O maior vencedor da F1 não é um piloto, mas um engenheiro

Você não pagaria tanto dinheiro a um engenheiro que praticamente representa a garantia de conquistas?

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Red Bull RB9-Renault, último projeto de Newey campeão do mundo, com Sebastian Vettel, em 2013.

Olá amigos.

Começo nossa conversa com uma pergunta, e de sopetão: qual o profissional da F1 com maior número de títulos mundiais? Se você pensou, como muitos de nós, em Michael Schumacher, campeão sete vezes, em 1994 e 1995 com Benetton e de 2000 a 2004, Ferrari, saiba que a resposta está… errada.

O maior vencedor de todos os tempos na F1 não é um piloto, mas um engenheiro. E tampouco um engenheiro mecânico, mas aeronáutico, o inglês Adrian Newey, prestes a completar 61 anos de idade, dia 26 de dezembro. Nasceu na mesma cidade de outro grande gênio, o dramaturgo e poeta William Shakespeare, a pequena Stratford-upon-Avon.

Os carros projetados por Newey, para três equipes, Williams, McLaren e Red Bull, conquistaram dez títulos mundiais, com seis pilotos diferentes, e dez títulos de construtores.

Fãs da F1 se perguntam hoje quando Lewis Hamilton irá ultrapassar Michael Schumacher nos seus recordes de performance. A vitória no campeonato, este ano, foi a sexta do piloto inglês da Mercedes. Mais um título e Hamilton chega no alemão. Em número de vitórias, faltam apenas oito para Hamilton igualar Schumacher, 83 a 91.

A rica coleção de títulos do maior vencedor da F1

Mas como mencionei Newey já foi campeão dez vezes: 1992, na Williams, com Nigel Mansell; 1993, Alain Prost; 1996, Damon Hill; 1997, Jacques Villeneuve. Na McLaren, 1998 e 1999, Mika Hakkinen. E na Red Bull, de 2010 a 2013, Sebastian Vettel.

Mais: seus carros venceram 150 GPs até hoje! Agora responda, por favor, quem é o profissional com mais conquistas na história da F1?

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Se desejarmos estender o feito desse notável engenheiro, menciono que o carro que ele projetou para a March, nos áureos tempos da F Indy, foram campeões nas temporadas de 1985 e 1986, tendo vencido ainda a lendária 500 Milhas de Indianápolis, cuja natureza de competição é muito distinta da F1, outro desafio de engenharia.

Resgatei o personagem Adrian Newey porque foi com o modelo RB15-Honda da Red Bull, concebido por ele, que Max Verstappen venceu brilhantemente o emocionante GP Brasil, dia 17, e se apresenta para disputar o GP de Abu Dhabi, 21º e último do calendário da F1, no próximo fim de semana.

March 881, equipado com motor Judd, do campeonato de 1988, o primeiro projeto de Newey na F1

Mercedes que se cuide

Também trouxe Newey à superfície em razão de muita gente dentro da própria F1 acreditar que o expressivo avanço da Honda, este ano, associado à conhecida eficiência do chassi do grupo de Newey e à pilotagem fantástiva de Max Verstappen, deverá oferecer forte resistência a Hamilton e a Mercedes em 2020.

A equipe alemã ganhou absolutamente tudo desde a introdução da tecnologia híbrida na F1, em 2014, os seis títulos de pilotos e os seis de construtores. Pois temos, agora, bons indícios de que será mais difícil para o time da montadora alemã conquistar o sétimo.

O conjunto Red Bull-Honda-Max-Newey parece poder quebrar, no ano que vem, essa série impressionante de sucesso. É a esperança até dos donos dos direitos comerciais da F1, o grupo americano Liberty Media. Seria saudável para a competição a alternância de vencedores. Agora, a turma da Red Bull terá de provar a eficácia dessa evolução toda.

Williams FW14B-Renault, primeiro carro de Newey campeão do mundo, com Nigel Mansell, em 1992.

Desvendando o gênio

Conto algumas das minhas experiências profissionais com Newey para você conhecê-lo um pouco melhor. Em 1989, eu tinha dois anos de F1, apenas. As equipes viajaram para o extinto Circuito de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, para testar pneus no forte calor carioca antes de o campeonato começar. Newey era o diretor técnico da March, uma das menores.

Mas me chamou a atenção a originalidade de algumas soluções adotadas em seu carro. Havia visto uma foto de Newey na revista italiana Autosprint. Eu me aproximei dos boxes da March, um dia antes de os testes começarem, e perguntei a um jovem parado em frente aos carros, se Newey estava lá. Ele me respondeu “I am Adrian Newey”. A foto na revista estava errada. Passei o maior carão. Até hoje, 30 anos mais tarde, Newey se lembra do fato e, como eu, dá risada.

O fato é que construí um relacionamento que me permite, por exemplo, lhe fazer algumas perguntas no paddock, fora dos raros momentos em que conversa com os jornalistas. Newey é bastante recluso. Narro, agora, curiosidades que me contou nas ocasiões em que o entrevistei.

“Meu pai é cirurgião veterinário, mas tem o hobby de comprar e montar kits de carros. Esse foi o meu primeiro contato com automóveis, desde bem pequeno.”

“Eu gostava de modificar os kits, visando melhorar seu desempenho. Meu pai logo viu que eu seria engenheiro e não veterinário.”

“Eu me formei engenheiro aeronáutico pela Universidade de Southampton, em 1980. A F1 tem mais a ver com aviões do que com carros. Enviei currículo para várias equipes. Não obtive nenhum retorno até que a escuderia Fittipaldi me chamou para uma entrevista. Quando cheguei na entrada da fábrica, em Reading, o diretor técnico, Harvey Postlethwaite, estava do lado de fora, conversando com outro candidato.”

Mais dessa história: “Eu o conhecia de ver fotos. Aguardei alguns minutos e me identifiquei. Ele ficou observando a minha moto, fez perguntas, queria saber quem havia feito aquelas modificações todas, respondi ter sido eu mesmo, e pediu para dar uma volta. Permaneci na porta da fábrica. Ele regressou, me convidou para entrar e disse que eu fui o escolhido para trabalhar na equipe, adorou as soluções que introduzi na moto”.

Chuveiro, fonte de inspiração

Outra curiosidade que Newey me contou, quando lhe perguntei a origem de sua criatividade, o que mais caracteriza seus projetos:

“Meu pai sempre me disse para ler a prova inteira antes de começar a responder as perguntas, a fim de entender melhor o que o examinador deseja saber dos alunos. Eu relaciono os desafios de engenharia de meus projetos e começo a estabelecer relações entre eles, como um segmento do carro funcionar em função do outro, integro tudo”.

Sobre como as ideias lhe vêm à mente, respondeu:

“Muitas vezes é quando estou tomando banho. Já aconteceu também de eu acordar e as coisas ficarem claras para mim, pinta a solução que tanto precisava para o meu problema no projeto. Aí saio correndo para colocar tudo no papel. Não desenho no computador, ainda uso papel, lápis, borracha e régua.”

É isso, amigos, espero lhe dar dado uma leve ideia de quem é o maior vencedor da F1. Ah, o valor de seus contratos é maior da maioria dos pilotos. Na Red Bull, por exemplo, estima-se que recebe 10 milhões de libras (R$ 55 milhões) por ano.

Termino nossa conversa como comecei, com uma questão: você não pagaria tanto dinheiro a um engenheiro que praticamente representa a garantia de conquistas? No fundo, esses 10 milhões de libras, dentro do orçamento de 300 milhões de libras (R$1,6 bilhão) anual da Red Bull, representam até mesmo muito pouco. Abraços.