto de investimento iguale mais a performace das equipes, o americano passe a se interessar mais por assistir às corridas de F1 e elas cheguem à TV aberta ao vivo, colaborando para aumentar o interesse.

Não só: com tudo isso o público vá mais ao autódromo, hoje de Austin, e os promotores de GP dos Estados Unidos não tenham mais dificuldades para levantar o cobrado pela FOM, cobrir suas despesas de promoção e organização e ainda obter lucro, garantindo a permanência do GP no calendário da F1.

Até hoje, de forma consolidada, ninguém conseguiu, por tudo o que foi exposto, a F1 anda na contramão do que a maioria dos americanos apreciam.