O que é a superlicença, tão desejada pelos pilotos, em especial na F2?

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Você já deve ter ouvido Sérgio Sette Câmara, piloto brasileiro da equipe Carlin de F2, falar que o importante para ele, depois dos muitos problemas enfrentados este ano, é terminar o mais à frente possível na classificação do campeonato por causa da superlicença. Depois de 11 etapas disputadas, 22 corridas, restando apenas a de encerramento, dia 25 de novembro em Abu Dhabi, Sérgio é o sexto colocado, com 164 pontos.

O líder é o inglês George Russell, da ART, com 248, seguido pelo tailandês Alexander Albon, da DAMS, com 211. Apenas os dois têm chances de serem campeões no Circuito Yas Marina, em Abu Dhabi.

Sérgio disse à reportagem da Youse, depois do GP da Rússia, o último realizado pela F2, dias 29 e 30 de setembro:

“Não fosse a desclassificação do segundo lugar em Baku, por falta de gasolina para a inspeção, não ter podido disputar o GP de Mônaco, por ferir meu punho, e a quebra do carro em Barcelona, dentre outras dificuldades, creio que poderia estar lutando pelo título com o George e o Alexander. Mas como passei por tudo isso, ocupo apenas o sexto lugar. O que tenho de fazer, agora, é tentar terminar o ano na quarta colocação, pois também distribui bons pontos para a superlicença.”

A superlicença é um documento que autoriza o piloto a disputar a F1. A FIA estabeleceu um critério de pontos para o piloto poder receber a superlicença, emitida por ela. No total, o piloto tem três temporadas para nas categorias de formação, ou de base, como alguns as definem, acumular os 40 pontos necessários.

Os três primeiros colocados na F2, por exemplo, recebem 40 pontos. Por essa razão, depois de compreender que não mais seria possível lutar pelo título, Sérgio focalizou seu interesse em concluir o campeonato da F2 entre os três primeiros. Como é pouco provável que seja terceiro, por causa de o terceiro, hoje, ser o próprio companheiro de Carlin, o inglês Lando Norris, com 197 pontos, ou 33 pontos a mais (197 – 164), a meta de Sérgio em Abu Dhabi é ser o quarto na F2, deixar para trás o holandês Nyck de Vries, da Prema, com 184 pontos, 20 a mais.

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Enquanto os três primeiros na F2 recebem os 40 pontos que lhes garantem a superlicença, a quarta colocação distribui 30, a quinta, 20, e a sexta, atual classificação de Sérgio, 10. Apenas os dez primeiros no fim da temporada de F2 recebem pontos para a carteira da superlicença.

Se Sérgio terminar em sexto, precisará no ano que vem de 30 pontos, ou do quarto lugar na F2, para somar aos 10 que teria este ano e atingir os 40 pontos necessários para obter a superlicença. Seu objetivo é estrear na F1 em 2020. Se for quarto este ano, recebe 30 pontos, o que o deixaria em uma condição bem mais tranquila para 2019 necessitar de apenas um sexto lugar, 10 pontos, a fim de completar os 40.

“Sim, mas no ano que vem eu me sinto preparado para bem mais que ser apenas quarto ou sexto colocado. Já nesta temporada se você somar os pontos que deixei de somar por problemas não relacionados ao meu trabalho, a minha pilotagem, eu estaria lutando pelo título. Já recebi convite de todas as principais equipes da F2 para disputar a temporada por eles em 2019. Portanto, essa questão da superlicença não rouba as minhas noites de sono por saber que estou regularmente entre os protagonistas da F2. Com todas as minhas dificuldades, já fui oito vezes ao pódio e larguei na pole position na Hungria, pista onde o piloto faz muita diferença. Mas, claro, sem a superlicença não consigo dar sequência a minha carreira, ao menos quanto a disputar a F1. Como falei, minha confiança é total nesse aspecto.”

Contando os pontos

A FIA distribui pontos para obter a superlicença aos pilotos de outras categorias, não apenas aos da F2. Na F3 Europeia e na FE, esta destinada a carros elétricos, por exemplo, o campeão recebe 30 pontos, o segundo colocado, 25, e o terceiro, 20. Na GP3, que disputa este ano sua última temporada, 25, 20 e 15. A F4, a primeira escola de carros, 12, 10 e 7, e até o kart dá pontos. A categoria sênior do mundial de kart distribui 4 pontos para o campeão, 3 para o vice e 2 para o terceiro.

Há muitas outras competições espalhadas pelo mundo que recebem da FIA pontos para seus protagonistas. O Mundial de Endurance, na classe principal, a LMP1, o primeiro fica com 30 pontos, o segundo, 24, e o terceiro, 20. Na classe LMP2, carros um pouco mais lentos, 20, 16, 12. Na F Indy, o campeão ganha 40 pontos, o segundo, 30, e o terceiro, 20. O conceituado Campeonato Alemão de Turismo (DTM), 15, 12 e 10.

Informação adicional: depois de Max Verstappen ser contrato pela equipe Toro Rosso de F1, no fim de 2015, quanto tinha 16 anos de idade, para estrear na temporada seguinte, com 17 anos, a FIA estabeleceu que um piloto para competir na F1, disputar o campeonato, deve ter já completado 18 anos.

O piloto Max Verstappen

Os pilotos, como regra, consideram importante para o automobilismo a existência de um sistema de carteira para selecionar quem chega a F1, como a superlicença, ainda que os critérios de distribuição de pontos possam não ser os mais justos.

O exemplo mais mencionado por eles é o do campeão da FE, com seu carro relativamente lento, e o campeão da LMP1 do Mundial de Endurance, com carros mais rápidos até que os da F1, dependendo do circuito, receberem o mesmo número de pontos, 30.

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E há queixa unânime entre os pilotos quanto ao valor cobrado pela superlicença. Há um valor básico, relativamente baixo, 10.000 euros (R$ 50 mil), mas a cada ponto conquistado na F1 o piloto deve pagar 1.000 euros (R$ 5 mil). Assim, imagine o caso de Hamilton. Hoje, restando quatro etapas para o encerramento do campeonato, ele já soma 331 pontos, o que quer dizer que sua conta na FIA já está em 331 mil euros (R$ 1,6 milhão) mais os 10 mil do básico. São valores impensavelmente altos.

Para as equipes não é diferente. Há um básico de 500 mil euros (R$ 2,5 milhão) mais cerca de 6 mil euros por ponto. Pegue o caso da Mercedes, hoje com 538 pontos. Sabe quanto pagaria nesse instante a FIA para disputar o mundial de 2019? A bagatela de 3 milhões e 700 mil euros (R$ 18,5 milhões). Dá para acreditar? Fica claro o porquê de a F1 ser um esporte não para ricos, mas para milionários.