O que é telemetria e como ela foi da Fórmula 1 para o seu celular

Na Fórmula 1, a tecnologia é tão avançada que os pilotos não fazem nem mesmo uma curva sem saber todas as informações possíveis antes. Quanto acelerar, onde pisar no freio, de que jeito virar o volante, em que ponto exatamente encostar na zebra. É tudo resultado do telematics, ou telemetria, que reúne milhares de dados que as equipes usam para garantir o melhor resultado possível. E hoje em dia você também pode usar tecnologias muito parecidas com essas para fazer o mesmo com o seu carro. O jornalista Livio Oricchio conta um pouco sobre isso em uma reportagem feita direto do circuito de Sakhir, no Bahrein, onde aconteceram as primeiras provas de Fórmula 1 e 2 deste ano.

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Carro do Sérgio Sette Câmara na F2 (Foto: James Gasperotti) Carro do Sérgio Sette Câmara na F2 (Foto: James Gasperotti)

Como funciona a telemetria na Fórmula 1

Por Livio Oricchio, do Bahrein

Você já pensou no seguinte? Os carros de F1, apesar da severa solicitação a que são submetidos, expostos a forças extremas em todas as direções, por cerca das quase duas horas de um GP, raramente quebram. Ainda mais importante: por vezes assistimos à acidentes de grandes proporções, em altíssima velocidade, mas o piloto sai incólume do meio dos escombros, tirando poeira do macacão. Bem diferente do passado, não?

O que está por detrás dessas demonstrações de segurança e performance extraordinárias?

A razão principal é o uso de uma tecnologia que evoluiu exponencialmente nos últimos anos, a chamada telemetria. Para entender rápido do que estamos falando, os técnicos instalam no carro, nos mais distintos sistemas, como suspensões, transmissão, rodas, freios, motor, componentes do conjunto aerodinâmico, uma série de sensores. Todos pequenos e dotados de elevada tecnologia.

Eles são capazes de medir, com precisão, temperatura, pressão, carga mecânica e aerodinâmica, aceleração, deslocamento enquanto o piloto está na pista, e enviá-los por cabos espalhados no carro até um pequeno computador instalado a bordo. Esse computador transforma os dados recolhidos em sinais de rádio e através de uma antena na frente do carro os envia a outra antena, localizada sobre os boxes.

Carro do Sérgio Sette Câmara na F2 (Foto: Livio Oricchio)
Carro do Sérgio Sette Câmara na F2 (Foto: Livio Oricchio)

Os dados são captados e endereçados a outros computadores, estes bem maiores daquele do carro, existentes nos boxes, operados por engenheiros. Os dados são utilizados para a produção de gráficos. A análise desses gráficos, enquanto o piloto conduz, oferece, em tempo real, um raio x preciso do que está acontecendo em cada um dos sistemas mencionados.

A telemetria permite aos técnicos saber exatamente a intensidade das forças atuantes em cada ponto do carro e como elas atuam. A partir daí, os projetistas desenham peças capazes de suportar essas forças. Vão até um pouco além delas, para garantir que cada sistema, mesmo super solicitado, resista aos esforços. É por isso que mesmo nos grandes impactos, as chances de o piloto não se ferir são elevadas. A área em que está sentado, o cockpit, foi projetada para suportar até mais daquelas tensões todas do choque.

Equipe Carlin lê os dados de telemetria do carro do Sette (Foto: Livio Oricchio)
Equipe Carlin lê os dados de telemetria do carro do Sette (Foto: Livio Oricchio)

Ficou um pouco mais claro, agora, os poderes da telemetria, como salvar vidas e melhorar a performance? Nada mais é ao acaso, fruto apenas da intuição ou mesmo experiência dos engenheiros. Tudo é mensurado e projetado com precisão. Essa tecnologia se aplica em vários campos da atividade humana, como monitoramento de energia, sistemas de tratamento de água e esgoto, empresas de transporte.

No caso da F2, os dados recolhidos no carro não são repassados via ondas de rádio para os boxes das equipes, a exemplo da F1. Os engenheiros da F2 os captam por cabo quando o piloto pára nos boxes, daí a técnica ser chamada de colheita de dados e não telemetria. Conceitualmente, no entanto, o que cada uma visa é essencialmente o mesmo, conforme explicado.

