Fórmula 1, Fórmula 2 e Fórmula 3: quais as diferenças?

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Pela primeira vez em mais de 45 anos, não temos um brasileiro competindo nas pistas da Fórmula 1. Mas os torcedores não ficaram abandonados. Dá pra acompanhar o desempenho de um piloto mineiro que é a grande promessa para chegar à F1 em breve. Sérgio Sette Câmara compete pela equipe Carlin na Fórmula 2, categoria que é considerada a porta de acesso para a principal competição de automobilismo do mundo. A boa notícia é que você pode acompanhar as duas pela televisão (a Fórmula 1 tem transmissões pela Globo, enquanto a Fórmula 2 é exibida na SporTV e na Fox Sports). Mas se você ainda não entende muito bem as diferenças entre a F1 e a F2, dê uma olhada abaixo na reportagem que o jornalista Livio Oricchio preparou:

F1, F2 e F3: Entenda como é cada competição

Livio Oricchio, de Nice (França)

F1, F2, F3, afinal o que é isso? Ayrton Senna e Nelson Piquet foram três vezes campeões do mundo na Fórmula 1 e Emerson Fittipaldi, duas. Pois saiba que antes de chegar à F1, os três passaram pela F3, onde também conquistaram o título do campeonato. Um piloto para competir na categoria máxima do automobilismo mundial, a F1, precisa formar-se nas competições preparatórias. Há uma escalada de potência, velocidade, estágio de desenvolvimento tecnológico e custo de participação entre as três.

Os carros da F3 têm motores que respondem com 240 cavalos de potência, usam pneus relativamente estreitos e chegam a 230 km/h. Já os da F2 são carros maiores, os pneus, mais largos, a potência é bem mais elevada, 620 cavalos, atingem 300 km/h, e algumas exigências da pilotagem os aproximam mais dos modelos da F1, como o piloto interagir com várias funções através de comandos instalados no volante.

Dá para imaginar o que é um monoposto de Fórmula 1, não é mesmo? Epa, espera aí. Apareceu um termo novo, “monoposto”, o que é isso? No automobilismo, as competições se dividem entre carros do tipo monoposto e turismo. Para simplificar os dois conceitos, monopostos são os carros com rodas expostas. Já os de turismo, são os que vemos por exemplo nas 24 Horas de Le Mans, modelos com rodas cobertas e a maioria com o cockpit fechado.

Agora você já sabe o que quer dizer “monoposto de F1”. Ela é o sonho da grande maioria dos meninos que um dia começou no kart, migrou para a Fórmula Renault, passo inicial para muitos no automobilismo, depois F3 e F2. A F1 é o máximo! Quase tudo lá é exclusivo. E impensavelmente caro. Seus carrões atingem 370 km/h. Não usa motor, mas unidade motriz, uma combinação entre motor turbo convencional e dois elétricos, que disponibiliza, nas sessões de classificação, quase mil cavalos de potência!


Carro da Ferrari na Fórmula 1

As cifras

Essa questão do custo para disputar uma temporada obviamente é outro fator de diferenciação entre as categorias. Enquanto um piloto necessita de um investimento aproximado de 800 mil euros (R$ 3,6 milhões) para competir no Campeonato Europeu de F3, na F2 esses valores dobram. A F1 é uma categoria profissional, diferentemente da F2 e da F3, consideradas de formação, escola, uma passagem para chegar à Fórmula 1.

Na F1, há os pilotos que são pagos, os que têm contratos impensavelmente altos e os que, mesmo levando patrocinadores, recebem para disputá-la. Para você ter uma ideia: Lewis Hamilton, da Mercedes, Sebastian Vettel, Ferrari, e Fernando Alonso, McLaren, recebem de suas equipes algo como 36 milhões de euros (R$ 160 milhões) por ano.

No segundo escalão, pilotos como Kimi Raikkonen, Ferrari, Daniel Ricciardo, Red Bull, e Valtteri Bottas, Mercedes, colocam no banco cerca de 8 milhões de euros (R$ 36 milhões) por temporada. Os demais, menos.

Uma escuderia de Fórmula 1 capaz de lutar pelo título, como Mercedes, Ferrari e Red Bull, não investe menos de 300 milhões de euros (R$ 1,35 bilhão) por ano. As que lutam pelo quarto lugar este ano, Renault e McLaren, metade desse valor. E há as que competem com bem menos, 90 milhões de euros (R$ 400 milhões), casos de Force India, Toro Rosso, Haas, Sauber e Williams.

Na F2, um time com dois carros também, como na F1, precisa de 3,2 milhões de euros (R$ 14 milhões). Na F3, perto de 1,6 milhão de euros (R$ 7,2 milhões).

O salto técnico

Tecnicamente, as diferenças entre F1 e F2 também são grandes. Vamos exemplificar com números de performance? A F2 tem este ano 12 etapas no campeonato, sempre com uma corrida no sábado e outra no domingo, exceto Mônaco, sexta-feira e domingo. Todas são disputadas no mesmo fim de semana da F1.

No Circuito de Barein, por exemplo, etapa de abertura da F2 e segunda do calendário da F1, o pole position na F2 foi Norris com o tempo de 1min41s761. Na F1, a pole ficou com Vettel, 1min27s958, ou seja, a F1 foi de 13 segundos e 803 milésimos mais rápida. Deve ser considerado que a Pirelli distribui na Fórmula 1 pneus muito mais macios que na F2, que proporcionam velocidade em curva bem maior.

