Por que o GP de Mônaco é tão diferente?

O principado de Mônaco só tem 2km e não há treinos nas sextas-feiras

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GP de Mônaco 2019 | Foto: FIA

Nesta sexta-feira começam os treinos livres do GP da Rússia de F1, F2 e F3 no Circuito de Sochi, às margens do Mar Negro. Mas se regressarmos até o GP de Mônaco, sexta etapa do calendário da F1, 26 de maio, a programação do evento começou um dia antes, na quinta-feira. É a única prova do mundial que segue um roteiro próprio. Vamos descobrir por quê?

Primeiro: tenha em mente que o Principado, país às margens do Mediterrâneo, independente, circundado pelo território francês, ocupa uma área de 2 km quadrados. Só não é menor que o Vaticano, com meio km quadrado.

Imagine realizar uma corrida de carros em um local tão pequeno, como acontece no GP de Mônaco. A pista tem de ocupar boa parte das vias públicas da nação, ou seja, exige que tudo pare para a disputa acontecer.

A história do GP de Mônaco

O príncipe Louis II, também presidente do Automóvel Clube de Mônaco (ACM), e o empresário monegasco Antony Nogues, no dia 14 de abril de 1929 deram a largada para escrever a história da corrida de carros mais glamorosa, charmosa, do mundo. O GP de Mônaco de F1 forma com as 500 Milhas de Indianápolis e as 24 Horas de Le Mans a chamada Tríplice Coroa do automobilismo mundial. E até hoje apenas um piloto a venceu, o inglês Graham Hill.

Além de dois títulos na icônica Fórmula 1 da década de 1960, inglês é até hoje o único piloto na história a conquistar a Tríplice Coroa | Foto: Photos

Logo ficou claro para o Príncipe que o GP teria de ser realizado em uma data que interferisse o mínimo possível no “funcionamento” do país. Assim, a data escolhida foi o fim de semana da quinta-feira em que é celebrada a Ascensão de Cristo, o quadragésimo dia depois da Ressurreição.

Assim, o primeiro treino do GP de Mônaco aconteceria na quinta-feira santa, feriado nacional, na sexta-feira o Principado voltaria a sua atividades normais e não haveria atividade de pista, para no sábado e domingo, dias de folga dos trabalhadores, a corrida seguir sua programação. Foi a receita encontrada para atender os interesses da nação de se inserir no calendário mundial do esporte e não ter de “desativar” o Principado.

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Datas móveis

Considere que como a Ascensão de Cristo depende da data da Ressurreição, ou Páscoa, cuja data se celebra no primeiro domingo após a lua cheia do equinócio vernal. Para simplificar, entre 22 de março e 25 de abril.

Nos últimos tempos, essa tradição deixou de ser respeitada. A importância do GP de Mônaco para o Principado é tal que ficou estabelecido o último fim de semana de maio para sua realização. Mas não era assim.

Aquela corrida antológica em que Ayrton Senna poderia ter vencido se o diretor de prova não a tivesse interrompido, por causa da chuva, foi disputada no dia 3 de junho de 1984, dia em que a F1 conheceu melhor Senna. Com o carro da modesta equipe Toleman quase celebra a vitória na sua estreia no Principado. A paralisação garantiu a vitória a Alain Prost, da McLaren. Senna, irritado, ficou em segundo.

O que poucos imaginavam é que aquele rapaz com cara amarrada no pódio, ao lado do Príncipe Rainier II, venceria seis vezes a corrida, sendo cinco seguidas, de 1989 a 1993. O maior vencedor da história, seguido por Graham Hill, com cinco vitórias. Quem chega em primeiro no GP de Mônaco recebe o convite para jantar com a família real no domingo.

O GP de Mônaco mantém o caráter de exclusividade desde sua origem, há exatos 90 anos, e ganhou outro, de extensa dimensão também, o econômico. O evento permite o maior marketing de relacionamento na F1.

Muito de seu caráter de exclusividade vem do luxo que a cidade recebe: na foto, expectadores assistem a corrida pelo convés da popa dos iates. | Foto: FIA

E nesse sentido a sexta-feira livre, a princípio concebida para não atrapalhar o andamento da nação, acabou por se tornar num milionário mercado livre. Diretores das equipes de F1 e das empresas que investem na competição convidam diretores de outras empresas, ausentes da F1, para lhes mostrar o que estão perdendo.

Não há um local mais apropriado para impressionar um investidor em potencial do que mantê-lo no seu iate, próprio ou alugado, atracado no porto de Mônaco, com Lewis Hamilton, Sebastian Vettel, Charles Leclerc, Max Vestappen, dentre outros ídolos, passando do seu lado.

E há outro aspecto desse encontro de empresários com lastro para encarar as exigências de investimento na F1: a possibilidade de fazer negócios entre eles. O GP serviu para se conhecerem.

Atente como dispor de um dia livre, a sexta-feira, entre o primeiro de treinos livres, no feriado da quinta-feira da Ascensão de Cristo, e o segundo, no sábado, representa uma grande oportunidade de estabelecer contato com profissionais potencialmente capazes de deixar todos satisfeitos, por realizar um bom negócio. Eles acontecem com frequência.

Para concluir nossa conversa sobre o Principado, permita-me dizer que resido em Nice, cidade ao lado de Mônaco, é só seguir a avenida que acompanha o Mediterrâneo, chamada Baixa Corniche, e em meia hora estou lá.

Nesses dias de GP de Mônaco, a praça em frente ao Cassino de Monte Carlo, onde estão os chiques Hotel de Paris e o Café de Paris, há um museu dinâmico natural dos modelos de automóveis mais desejados do planeta. Estacionados na rua! Seus proprietários estão jogando.

Sobre isso há uma lenda popular que talvez você não saiba: como se faz para sair do Cassino de Monte Carlo com uma pequena fortuna? Não sabe? Simples: basta entrar com uma grande fortuna. Até a próxima, amigos.