Vettel ausente na festa da Ferrari?

Em casa, na Suíça, participou dos agradecimentos aos técnicos e funcionários da Ferrari por telefone

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Vettel vive o pior momento da carreira. | Foto: F1i

Nesta quarta-feira, os cerca de mil integrantes da Ferrari fizeram uma festa na sede da equipe em Maranello, Itália. Isso porque Charles Leclerc lá esteve para, junto do diretor geral, Mattia Binotto, celebrar com o grupo a vitória nas duas últimas etapas do campeonato, em Spa, na Bélgica, e Monza, Itália.

O emocionante encontro tinha também o objetivo de Binotto e Leclerc agradecerem a todos pelo enorme esforço realizado nos últimos meses para melhorar a competitividade do modelo SF90. Até antes da prova de Spa, a Ferrari não havia vencido nenhum GP este ano, ao passo que a Mercedes, dez, e a Red Bull-Honda, dois.

Espera aí, tem alguma coisa errada nesse texto, você pode estar pensando e com razão. A Ferrari não é apenas Binotto e Leclerc. Onde estava Sebastian Vettel, o outro piloto da escuderia?

Resposta: em casa, na Suíça, junto da esposa e das duas filhas pequenas. E, acredite, participou do instante de agradecimento aos técnicos e funcionários de modo geral por telefone. Repito: por telefone.

Você leu certo: no momento mais importante do grupo da Ferrari, o piloto que foi contratado em 2015, a peso de ouro, para levar o time a voltar a conquistar títulos estava ausente. E não há nenhuma informação de que tivesse uma necessidade maior de estar em casa.

O episódio é sintomático. Enquanto Leclerc, monegasco de 21 anos, primeiro na Ferrari e segundo na F1, apresenta uma curva de crescimento meteórica, bem pouco comum para um novato, Vettel, aos 32 anos, já tetracampeão do mundo, produz cada vez menos.

Vamos aos números. No começo da temporada, Leclerc precisou descobrir o que é pilotar um carro potencialmente vencedor na F1. Mas só não venceu a segunda etapa, no Barein, porque o SF90 teve uma pane elétrica. Mas uma vez dominado seus instintos, Leclerc começou a dar as cartas.

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Hegemonia total na Ferrari

A partir do GP da França, oitavo do calendário, Leclerc venceu Vettel em todas as sessões de classificação. Está inquietantes 7 a 0. E em ritmo de corrida, da mesma forma está se impondo ao alemão: somou da prova em Paul Ricard, França, para cá 110 pontos. Vettel, 69. E já o ultrapassou na classificação do mundial. Está em quarto, com 182 pontos, diante de 169 de Vettel, quinto.

Em Monza, Vettel cometeu não um, mas dois erros comprometedores, ao rodar sozinho na curva Ascari, e depois na tentativa de voltar logo à pista tocou perigosamente em Lance Stroll, da Racing Point, levando a direção de prova a puni-lo com stop and go de 10 segundos.

No fim das 53 voltas, o ex-piloto Jean Alesi deu a bandeirada ao primeiro colocado, Leclerc, e ao 13º, com uma volta de atraso, Vettel, sendo que ambos tinha o mesmo modelo SF90 da Ferrari.

Tudo o que Vettel não deseja, esses dias, é reviver o ocorrido em Monza. Está isolado para tentar se reencontrar, descobrir como resgatar a autoconfiança perdida, origem de tantos equívocos não apenas nesta temporada, como na de 2018 também.

A maior pressão é a que Vettel faz a si mesmo. Ele sabe o que a torcida está pensando e a direção da Ferrari, questionando: qual o sentido de mantermos um piloto que ganha, segundo se comenta no paddock, 36 milhões por ano, ou dez vezes mais, no mínimo, pago a Leclerc, e ele ser hoje mais um problema do que uma solução?

Leclerc na frente de Vettel: o simbolismo da foto reflete a realidade das pistas, razão de Vettel se perder emocionalmente. | Foto: Gettyimage

Rever a receita

O diretor da Ferrari, Binotto, tem consciência de que precisa ajudar Vettel voltar a ser o piloto com elevado nível de produção conhecido e, essencialmente, não cometa mais erros que punam a equipe de somar pontos. Ele precisa entender que não é como está fazendo, tentando de todas as formas encontrar velocidade para acompanhar Leclerc, que voltará a ser eficaz. Essa não é a solução, só agrava o problema, apenas o levará a seguir errando.

Vettel é resistente a receber ajuda externa, de psicólogos especializados em esporte de alta performance, para se reequilibrar. Outro desafio para Binotto.

Dispensá-lo não seja talvez o melhor caminho. Teria de ser pago do mesmo jeito. E custa caro. Além disso, não há ninguém disponível, ao menos de comprovada capacidade, para ocupar a vaga em um dos carros mais cobiçados do mundo, o da Ferrari na F1.

Virou segundo piloto

Vettel tem mais sete GPs, este ano, para trabalhar a si próprio, não se deixar levar pela esperada melhor performance de Leclerc. Dá para imaginar como está sendo difícil para ele ler e ouvir que se transformou, naturalmente, no segundo piloto da Ferrari.

E podemos pensar, também, no que vem à mente de Binotto, em especial quanto a 2020. Como administrar um time onde o “segundo piloto” ganha dez vezes mais que o primeiro e, claro, produz muito menos?

Dá para ver como as coisas estão quadradas na Ferrari, por nada redondas, o que explica plenamente a ausência de Vettel no encontro de congraçamento do grupo, esta semana, em Maranello?

Vamos para o GP de Singapura, de 20 a 22 deste mês. A pressão sobre Vettel deverá ser um pouco menor, pois no Circuito Marina Bay, nas ruas da cidade, a luta pela vitória, tudo leva a crer, reunirá os pilotos da Mercedes, Lewis Hamilton e Valtteri Bottas, e da Red Bull-Honda, Max Verstappen e talvez Alexander Albon, e não os da Ferrari, como foi em Spa e Monza. A conferir.