Sérgio fala da triste experiência em Spa, a perda do piloto Anthoine Hubert

O acidente com o piloto Anthoine Hubert, de 22 anos, na corrida de F2 neste sábado deixou os participantes balançados.

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Foto de Joe Portlock

Apesar de Charles Leclerc ter realizado um sonho neste domingo, vencer seu primeiro GP de F1 e pela Ferrari, o piloto monegasco de 21 anos não celebrou a vitória no pódio do Circuito Spa-Francorchamps, na Bélgica. O motivo foi a perda do amigo Anthoine Hubert, piloto francês de 22 anos, na corrida de F2 neste sábado.

Na segunda volta da prova, Anthoine Hubert desviou do carro do suíço Ralph Boschung na saída das ultravelozes curvas Eau Rouge/Raidillon, que por sua vez tentava não atingir o de Giuliano Alesi, e perdeu o controle. Hubert acabou colidindo na barreira de pneus.

Como sua velocidade era muito alta, ao redor dos 260 km/h, o choque o lançou de volta à área de escape da pista, por onde passava o americano Juan Manuel Correa, que o atingiu em cheio, em plena velocidade. Os ferimentos foram fatais. Correa passou por cirurgia nas pernas fraturadas, no Hospital Universitário de Liege, e seu estado é estável, segundo boletim médico.

O ambiente nos paddocks da F1, F2 e F3 não poderia ser mais triste. A segunda corrida de F2, programada para este domingo de manhã, foi cancelada. Anthoine Hubert era um jovem querido por todos. Seus colegas estavam ainda em choque. Para muitos profissionais do meio, essa foi a primeira vez que enfrentaram o profundo desgaste da perda de um piloto.

Piloto francês Anthoine Hubert faleceu neste sábado 1/09, no Circuito Spa-Francorchamps, na Bélgica.

Sérgio Sette Câmara, patrocinado pela Youse, da equipe DAMS, disputava a corrida. Era o quarto colocado. Hubert, da Arden, vinha no bloco de trás, pois largou em 13.º. Quando o acidente aconteceu Sérgio já havia passado pela Eau Rouge/Raidillon.

A etapa belga da F2 foi a nona da temporada, portanto seus pilotos conviviam juntos desde a abertura, em março, no Circuito de Sakhir, no Barein. Já se conheciam. Às sextas-feiras de GP há sempre uma reunião dos 20 pilotos da F2 com o diretor de prova.

Além de Leclerc, o segundo e o terceiro colocados na 13ª etapa da F1, neste domingo, em Spa, Lewis Hamilton e Valtteri Bottas, da Mercedes, da mesma forma se limitaram a brindar com as garrafas de champanhe, sem o tradicional banho ou expressar grande euforia. A perda de Hubert atingiu a todos os paddocks do automobilismo.

Sérgio: “Não estávamos preparados para isso”.

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Sérgio fala sobre Anthoine Hubert

O mineiro de 21 anos estava no paddock da F1 neste domingo por também ser piloto de testes da McLaren. Sensibilizado como todos, deu o depoimento abaixo para a Youse:

Olá, amigos.

Não há muito o que dizer. Todos nós estamos bastante sentidos com o que aconteceu. Para todo mundo da F2 essa foi a primeira vez que vimos um colega perder a vida em uma corrida. Até então ninguém pensava ser mais possível.

A segurança no automobilismo, de modo geral, cresceu muito nos últimos anos, mas vimos que sempre há espaço para uma fatalidade. E, claro, o que fazer para reduzir as chances de acontecer de novo.

Faço parte do grupo que pensava não ser possível, a não ser, como falei, que uma combinação de ocorrências levasse a isso. Foi o que vimos. Um piloto roda, o outro desvia para não bater que, por sua vez provoca reação semelhante em um terceiro, levando-o a bater nos pneus. Até aí nada de mais sério aconteceu.

O problema é que um quarto piloto não teve como desviar do carro de Anthoine Hubert, parado na área de escape. Viu quanta coisa junta precisou acontecer? Mas aconteceu.

Eu convivi com o Anthoine Hubert no paddock, nas reuniões, mas nunca conversei diretamente com ele, só coisa rápida. Era meio quietão, mas seu olhar e comportamento na pista mostravam ser uma pessoa muito boa. Tinha gana de vencer, como todos, mas pilotava com grande respeito aos demais.

A dor é ainda maior por sabermos que pelo seu histórico poderia ter feito uma bela carreira. Foi campeão da GP3, no ano passado, e nesta temporada na F2 venceu corridas. Fazia parte do programa de jovens pilotos da Renault. Era um pessoa que estava no lugar certo, fazia o que seus dotes permitiam.

Vamos em frente. Que sua perda não seja em vão. Tenho certeza de que a investigação que a FIA já iniciou para apurar o que se passou irá levá-la a tomar medidas que deverão reduzir os riscos de novos acidentes dessa natureza. É esse princípio que levou o automobilismo a ser um esporte seguro, dentro do possível quando estamos a 300 km/h.

Semana que vem temos um novo desafio pela frente, o GP da Itália, em uma pista ainda mais rápida que Spa, lá em Monza. Vamos tristes, abalados, claro, mas de cabeça erguida, pois é a profissão que escolhemos. Abraços.