Sérgio Sette Câmara fala de sua preparação para a temporada F2 2019 e sobre o trabalho na McLaren

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O campeonato da F2 2019, a antessala da F1, começa apenas dia 30 de março, com a primeira das duas corridas do GP de Barein, no Oriente Médio. Mas a preparação dos pilotos já começou há algum tempo. O mineiro Sérgio Sette Câmara, 20 anos, disputará a competição com a equipe francesa DAMS, depois de uma bem-sucedida temporada, no ano passado, pela Carlin, inglesa.

Além disso, ele já desenvolve a importante função de treinar com o carro da McLaren no simulador do time inglês com o qual Ayrton Senna foi três vezes campeão do mundo.

Sérgio é o piloto brasileiro mais próximo de disputar o Mundial de F1. Se realizar um bom trabalho este ano suas chances de largar no grid do GP da Austrália de 2020 serão elevadas. E ele tem tudo para se dar bem: demonstrou nas duas temporadas de F2 possuir talento e, principalmente, grande evolução.

Venceu no primeiro ano, 2017, com a modesta escuderia MP Motorsport, e em Spa-Francorchamps, pista das mais desafiadoras, e chegou oito vezes no pódio em 2018, além de estabelecer a pole position no difícil Circuito de Hungaroring, na Hungria.

A equipe de Sérgio, a DAMS, tem tradição na F2. Quando a categoria ainda se chamava GP2, seus pilotos conquistaram três títulos: em 2011, com Romain Grosjean, 2012, Davide Valsecchi, e 2014, Jolyon Palmer.

O piloto de Belo Horizonte se divide atualmente entre Barcelona, onde reside, e Woking, Inglaterra, sede da McLaren. Sua agenda diária é repleta de compromissos. Preparação física, psicológica e técnica, nas sedes da DAMS, em Le Mans, França, e Woking.

A reportagem da Youse conversou com Sérgio no intervalo de uma e outra programação de seu trabalho. No depoimento abaixo, ele dá detalhes de como tem sido o dia a dia de treinamento e suas perspectivas para a F2 2019, agora que já teve maior contato com os engenheiros franceses da DAMS.

Depoimento de Sérgio Sette Câmara para a Youse

Olá, amigos.

Faz tempo que não nos encontramos por aqui, hein? Não escondo me sentir bem ao escrever em primeira pessoa neste nosso espaço. É uma espécie de confessionário.

Olha, férias para mim são férias. A nossa temporada é de tal forma exaustiva que quando chega o fim do ano eu realmente preciso, e aprecio, dar uma desligada do mundo do automobilismo. Claro, trocamos telefonemas, decidimos algumas coisas, mas procuro me manter onde tenho minhas raízes, Minas, com a família, amigos. Faz um bem danado. Tenha a certeza que com desdobramentos positivos nos meus trabalhos, na minha performance ao longo do ano.

Em Minas segui realizando exercícios físicos, para manutenção da minha condição atlética, e como não há simulador de carros de F2, uma boa maneira de manter os reflexos em dia é treinar de kart, outra de minhas paixões.

Dia 13 de janeiro embarquei de volta para a Europa. Como já escrevi aqui, resido próximo a Barcelona. De lá fui para a sede da DAMS, ao lado do lendário Circuito de Ettore Bugatti. Para quem não sabe, explico: a tradicional prova 24 Horas de Le Mans é disputada nessa pista.

Eles acrescentam partes de estradas locais. Disputar as 24 Horas de Le Mans é um imenso desafio, quem sabe um dia na carreira eu participe. Como piloto, esses eventos históricos, de alto grau de dificuldade, e por que não, riscos, sempre nos fascinam.

Mas acho que está ainda um pouco longe de acontecer. Estou completamente focado na minha temporada na F2 2019, no trabalho como piloto de testes da McLaren no simulador e o aprendizado que terei acompanhando a equipe nos fins de semana de GP de F1. Minha confiança em disputar um grande ano na F2 para em 2020 ter boas chances de estrear na F1 é grande.

Assim que voltei para a Europa fui para Le Mans. Fiquei lá do dia 15 ao 17, na sede da DAMS. Vocês lembram que escrevi aqui, em novembro, sobre os primeiros testes com o carro deles, lá no Circuito Yas Marina, em Abu Dhabi?

Eu havia pilotado o carro da Carlin o ano inteiro e naquela pista mesmo, dias antes. O da DAMS era bem diferente. Mesmo descontando o período de adaptação inicial da transferência de um para outro time, compreendi que teria de conversar muito com os engenheiros da DAMS para mudar o acerto do carro, fazê-lo voltar-se mais para o meu estilo de pilotagem.

Pois saiba que tivemos três dias dos mais proveitosos, agora, em Le Mans. Houve uma grande convergência de opiniões, buscamos os mesmos objetivos com as mesmas receitas. Gostei bastante do simulador deles. Tirei as medidas para a produção do banco, produziram e ficou ótimo.

Saí da DAMS bem contente. Não vejo a hora de colocar tudo isso em prática. Nós teremos duas série de testes de pré-temporada na F2 2019. A primeira será de 26 a 28 de fevereiro, em Jerez de la Frontera. A segunda, de 5 a 7 de março, em Barcelona, perto de casa.

Depois desses seis dias teremos uma ideia mais clara de quem deverá lutar com mais chances de vitórias nas corridas e estabelecer as pole positions. Mas não há tanto segredo assim na F2, embora sempre haja espaço para alguma surpresa. Não é como na F1, onde cada equipe tem de projetar e construir seu carro. Na F2 é tudo igual para todos, chassi Dallara, motor V-6 turbo de 3,4 litros, 620 cavalos, da Mecachrome, e pneus Pirelli.

Eu mesmo me pergunto quem deve brigar lá na frente. Obviamente me coloco dentre os candidatos ao título. Vejo o meu companheiro na DAMS como um piloto capaz e experiente, o canadense Nicolas Latifi. Estou me dando bem com ele, como sempre com os meus parceiros.

Acho que o holandês Nyck de Vries, da campeã ART, deverá vir forte este ano. Sempre foi um piloto rápido, desde o kart, e está em uma grande equipe. A dupla da Carlin, também, o suíço Louis Deletraz e o japonês Nobuharo Matushita. Claro que os pilotos da Prema, o Mick Schumacher e Sean Gelael, serão velozes. Outros: Luca Ghiotto, da Virtuosi, Nem todos os times definiram sua formação, ainda, por isso mais gente vai aparecer na lista.

Agora uma palavrinha sobre a McLaren. Não posso falar muito por razões estratégicas. Na F1 os pilotos são bem mais policiados que na F2. O que posso dizer é que estão me dando todo o apoio necessário para realizar o meu trabalho no simulador. Aliás, incrivelmente avançado. Fizeram com que eu fosse me habituando a ele. A partir dos dados que a escuderia obtém com as minhas simulações os técnicos desenvolvem alguns de seus softwares de gerenciamento do carro, como todos fazem na F1.

Estou ainda no começo de minhas atividades na McLaren, mas já deu para ver que terei uma temporada de grandes aprendizados. Isso só aumenta a minha gana de disputar um ótimo campeonato na F2 para poder estrear na F1 em 2020 e usar esse conhecimento que estou adquirindo na McLaren.

Grande abraço e a todos e, de novo, feliz por estar de volta.