Sérgio Sette Câmara terá adversários de peso na luta pelo título da F2, dentre eles Mick Schumacher

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Já falamos sobre as perspectivas da temporada de F1, programada para começar dia 17 de março em Melbourne, na Austrália. O novo regulamento pode introduzir algumas modificações na ordem de forças que estávamos acostumados. Hoje vamos viajar pelo universo da antessala da F1, a F2, a competição que mais bem prepara os pilotos para ascender à F1.

O Brasil tem um representante na F2, o mineiro Sérgio Sette Câmara, de 20 anos, patrocinado pela Youse. Ele já treina no simulador da sua nova equipe, a francesa DAMS, localizada ao lado do circuito de Le Mans, além de se reunir com regularidade com seus engenheiros. Mas Sérgio é também piloto de testes da McLaren, responsável pelo desenvolvimento do carro de F1 no simulador do time inglês, em Woking, ao sul de Londres. Por essa razão divide seu trabalho entre a França e a Inglaterra, apesar de morar em Barcelona.

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Os três primeiros na F2 em 2018 vão estrear na F1 este ano. São eles: George Russell, 20 anos, inglês, campeão com a equipe francesa ART, contratado pela Williams para ser o companheiro de Robert Kubica. Ele pertence à academia de jovens pilotos da Mercedes. Como a Williams compete com unidade motriz Mercedes, Toto Wolff, diretor do time alemão, reduz o valor a ser pago pela Williams para ter Russell como piloto. É talentoso e está bem preparado.

O segundo colocado na F2 foi outro inglês promissor, Lando Norris, 19 anos, companheiro de equipe Sérgio na equipe Carlin, em 2018.

Sérgio Sette Câmara ficou em sexto na classificação, depois de oito pódios e uma pole position na temporada. Ele enfrentou uma série de problemas técnicos. Seu desempenho o credenciaria a terminar o campeonato entre os três primeiros.

Já Norris teve um ano com bem menos dificuldades com o equipamento que Sérgio. O seu empresário é o americano Zak Brown, diretor executivo do Grupo McLaren. Isso, aliado ao seu talento, o levou a ser contratado pela McLaren como piloto titular. Será o companheiro do espanhol Carlos Sainz Júnior.

O terceiro na F2, em 2018, foi o tailandês Alexander Albon, 22 anos, piloto da DAMS, time que será de Sérgio este ano. Albon assinou para correr pela Toro Rosso, este ano, ao lado do russo Daniil Kvyat.

Escolha renomada

O fato de os três primeiros colocados na F2, em 2018, poderem realizar o sonho de competir na F1 encheu de ânimo os meninos da F2. Está certo que as circunstâncias da F1 favorecerem a contratação dos três primeiros colocados, mas mesmo assim é uma demonstração de como a F2, com todos os seus problemas, é respeitada pelos chefes de equipe da F1.

Ter as 12 etapas do campeonato disputadas no mesmo fim de semana dos GPs de F1, nos mesmos autódromos, representa uma super vitrine para os pilotos da F2.

Há um aspecto de extrema relevância na F2. Os três primeiros colocados recebem 40 pontos na carteira de piloto. Esse é o número de pontos exigido pela FIA para os pilotos acumularem em até três anos a fim de obter a superlicença, documento que os permite disputar a F1. Veja que a F2 em uma única tacada resolve a séria questão. Basta ficar entre os três primeiros. Verdade, não é nada fácil. Mas é o caminho mais curto para a sonhada superlicença.

Este ano as lideranças da F1, bem como da F2, vão ter à disposição a meninada que vai competir do superconcorrido Campeonato de F3, junto da F1 e da F2, nas mesmas pistas e datas. A GP3, extinta, deu lugar para a F3. É desse caldeirão, F3 e F2 juntas, que deverão sair as próximas gerações de pilotos da F1.

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A F2 passou por uma grande mudança técnica no ano passado. Os carros e motores usados remontavam, ainda, a 2011. A Dallara passou a produzir um chassi muito mais avançado, gerador de maior pressão aerodinâmica, com DRS e halo. O motor escolhido foi o Mecachrome V-6 turbo de 3,4 litros, com 600 cavalos de resposta de potência. Os pneus foram da Pirelli, de alta degradação.

