Sérgio Sette Câmara: “2019 foi o ano em que mais aprendi na carreira”

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Antes do depoimento de Sérgio Sette Câmara, patrocinado pela Youse, sobre o seu balanço da temporada de F2, vale a pena dar uma olhada no quadro geral da competição iniciada no dia 29 de março no Circuito de Sakhir, em Barein, e terminada no último fim de semana no Circuito Yas Marina, em Abu Dhabi, 12ª etapa do calendário.

Mais: carro de F2 na pista, agora, ao menos para a disputa de um GP, só veremos no dia 19 de março de 2020, data do treino livre e da sessão de classificação do GP de Barein, etapa de abertura do próximo campeonato.

Sérgio foi o único representante brasileiro. Competindo pela equipe DAMS, terminou na quarta colocação, com 204 pontos, tendo vencido a primeira prova em Abu Dhabi, sábado, e a segunda na Áustria. Fez duas pole positions também, na França e no Yas Marina.

O campeão foi o holandês Nyck de Vries, do time francês ART, com 266 pontos, seguido pelo companheiro de Sérgio, o canadense Nicholas Latifi, com 214, e o italiano Luca Ghiotto, da inglesa UNI-Virtuosi, 207.

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Agora o depoimento de Sérgio:

Olá, amigos.

Sabe o que me dói um pouco neste instante, com o campeonato recém terminado? Dá uma olhada, junto comigo, na classificação. Repare que entre o meu número de pontos, 204, e o do vice, o Nicholas, são apenas 10 pontos. Isso quer dizer que se não fossem os problemas que enfrentei ao longo da temporada eu poderia ter sido vice-campeão, obtido mais vitórias e quem sabe lutado pelo título, a minha expectativa inicial.

O que me consola um pouco é saber que quem entende desse nosso esporte, como os profissionais do meio, é capaz de enxergar além dos números.

E quais foram esses problemas?

Amigos, se teve um ano que aprendi no automobilismo foi este. Eu cresci como piloto, claro, pois a cada saída dos boxes acrescentamos conhecimento, mas principalmente na relação piloto-equipe, cada vez mais importante nessa era de hiperinteratividade entre os dois lados.

Acredito que quando chegar a F1, e minha confiança nisso é total, vou me relacionar melhor seja com o que for.

Trabalhar com os franceses da DAMS exigiu tudo e mais um pouco de mim, diferente do que fiz até hoje na minha carreira. Eles são superprofissionais, estudam em profundidade cada área do carro que gera performance. Desenvolvi grande respeito.

Faltou ouvir o piloto

Mas, ao mesmo tempo, por disporem de um número elevado de dados, acreditam quase que só neles e na sua história. E se esquecem, às vezes, de que a sensibilidade do piloto, o que o agrada, o que o faz produzir mais, também conta nesse processo.

O meu engenheiro, Damien Augier, é uma ótima pessoa, tem gana de vencer, como eu, bem preparado tecnicamente. Nada a reclamar. Mas a maneira de o time funcionar, como a minha opinião era confrontada com a telemetria e os dados que eles coletavam através de seus métodos, em várias ocasiões em vez de nos levar a algum lugar, ou seja, melhorar o carro para a minha tocada, acontecia ao contrário.

Um bom exemplo disso é o GP da Espanha. Meu carro ficou muito ruim para o Circuito da Catalunha, em Barcelona, onde resido. Já para o Nicholas a coisa funcionou, venceu no sábado.

Eu precisei de muito exercício mental, psicológico e físico para me manter minimamente equilibrado. Comecei o ano cheio de expectativa, de lutar pelo título, mas até então com exceção da etapa de abertura, no Barein, onde obtive dois pódios, depois andei para trás e só na metade do ano comecei a retomar o rumo.

No ano anterior, na Carlin, a relação piloto-equipe era diferente. Não estou critando a DAMS, mas mostrando que sua metodologia de trabalho não se casava com a minha. Em várias ocasiões tive de me impor para ser ouvido.

Nós evoluímos muito nesse aspecto ao longo do ano. Tanto eu procurei me adaptar a sua forma de tirar velocidade do carro quanto eles a meu entendimento do que é capaz de melhorar o chassi, trazê-lo para como gosto para torná-lo rápido, equilibrado e melhor explorar os pneus.

Já li e até mesmo ouvi de alguns pilotos que na F1 você tem de ser, antes de mais nada, forte emocionalmente para lidar com as exigência, cobranças e métodos de trabalho das equipes. Eles têm um modelo de atuar, podem até mudar algo para você render mais, porém essencialmente é o piloto que tem de se adaptar e corresponder.

Ótimo preparo para a F1

Na F1 ninguém passa a mão na cabeça para perguntar o que nos incomoda. A lista de interessados é longa e há gente bem preparada e com muito dinheiro para tomar sua vaga.

É por isso que escrevi, há pouco, que foi um ano de grandes aprendizados, talvez o mais importante. Em um certo sentido, nesta temporada na DAMS eu me antecipei um pouco ao que me aguarda na F1, espero em 2021.

Só queria lembrá-los de que tanto o Nyck, o Nicholas e o Luca, os três que terminaram o campeonato na minha frente, têm 24 anos, enquanto eu, 21. Eram mais experientes, sem desejar usar como desculpa, combinado?

Isso tudo que acabei de escrever explica (não acham?) os meus altos e baixos ao longo dos 12 fins de semana de GP da F2. Mas, como falei, seja lá para onde for que irei em 2020 eu me sinto mais preparado.

Gostaria também, nesse texto de fim de campeonato, de agradecer a Youse pelo importante apoio que me deu este ano, sem o qual seria difícil ter adquirido a extraordinária experiência mencionada. Espero encontrá-los em breve para contar o próximo passo de minha carreira. Obrigado e grande abraço.