O que define um grande campeão no automobilismo?

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Pense nisso: O alemão Michael Schumacher conquistou sete títulos mundiais na F1. O argentino Juan Manuel Fangio e o inglês Lewis Hamilton, cinco. Alain Prost, da França, e Sebastian Vettel, Alemanha, quatro.

Podemos ir além: Graham Hill, inglês, venceu as três corridas mais prestigiosas do mundo, definem a tríplice coroa, sonho da maioria desses profissionais, pelo desafio e importantes diferenças na natureza das competições: as 500 Milhas de Indianápolis, em 1966, as 24 Horas de Le Mans, 1972, e o GP de Mônaco de F1, em nada menos de cinco ocasiões, 1963, 1964, 1965, 1968 e 1969.

O que faz esses pilotos, dentre tantos outros extremamente talentosos, como Ayrton Senna, Jim Clark, Emerson Fittipaldi, Fernando Alonso, atingirem patamares tão elevados, permitidos a tão poucos, como o de campeão no automobilismo?

O segredo do campeão no automobilismo

O automobilismo é um esporte diferente da maioria. No tênis, por exemplo, na modalidade individual, é o tenista, a raquete e a bola. O sucesso depende, essencialmente, da capacidade do esportista. Há vários outros esportes dessa natureza, como natação, atletismo, ciclismo, ginástica, canoagem, esgrima, halterofilismo, boxe, judô.

No automobilismo, o esportista, ou o piloto, depende de um complexo equipamento, o carro, com seus inúmeros componentes, e da equipe, no caso da F1, formanda por centenas de profissionais. O piloto é o responsável pela fase final da linha de montagem que começou com o projeto do carro. E muito dinheiro investido.

Quais os predicados exigidos para um piloto estabelecer pole positions, vencer corridas, conquistar títulos ou mesmo colecioná-los, inserir-se na categoria dos supercampeões?

Vamos, aqui, enumerar as mais importantes qualidades necessárias e discorrer um pouco sobre cada uma delas?

Velocidade

É o primeiro dote a ser verificado em um candidato a piloto e depois durante o exercício da atividade. Um campeão começa denotar suas qualidades já no kart. O que primeiro irá qualificá-lo é o resultado do cronômetro. Mas não apenas em uma volta, também importante, mas sua velocidade ao longo de toda a competição. Não adianta estabelecer pole positions e depois não vencer as corridas.

Um piloto deve ser rápido em todas as condições, como máxima aderência, reduzida, no caso do piso molhado, com um carro bem equilibrado e até mesmo não no mesmo nível dos melhores. Sua velocidade sempre vai de alguma forma aparecer, ao menos para quem é capaz de identificá-la não apenas através dos resultados. Um piloto campeão deve ter uma média alta em todas essas condições.

Constância

Vettel sempre diz:

“Entre as luzes vermelhas se apagarem (autorizando o início da corrida) e recebermos a bandeirada há 300 quilômetros. O que nos dá pontos é o que fazemos na corrida.”

O piloto tem de ser constante, não estabelecer uma volta com um tempo excelente e na seguinte ser 3 ou 4 décimos mais lento, sem que nada justifique essa diferença. Os grandes pilotos mantêm uniformidade no desempenho, isso faz com que no fim da corrida o seu tempo total de competição seja o menor possível. É para isso que estão lá. Quem cumprir o número de voltas da prova no menor tempo é o vencedor.

Características pessoais

Sem muita determinação, dedicação e coragem, por exemplo, não há como um piloto crescer na profissão. Determinado quer dizer não abrir mão de seus objetivos, estabelecer metas para atingi-los e ser implacável no seu cumprimento. Dedicação é trabalhar, trabalhar, trabalhar, consigo e com a equipe. Coragem é não ter receio de, em determinados momentos, correr alguns riscos extras.

Controle emocional

A esse respeito, Michael Schumacher costumava afirmar:

“O nosso desafio é 50% técnico e 50% emocional. Temos tantas responsabilidades, dentro e fora do carro, que fazer com que, ao abaixarmos a viseira, produzamos o máximo tornou-se difícil. Quem consegue se isolar das pressões que sofremos, não transferi-las para a pista já larga com grande vantagem.”