Mesmo equipamento

E como será este ano? O equipamento será exatamente o mesmo. Não muda nada. Os pneus acompanharão o rumo da F1. A versão de 2019 da Pirelli permitirá aos pilotos se preocuparem menos em administrar seu consumo, como fez a F1 nos dois últimos anos, e acelerar mais.

A saída dos três primeiros colocados da F2 para a F1, este ano, está trazendo muita gente nova para o campeonato. A abertura será dia 30 de março, sábado do GP de Barein de F1, no Circuito de Sakhir. Lembrando que a F2 faz sempre uma corrida no sábado à tarde, de 170 quilômetros ou uma hora, e outra no domingo de manhã, de 120 quilômetros ou 45 minutos.

Mas antes de o campeonato começar os pilotos realizarão seis preciosos dias de testes. Os únicos. Serão duas séries de três dias. A primeira, de 26 a 28 de fevereiro, em Jerez de la Frontera, na Espanha, e a segunda, de 5 a 7 de março no Circuito da Catalunha, em Barcelona.

Grid bastante modificado

A equipe do campeão Russell, ART, terá dois pilotos novos. O conceituado holandês Nick de Vries, 23 anos, quarto colocado com a Prema, em 2018, é um deles. Ele faz parte da academia da McLaren. Vries é desde já um dos candidatos ao título. O seu companheiro será o russo Nikita Mazepin, 19 anos, vice-campeão da GP3 no ano passado. Seu pai é dono de uma das maiores fortunas da Rússia, proprietário da gigante na área química Uralkali. Ele tentou comprar a Force India, mas os administradores judiciais ingleses decidiram que a oferta o pai do piloto Lance Stroll, o canadense Lawrence Stroll, atendia mais os interesses do time.

A escuderia do vice-campeão Albon tem como novidade a contratação de Sérgio. Sai um piloto rápido e entra outro de características semelhantes. Sérgio mostrou com a vitória em Spa-Francorchamps, em 2017, pilotando o carro da modesta MP Motorsport, e na pole na Hungria, no ano passado, na Carlin, além dos oito pódios, que tem todas as condições para lutar pelo título. Sérgio cresceu muito como piloto em 2018, além de estar bem mais maduro como pessoa.

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O companheiro de Sérgio na DAMS será o canadense Nicholas Latifi, 23 anos, um veterano da F2. Será sua quarta temporada na categoria e na mesma equipe. A F2 se chamava GP2 até 2016. Latifi já pilotou o carro da Force India nos treinos livres. Na temporada passada da F2 terminou em nono, com uma vitória, em Spa-Francorchamps.

Seu pai é outro milionário, Michael Latifi, dono da Sofina Foods, dentre outras grandes empresas. Em maio do ano passado Michael comprou parte da participação de Ron Dennis no Grupo McLaren por 270 milhões de dólares (R$ 1 bilhão). Apesar de o pai de Nicholas ser dono também da McLaren, o piloto ainda não entrou nos planos da escuderia.

Na equipe de Sérgio em 2018, a Carlin, os dois pilotos são novos. Agora o time inglês terá o suíço Louis Deletraz, 21 anos, décimo na F2 em 2018, na Charouz. Não demonstrou até agora ser um grande talento, mas sempre é possível um piloto surpreender.

O seu companheiro na Carlin será o japonês Nobuharo Matsushita, 25 anos, sexto na F2, em 2017, com a ART, duas vitórias, e 11º na Super Formula, no Japão, no ano passado. Será a quarta temporada de Matsushita na F2. Pouco provável vê-lo lutar pelo título.

Na troca de Norris e Sérgio por Deletraz e Matsushita a Carlin saiu perdendo em termos de pilotos.

O filho do heptacampeão

Outra escuderia de destaque na F2 é a itailana Prema, campeã com Pierre Gasly, em 2016, e o astro emergente na F1 Charles Leclerc, em 2017. Leclerc será o companheiro de Sebastian Vettel na Ferrari. A Prema terá este ano ninguém menos de Mick Schumacher, filho de Michael, sete vezes campeão do mundo. Mick, alemão, 19 anos, chega com o surpreendente título da F3 europeia.

