O dia em que a Hungria, pioneira na F1, desafiou Moscou

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Nice, França – F1, F2 e F3 se apresentam no fim de semana no Circuito Hungaroring, em Budapeste. Espera aí, você pode estar pensando, com razão, mas este não é um espaço destinado a resgatarmos um pouco da rica história da F1? Verdade. Acontece que o GP da Hungria está no calendário da F1 desde 1986.

E agora eu é que pergunto? Você lembra ou já leu sobre como era o mundo naquela época, 33 anos atrás? Eu refresco sua memória ou explico para quem não a viveu: o planeta estava dividido entre os que adotavam o capitalismo, liderado pelos Estados Unidos, e o comunismo, a União Soviética.

As implicações dessa polarização eram imensas. Cada lado via o outro não apenas como promotor de uma forma distinta de organizar a sociedade, mas como inimigo mesmo. Mortal! Suas forças armadas, munidas de mísseis nucleares, capazes de extinguir a vida na Terra, estavam preparadas para tudo. Bastava apertar um botão.

Bem, você viu que a corrida de Budapeste faz parte do campeonato desde 1986. Pois, amigos, naquele ano os soviéticos ainda mantinham na Hungria importante contingente militar. Uma ordem de Moscou e a coisa iria pegar. E o que era a F1? A expressão máxima do capitalismo, a lei da selva: quem tem dinheiro se estabelece, tem chances de fazer sucesso e capitalizar no mercado. Quem não tem fica em casa.

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GP da Hungria: O mal contra o bem

Repare que um GP de F1 representa algo que atenta contra os princípios dos regimes totalitários. Quando a Hungria recebeu seu primeiro GP a esquerda ainda via a direita como um agente do mal. O mesmo vale para os que estavam do lado dos americanos em relação aos soviéticos.

Pois apesar dessa grave incompatibilidade, o país da Cortina de Ferro realizou o evento naquele inesquecível 10 de agosto de 1986. Sabe quantas pessoas foram ao autódromo construído para o GP da Hungria fazer parte do mundial, a cerca de 25 quilômetros a nordeste de Budapeste? Duzentas mil, um dos maiores de todos os tempos na história da F1.

O universo do livre mercado ria à toa. Para seus personagens-chave foi uma demonstração clara do que os cidadãos obrigados a viver sob o regime comunista pensavam. Havia uma enorme demanda reprimida não somente por maiores liberdades, mas por produtos mais tecnológicos, mais eficientes e, por que não, bonitos.

Nas ruas, um museu dinâmico

As nacões totalitárias concentravam seus investimentos no desenvolvimento e produção de armamentos de última geração. Praticamente não havia competição no seu mercado de veículos, por exemplo. A Alemanha Oriental fabricou o lendário modelo Trabant de 1957 a 1991, nada menos de 3,7 milhões de unidades! Acredite, seu desenvolvimento nesses 34 anos foi mínimo.

Quem caminhasse pelas ruas de Budapeste se depararia com modelos de Trabant, Wartburg, Tatraplan, Lada, Dacia, Skoda, Moskvitch, todos produzidos no Leste europeu, de tecnologia e design dignos já de estarem em um museu. De repente, os húngaros e seus vizinhos da Cortina de Ferro tinham a chance de ver de perto, sentir o cheiro e ouvir os ruídos dos veículos mais avançados do mundo!

Obviamente não é só isso. Havia uma grande simbologia por trás da F1, por conta do que ela representava. Toda novidade gera grande interesse, principalmente nesse contexto.

No lado humano, apesar de a informação ser doentiamente controlada nesses países, com emissoras de TV estatais, os húngaros tinham algum contato com os ídolos, heróis da F1, como Ayrton Senna, da Lotus, Alain Prost, McLaren, Nigel Mansell e Nelson Piquet, Williams, e claro os pilotos da Ferrari. Agora poderiam vê-los de perto.

Graças também a Gorbachev

Importante: nada disso teria sido possível se um homem, em especial, não tivesse tido a coragem de entender que aquele modelo de gestão, o comunismo, adotado depois da revolução bolchevista de 1917, estava com os dias contados, Mikhail Gorbachev, líder da União Soviética de 1985 a 1991 e responsável por uma das maiores mudanças da história dos homens.

Foi ele quem deu os primeiros passos para transformar o mundo, extinguir a União Soviética, enveredar pela economia de mercado em detrimento do estado empresário. Se o líder soviético tivesse contestado a abertura planejada pelos húngaros, antes de todos no Leste, Bernie Ecclestone não teria levado a F1 para lá. Teve papel preponderante para o projeto dar certo o húngaro naturalizado brasileiro Tamas Rahonyi, promotor e organizador do GP Brasil de F1 desde 1980.

Reforço a informação de que o GP da Hungria foi disputado em 1986 e as primeiras distensões, abertura de fronteiras do bloco oriental, concedidas por Moscou, aconteceram apenas três anos mais tarde, em 1989. Não há dúvida, dentre os analistas, de que a chegada da F1 a uma nação comunista ajudou a estimular a reforma que aconteceria, para grande surpresa de todos.

No plano esportivo, a F1 não decepcionou os húngaros. As primeiras edições da prova encantaram, na realidade, o mundo. As características do traçado escolhido, curto, de muitas curvas, a maioria lenta, com sérias dificuldades para ultrapassar ajudaram a promover corridas épicas. Agradou tanto que até hoje a Hungria está no calendário. Vamos para a 34ª edição da prova.

Só dava Brasil

A ultrapassagem de Piquet sobre Senna, por fora, na curva 1, no primeiro ano, entrou para a antologia da F1. Para os cidadãos que passaram a se interessar por esse esporte típico do ocidente, o Brasil era um protagonista de grande peso. Piquet venceu nos dois primeiros anos, com Williams, e Senna, no terceiro, já na McLaren. Senna seria primeiro ainda em 1991 e 1992, na McLaren.

Em resumo, nas sete primeiras edições do GP da Hungria os pilotos brasileiros celebraram a vitória em cinco. Faríamos a festa novamente em 2002, com Rubens Barrichello, de Ferrari.

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Na corrida do fim de semana agora o Brasil sequer terá representante no grid. Outros tempos. Mas temos pilotos em formação. Três deles competem no Circuito Hungaroring. Sérgio Sette Câmara, patrocinado pela Youse, disputa a oitava etapa da F2, pela equipe DAMS. Na F3, Pedro Piquet, filho do vencedor das duas primeiras edições da prova, Nelson Piquet, larga com o carro da Trident na quinta etapa do campeonato. Outro brasileiro na F3 é Felipe Drugovich, da Carlin.