Os pilotos são hoje também relações públicas das empresas, em geral multinacionais, que investem nas equipes ou apenas neles mesmos. Não é fácil adotar a filosofia do politicamente correto dentro de um universo tão competitivo, onde o seu sucesso depende não apenas do que você faz, mas de um grande grupo de profissionais e até dos adversários.

Ultimamente os pilotos estão sendo obrigados a conviver ainda com o controle, por vezes excessivo, da autoridade esportiva, os comissários. As punições por toques com os concorrentes, fechadas involuntárias de porta, dentre outros comportamentos, tornaram-se frequentes. Outro bom exercício para os pilotos é viver essa realidade, contra os que muitos definem como “injustiças”.

Administrar internamente todo esse conjunto de emoções e atender a todos os interesses, principalmente os deles, é, como afirma Schumacher, um grande desafio.

Errar pouco

Nesse sentido, manter a concentração para não errar ou não ser 1 décimo de segundo mais lento é fundamental. No automobilismo os erros costumam cobrar um preço elevado. O erros de Vettel este ano, com o modelo SF71H da Ferrari, tiveram grande peso na perda do título para Hamilton, da Mercedes.

Capitalizar com os erros

Aqui, saber gerenciar dentro de si as cobranças decorrentes de um erro, em especial os decisivos no resultado, se relaciona ao mencionado controle emocional. A capacidade de o piloto iniciar o treino ou a corrida seguinte sem se abater, após ter errado, também ajuda a definir um campeão. Pois nesse mundo onde a diferença entre vencedores e perdedores pode ser medida em milésimos de segundo, mesmo os supercampeões por vezes cometem erros, por menor que sejam.

Acertar o carro

Por mais avançado que o sistema de monitoramento do carro esteja avançado, oferecendo aos engenheiros dados precisos de como os mais diferentes sistemas estão funcionando, a sensibilidade do piloto ainda é muito importante. Ele só poderá expor o seu potencial máximo se o carro reagir como mais gosta que se comporte. E isso depende da sua competência técnica.

O trabalho de ajustar o chassi e até a unidade motriz, no caso da F1, motor em outras competições, ainda é um fator de seleção dos pilotos. Não adianta ele ter dotes de velocidade e constância se não consegue encontrar um acerto que o faça ser rápido, na definição do grid e na corrida.

Explorar os recursos do carro

Antigamente, o volante destinava-se apenas a esterçar as rodas. Nos carros de F1, em especial, e mesmo F2, há inúmeros comandos que mudam o comportamento do carro na pista, sob responsabilidade dos pilotos, em comum acordo com seus engenheiros. A comunicação via rádio é constante. O piloto deve saber o que cada um dos cerca de 20 comandos existentes é capaz de gerar no carro. Só a instrução do engenheiro não resolve, como regra.

Os pilotos devem levar para casa, depois das aulas na sede das equipes, o que na aviação se chama “ground school”, conhecer os recursos e, essencialmente, saber como integrá-los e interagir com todos eles. Isso tirando uma das mãos do volante e desviando o olhar da pista. Como isso, em geral, acontece nas retas, a intervenção dos pilotos costuma ser nos pontos de mais elevada velocidade. Nada fácil. E perigoso.

Um piloto que não domine essa nova exigência do automobilismo não tem um carro rápido para cada nova condição da pista, ou seja, não luta pela vitória.

Dar as diretrizes do desenvolvimento

Os verdadeiros campeões são líderes dentro do grupo. Em especial na F1, os carros começam o campeonato com uma versão e o terminam com outra bem distinta. A evolução do chassi e da unidade motriz é notável. O mesmo carro da última etapa, se usado na da primeira, seria no mínimo um segundo mais rápido, diferença impensavelmente grande para os padrões da F1.

Portanto, um piloto que dite com precisão as diretrizes do desenvolvimento do carro é fundamental no automobilismo, mesmo nas categorias monomarca, como a F2. Nestes casos, qualquer detalhe apontado pelo piloto para os engenheiros trabalharem pode significar 1 ou 2 décimos de ganho no tempo de volta, importantes também.