Da Fórmula 1 para o seu celular

Olha que legal. Usando o conceito de monitoramento à distância da colheita de dados que está no carro de F2 do piloto Sérgio Sette Câmara, a Youse concebeu o Trips, um aplicativo para monitorar motoristas e, a partir dos dados recolhidos sobre seu comportamento enquanto dirigem, dispor de um quadro preciso do seu domínio das melhores técnicas de condução, se observam as recomendações de uso do veículo e segurança e mesmo as leis de trânsito.

Os motoristas conscientes, interessados em reduzir sensivelmente suas chances de se envolver em um acidente, otimizar o uso do carro, aumentar a vida útil dos componentes, obter melhor valor de revenda, gerar economia e reduzir a emissão de gases poluentes, tão essencial hoje, dentre outros benefícios, estão gostando da novidade. Por quê? Primeiro pela elevação da segurança e inequivocamente os permitir evoluir. Quem não gosta de descobrir que está dominando melhor aquilo que faz, em especial quando capitalizamos muito com isso?

“Conheço o Youse Trips e sua proposta de melhorar a condução, reduzir os riscos de acidentes, enfim, crescerem como precisamos fazer com tudo na vida, em especial desses tempos de maior competitividade para sobrevivermos. E posso dizer que achei sensacional. Quem entender com precisão o que se busca tem a grande oportunidade de realizar essa evolução tão necessária hoje“, afirma Sergio Sette Câmara, piloto da Fórmula 2.

Sérgio Sette Câmara explica onde a colheita de dados interfere no seu trabalho. E começa rindo, ao ouvir a pergunta. “Em tudo! A colheita de dados, que na F1 é telemetria, é aquilo que poderíamos chamar de dedo duro do piloto, ou o advogado de acusação. Mas pode ser o de defesa também. Tudo o que fazemos enquanto pilotamos fica registrado a partir dos dados recolhidos por sensores espalhados por todo o carro”.

Sergio dá um exemplo de como isso funciona na prática: “Se eu disser que na curva 4, lenta, aqui no Circuito de Sakhir, o meu carro está saindo de frente, ou seja, viro o volante e a frente do carro segue em frente, não entra na curva, portanto estou perdendo tempo, o meu engenheiro pode facilmente comprovar a veracidade ou não. Esses sensores que mencionei medem o quanto o volante foi esterçado, a intensidade da força que apliquei no pedal do freio antes da curva, a velocidade que tinha quando me aproximei, a quantos metros da curva eu freei, qual a temperatura atingida pelo disco, qual a rotação do motor, a marcha inserida, como foi a minha redução de marchas”.

“O que primeiro gostaria de dizer é que, por mais avançado que seja o sistema de colheita de dados da F2, por mais que eu disponha de uma série de informações depois de o Sérgio parar nos boxes sobre como ele o carro se comportaram na pista, o fator humano ainda é muito relevante”, afirma Daniele Rossi, engenheiro do piloto brasileiro. “Nada substitui, com precisão, a sensibilidade de um piloto capaz de nos repassar cada pequena variação que sente no carro nas mais distintas condições ao longo da volta, como no instante em que leva o acelerador ao curso máximo, exige tudo dos freios, inicia o contorna das curvas, de baixa, média e alta velocidade, muda de direção rapidamente nas curvas para a direita e esquerda, dentre outras situações.”

“Se não tivéssemos a colheita de dados, praticaríamos o automobilismo de 30, 40 anos atrás, onde tudo era feito na base da suposição do que poderia tornar o carro mais rápido. Agora temos muito mais elementos para entender o que fazer para ganhar velocidade e constância. É tudo mais previsível, ainda que não uma ciência completamente exata por causa do enorme número de variáveis capazes de intervir no resultado”, diz Sette Câmara.

Sergio Sette Câmara nos boxes da Carlin (Foto: James Gasperotti)
Sérgio Sette Câmara nos boxes da Carlin (Foto: James Gasperotti)