Uso o termo surpreendente porque Mick passou a ganhar quase tudo na segunda parte do campeonato. Na primeira havia obtido um único pódio, assim como nas 33 corridas da F3 em 2017. Mick era mais lento que os companheiros. Foi uma reviravolta súbita de performance. Qual Mick vamos ver, este ano na F2? O de 2017 e nas primeiras corridas de 2018, em que nada lembrava o pai supercampeão, ou o que ganhou oito corridas, sendo cinco seguidas?

Mick é membro da Academia da Ferrari e sua carreira passou, agora, a ser administrada por Nicolas Todt, filho de Jean Todt, atual presidente da FIA e ex-diretor da Ferrari.

O parceiro do filho de Schumacher na Prema será o indonésio Sean Gelael, 22 anos, 15º em 2018 na F2, com a mesma Prema.

Outra equipe que já conhece seus pilotos é a UNI-Virtuosi, inglesa. É o novo nome da Russian Time em 2018. Seus pilotos serão o italiano Luca Ghiotto, 23 anos, e chinês Guanyu Zhou, 19 anos. Ghiotto foi oitavo na F2, em 2018, pela Campos, espanhola. Zhou ficou em oitavo na F3 europeia, na Prema.

Giuliano, filho de Jean Alesi

O filho de Jean Alesi, o francês Giuliano Alesi, 19 anos, vai disputar a F2 este ano pela mesma equipe da GP3 no ano passado, a italiana Trident. Foi sétimo na competição. Giuliano é membro da Academia da Ferrari. Outro que já confirmou presença na F2 é o inglês/coreano Jack Aitken, 23 anos, piloto da Academia da McLaren. Ele foi 11º na F2, no ano passado, no time do campeão, ART.

Outra estreia esperada na F2, este ano, é a do francês Anthoine Hubert, 22 anos, campeão da GP3, em 2018, pela ART. Correrá a F2 pela Arden, escuderia de propriedade do diretor da Red Bull na F1, Christian Horner.

As demais sete vagas de pilotos na F2 não foram ainda preenchidas.

Não tão distante da F1

Falávamos de a F2 ser uma escola respeitada na F1, mesmo não sendo a ideal, por principalmente os pilotos treinarem muito pouco e ainda haver uma diferença importante de tecnologia entre uma categoria e outra. Mas em termos de performance, a diferença não é impensavelmente grande. Os pilotos sinalizam sentir dificuldades iniciais de adaptação com as muitas interações exigidas pelo carro de F1, em número bem menor na F2, mas não com relação a maior velocidade.

Três exemplos de diferença de performance entre os carros de F1 e de F2. Na realidade esse exemplo não expressa a total realidade do caso, pois os pneus da F1 são bem mais macios que os da F2, garantem a seus carros maior aderência e velocidade nas curvas. Mas vamos lá, não deixa de ser uma referência entre uma e outra categoria.

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No GP da Espanha, em Barcelona, pista de média velocidade de 4.655 metros, a pole position na F2, em 2018, ficou com Albon, da DAMS, com 1min28s142. Na F1, com Lewis Hamilton, Mercedes, 1min16s173. Ou seja, a F1 foi 11s969 mais rápida.

Em um traçado de baixa velocidade como o de Monte Carlo, em Mônaco, de 3.337 metros, a pole na F2 foi de Albon de novo, 1min21s727, enquanto na F1, de Daniel Ricciardo, da Red Bull, 1min10s810. A F1 foi 10s917 mais veloz.

Em um autódromo de alta velocidade, como o de Monza, de 5.793 metros, a pole na F2 de George Russell, da ART, ficou em 1min31s546. Na F1, com Kimi Raikkonen, Ferrari, 1min19s119. A F1 foi 12s427 mais rápida.

Como as 12 etapas da F2 são, conforme mencionado, nos mesmos fins de semana da F1, vou acompanhá-las de perto, sempre com muito interesse. O mesmo vale para a F3. Teremos muito o que conversar ao longo do ano.

Abraços!