Nenhum dos grandes campeões deixa apenas a critério do seu time a responsabilidade por desenvolver o carro. Os pilotos das eras mais modernas gostam de trabalhar no simulador e a partir daí estudar com os engenheiros o que pode ser feito para tornar o carro mais rápido e equilibrado.

Trabalhar em grupo

A F1 é o esporte individual mais em grupo que existe, costuma-se dizer no meio. O entrosamento do piloto com seus engenheiros, mecânicos, chefes de equipe, diretores é fundamental. Senna costumava dizer que o “sinergismo entre as várias inteligências do grupo está na base do sucesso”.

Os pilotos devem encontrar aquele equilíbrio entre manter uma postura de cobrança e ao mesmo tempo colocar-se ao lado dos que têm essa responsabilidade de melhorar o carro ou o gerenciamento do time. “Nenhum piloto é uma ilha”, diz Vettel.

Conciliar compromissos

A agenda dos pilotos de F1 é impressionantemente cheia nos fins de semana de GP. Quando não estão dentro dos carros, na pista, encontram-se em reunião com os engenheiros, chefe de equipe ou em eventos promocionais, a maioria no paddock club, também próximo à área dos boxes. Hamilton comenta a esse respeito:

“Interrompemos uma reunião onde estamos quebrando a cabeça para resolver um problema sério para ir ao paddock club a fim de nos relacionarmos com os fãs, os convidados dos patrocinadores. Entendo que esse pessoal está lá para isso, vão cheios de expectativa e não podemos decepcioná-los. Mas eles não sabem que instantes atrás estudávamos com nossos técnicos como tentar ser mais rápidos que o nosso adversário, na nossa frente, em termos de performance, naquela pista.”

Mais de Hamilton:

“Às vezes nossa cabeça fica longe, é inevitável.”

Kimi Raikkonen, da Ferrari este ano, tem opinião clara sobre o tema:

“O mais difícil da F1 não é ser rápido, mas conciliar os compromissos promocionais que temos e o trabalho intenso, sob pressão, no fim de semana de GP. Já cheguei a fingir estar com dor de cabeça e não ir a eles para poder ficar me concentrando no meu trabalho.”

O piloto capaz de voltar à reunião, depois das paradas para atender os eventos promocionais, e retomar a concentração, lucidez, tem vantagem sobre os demais. Nesses eventos eles respondem perguntas dos fãs, tiram fotos, dão autógrafos.

Time certo, hora certa

Verdade, estar em uma grande fase da equipe é essencial para disputar o título. Mas os grandes campeões pensam a longo prazo e não se esquivam de assumir a responsabilidade por liderar o grupo para transformá-lo, levar da condição de coadjuvante a protagonista.

Schumacher começou na Benetton, em 1991, quando o time lutava, tudo dando muito certo, por um pódio. Pois junto dos técnicos capazes lá existentes, Rory Byrne e Ross Brawn, por exemplo, foi decisivo para montar uma estrutura vencedora. Foi com a Benetton que Schumacher conquistou, em 1994 e 1995, seus dois primeiros mundiais.

Ao se transferir para a Ferrari, em 1996, os italianos estavam bem defasados dos melhores. Schumacher trabalhou para convencer a mesma dupla da Benetton a mudar para a Ferrari e, com ainda mais recursos, criaram uma superescuderia, a ponto de ganharem o campeonato cinco vezes seguidas, de 2000 a 2004.

Estar na hora certa no lugar certo é a condição necessária para lutar pelo título, como mencionado, mas é possível, também, trabalhar com afinco e determinação para a equipe atingir esse estágio. Portanto o piloto da mesma forma tem grande responsabilidade nesse processo de no mínimo médio prazo, na maioria dos casos.

Aplausos

Bem, só de ler é possível que você tenha ficado cansado ao entender quantas barreiras os pilotos devem superar para serem profissionais de sucesso no automobilismo. E como, apesar de sua importância ser enorme, também dependem do trabalho dos outros. Agora, quando surgem os que transpõem todos esses obstáculos com brilhantismo não nos resta outra opção a não ser aplaudi-los de pé, não acha?