Vem aí uma nova F1, bem diferente da atual

Os carros serão bem distintos. Um assoalho com o desenho de uma asa de avião colocada na posição invertida vai fazer com que os carros gerem maior pressão aerodinâmica e dessa forma os pilotos possam seguir os adversários mais de perto.

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Se Sérgio Sette Câmara, patrocinado pela Youse, ascender à F1 no ano que vem, conseguir uma das raras vagas que vão surgir, o atual piloto da equipe DAMS de F2 não verá diferenças em relação ao que estamos assistindo nesta temporada, com belos pegas entre Lewis Hamilton, da Mercedes, Max Verstappen, Red Bull-Honda, e Charles Leclerc, Ferrari, por exemplo. Os regulamentos técnico, esportivo e o modelo de gestão da F1 serão os mesmos.

Mas a F1 que Sérgio vai encarar a partir de 2021, caso venha a disputar a principal categoria do automobilismo mundial, como tudo indica, será radicalmente diferente da conhecida. E estamos a apenas um ano e meio dessa nova realidade da F1.

Os campeonatos da F1, F2 e F3 voltam à ativa em pouco mais de uma semana, no Circuito Spa-Francorchamps, na Bélgica.

Depois disso, as lideranças das escuderias de F1, como Toto Wolff, da Mercedes, junto dos integrantes da Formula One Management (FOM), dona dos direitos comerciais, coordenados por Ross Brawn, e da FIA, do presidente Jean Todt, terão dois meses, somente, para definir o texto final das novas regras, já bem costuradas hoje. O prazo limite é 31 de outubro.

© F1 Mania / Ross Brawn, diretor técnico campeão do mundo na F1 pela Benetton, Ferrari e Brawn GP, coordena a concepção da nova F1.

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Vale a pena conhecê-las

Os carros, por exemplo, apesar de se parecerem com os atuais, serão bem distintos. Por baixo das suas laterais haverá um assoalho com o desenho de uma asa de avião colocada na posição invertida. A parte superior virada para baixo. Isso vai fazer com que os carros gerem maior pressão aerodinâmica e dessa forma os pilotos possam seguir os adversários mais de perto, reduzindo as imensas dificuldades de ultrapassagem existentes. Há uma tendência, portanto, de as corridas serem mais dinâmicas, com maior troca de posições.

Outra mudança importante nos carros é a introdução dos pneus de 18 polegadas em substituição aos atuais, de 13. Eles parecerão verdadeiros monopostos de corrida. As implicações de engenharia dessa grande novidade são enormes. Os projetistas terão de começar os estudos de seus modelos para 2021 a partir de uma página em branco no computador.

Obviamente isso abre a perspectiva de a atual ordem de forças da F1, com Mercedes, Red Bull e Ferrari muito à frente dos concorrentes, ser revista.

O tão questionado motor, ou unidade motriz híbrida, como é chamado, permece como está. Havia um grande interesse em torná-la mais simples e econômica. Mas as quatro construtoras da F1, Mercedes, Ferrari, Honda e Renault, definiram junto dos homens da FOM e da FIA não mudar as unidades motrizes. Exatamente por razões de custo. Revê-las implicaria ter de investir muito dinheiro em um novo projeto.

Toto Wolff, sócio e diretor da Mercedes F1, é um dos líderes dentre os representantes das equipes.

Limite orçamentário na F1

No plano esportivo, a principal alteração será a introdução de um lendário limite de orçamento. Nunca na história de 70 anos as equipes tiveram um teto para investir, o que ajuda muito a explicar as profundas diferenças de performances entre elas.

A três mais eficientes da F1, nos últimos anos, Mercedes, Ferrari e Red Bull, têm orçamento na casa dos 330 milhões de dólares (R$ 1,3 bilhão) por temporada. O valor é um pouco menos do dobro do investido por McLaren e Renault, por exemplo, e três vezes mais do gasto, em média, pelas demais escuderias.

A partir de 2021, os times não poderão dispor de mais de 175 milhões de dólares (R$ 700 milhões) por ano. Mas atenção: estão fora dessa conta o quanto pagam aos seus pilotos, aos três principais diretores e o investimento realizado no desenvolvimento e construção das unidades motrizes, bem como o orçamento de marketing.

Em termos práticos, as três maiores escuderias vão ter de gastar algo como 80 milhões de dólares a menos de hoje. Não é uma diferença brutal capaz de fazer da Williams, a de menor orçamento na F1, algo como 100 milhões de dólares (R$ 400 milhões), ter as mesmas condições de disputa, mas já é um avanço àquilo que sempre caracterizou a F1, a discrepância de investimento entre suas equipes.

O limite de 175 milhões de dólares permanecerá de 2021 a 2025.

Jean Todt, presidente da FIA, entidade tem a responsabilidade de controlar o cumprimento das regras.

Maior justiça

Outra mudança da maior importância para a F1 e também histórica é a introdução de um novo critério de distribuição do dinheiro arrecadado pela FOM. A FOM recebe dos promotores de GP um valor cada ano que a F1 chega no país. Esse valor varia muito. Na Europa a taxa é de algo como 25 milhões de dólares (R$ 100 milhões). Nos países admitidos mais recentemente no calendário, como Barein, China, Azerbaijão, Singapura, por exemplo, esse valor pode ser o dobro.

Outra fonte importante de receita da FOM é a venda dos direitos de TV para a transmissão dos GPs. Entre o que a FOM arrecada com a taxa paga pelos promotores de GP, pelas emissoras de TV e a venda de espaços publicitários nos circuitos, o total chega a 1,3 bilhão de dólares (R$ 5,2 bilhões) por ano.

Uma pequena parte fica com a FIA, outra maior com a FOM, e cerca de 60% são distribuídos entre os times. Atualmente, a FOM leva em consideração, primeiro, o seu histórico. A Ferrari, por estar na F1 desde a sua origem, em 1950, recebe, apenas por isso, 70 milhões de dólares (R$ 280 milhões).

Outras escuderias também ganham bônus, mas nem de longe se aproximam da Ferrari. Outro critério obedece a sua classificação do Mundial de Construtores. A campeã recebe 100 milhões de dólares, a segunda colocada, 70, e assim vai.

Tudo o que falamos até agora e está em vigência na F1 acata o contrato assinado em 2013 entre os representantes dos times, da FOM, na época Bernie Ecclestone, e da FIA, Todt. Esse contrato termina no fim de 2020 e tem nome: Acordo da Concórdia.

A partir de 2021, um novo contrato, dirigido por princípios bem distintos dos que geraram o Acordo da Concórdia, será assinado entre as três partes.

Nele, esses critérios que favorecem a quem já tem muito dinheiro para investir serão revistos. Haverá uma distribuição mais justa do arrecadado pela F1. A medida, junto da introdução do limite orçamentário, tende a reduzir as diferenças impensáveis de performance entre os times, ou seja, passarmos a ter grids um pouco mais compactos.

Por fim, outra alteração relevante atinge a forma como as regras são definidas na F1. Hoje elas nascem, basicamente, no Grupo de Estratégia, onde apenas, ditatorialmente, as escuderias grandes fazem parte. A partir de 2021, um novo sistema de criar e rever o regulamento será adotado, com a participação de todos que disputam a competição.

Seria inocência acreditar que esse conjunto de regras, nunca tentado antes na F1, por resistência dos que têm o poder – os mais ricos -, irá fazer com que as dez equipes que disputam o mundial passem a ter as mesmas chances de sucesso. Mas não há dúvida de que introduz elementos novos na F1, capazes de nos levarmos a assistir à corridas diferentes das que estamos habituados. Provavelmente melhores.