O Brasil escreveu nos últimos 47 anos uma das mais ricas histórias de uma nação na F1, com oito título mundiais, 101 vitórias e 126 pole positions. Este ano, por uma combinação de razões, não tem representante no campeonato. É a primeira vez desde a estreia de Emerson Fittipaldi no GP da Grã-Bretanha de 1970, pela Lotus. Mas há uma geração de jovens potencialmente capaz de não apenas chegar lá como, de novo, obter sucesso. O que está em estágio mais avançado, forte candidato a estrear na F1 em 2020, é Sérgio Sette Câmara, piloto mineiro da Carlin na Fórmula 2. A F2 é chamada de antessala da F1, pois é de lá que vem a maioria dos jovens da F1.


Carro da Red Bull Racing na Fórmula 3

Qual seria o salto de Sérgio ao trocar a F2 pela F1? Em primeiro lugar, como sempre costumava dizer Michael Schumacher, “o desafio é emocional. Na F2 não há grandes pressões da equipe porque é, como explicado, uma vitrine para os diretores dos times de F1 conhecerem os pilotos.

Já na F1 a realidade é outra. Há muito mais em jogo. Quando uma escuderia investe 300 milhões de euros ela e seus patrocinadores capitalizam com as conquistas. As pressões são enormes.

Brasileiro na pista

Sérgio se saiu muito bem. Completou 83 voltas no veloz traçado de 5.891 metros, o equivalente a quase dois GPs, sem errar, sempre em bom ritmo e foi capaz de realizar todo o programa de teste do time italiano. Mas para falar das diferenças entre a F2 e a F1, nada melhor do que a experiência de Sérgio que, em 2016, quando ainda estava na F3 e fazia parte do programa de preparação da Red Bull, testou o carro de F1 da equipe Toro Rosso, também de propriedade da Red Bull, o modelo STR11-Ferrari. Foi no dia 14 de julho de 2016, em Silverstone.

Ele dá detalhes do que é pilotar um F2 e como foi a experiência com o carro da era da tecnologia híbrida da F1.

“Passei um dia no simulador da Toro Rosso estudando com os engenheiros todos os recursos do carro, para conhecer os comandos que deveria intervir enquanto pilotava. Depois me deram uma apostila para estudar em casa. Fui para o teste relativamente bem preparado. Saí dos boxes devagar para completar a primeira volta, a chamada instalation lap, voltei, e ao regressar a pista pude exigir mais.”

“Na hora que acelerei, parece que você aperta o botão que te leva à velocidade da luz”

Nesse instante descobriu melhor o que é um carro de F1. “Quando o MGU-K e o MGU-H (sistemas de recuperação de energia, cinético e térmico) entram em ação, na hora que acelerei, parece que você aperta o botão que te leva à velocidade da luz. Fiquei meio paralisado, o que era aquilo? Não achava ser possível uma aceleração daquelas.” É bem verdade que eu não tinha a experiência de hoje na F2, com seus carros muito rápidos também, mas obviamente não se compara com a F1.

Outra reação do monoposto de F1 que impressionou Sette Câmara foi a velocidade do STR11 nas curvas de alta, a geração de pressão aerodinâmica (downforce), em especial na sequência de “esses” Maggots, Becketts, Chapel de Silverstone. “O que é isso?, nossa, a velocidade é realmente alta. A maioria dos pilotos que testa um carro de F1 tem já experiência com os da F2, o que não era ainda o meu caso, e estão acostumados com a velocidade e as exigências da aceleração no pescoço”, comentou, rindo, o piloto.


Sérgio Sette Câmara na Fórmula 2

“Num primeiro teste você sobrecarrega o cérebro. Eu tinha de me concentrar na pilotagem de um carro rápido e novo para mim, não podia bater, ouvia os engenheiros me orientar, pelo rádio, sobre o que fazer nos ajustes, tinha de tirar os olhos da pista para focalizar o painel no volante, tudo isso a 300 km/h, e ficar atento aos espelhos, com a aproximação de outros carros.”

Mais: “Com o andamento do treino você vai evoluindo, o aprendizado flui, pega o ritmo até aquele ponto em que você percebe que precisa de um tempo para absorver tudo aquilo e usar de forma a poder ser mais rápido.”

A satisfação de Sette Câmara decorre também por ter compreendido que o exame da F1 “dá para encarar, tranquilo”. A aceleração abrupta, as elevadas velocidade de contorno das curvas e nas retas, as solicitações orgânicas severas definem um desafio respeitável na F1, mas segundo o piloto com treino e a orientação que as equipes oferecem aos pilotos, como a recebida no seu primeiro teste, pode-se superar tudo.

“Eles são muito profissionais, fazem o possível para te deixar tranquilo, procuram facilitar tudo. Dei um salto grande do kart para a F3, foi um choque. Vi nesse meu teste na Fórmula 1 que não tem limite para o que um piloto pode fazer. A F1 é diferente, a complexidade, o limite são bem maiores. Mas vi que nos acostumamos. A F1 é um universo à parte no automobilismo, mas nada que com preparo e experiência possa ser encarada e conquistar os resultados planejados desde que iniciamos nossas carreiras no kart.

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