Piloto Sérgio Sette Câmara fala sobre acidente na Fórmula 2 em Mônaco

As ruas de Mônaco são conhecidas como palco de algumas das melhores corridas de todos os tempos. O principado europeu se tornou cenário para ultrapassagens históricas, recordes de tempos de volta e para a projeção de pilotos que viriam a se tornar grandes nomes do automobilismo mundial. É uma pista que não permite muitos erros, e o brasileiro Sérgio Sette Câmara enfrentou isso durante seu treino para a mais recente etapa da Fórmula 2. Abaixo, em depoimento exclusivo ao jornalista Livio Oricchio, o piloto dá detalhes sobre o acidente que o deixou de fora das corridas deste final de semana e fala sobre como pretende continuar na briga pelo campeonato.

• por

Fase difícil só aumenta a minha gana de voltar a vencer

Sérgio Sette Câmara, em depoimento a Livio Oricchio

Oi pessoal.

Esperei a poeira abaixar um pouco para me manifestar aqui no espaço da Youse, onde me expresso menos formalmente. E gosto.

Passei por outro fim de semana difícil em Mônaco, onde eu tinha grande esperança de obter um ótimo resultado e reduzir a diferença de pontos para o meu companheiro de equipe, na Carlin, Lando Norris, com quem me dou bem, o líder do campeonato da F2.

Apesar de ter completado 20 anos na semana passada, tenho bastante experiência no automobilismo e no kart para encarar com certa naturalidade o que vem acontecendo comigo desde a desclassificação da segunda corrida em Baku, no Azerbaijão, quando terminei em segundo, depois de liderá-la a maior parte do tempo. Tudo o que eu não posso fazer é me abater. Aí, sim, eu não saio dessa espiral.

Vou começar pelo sábado, no Circuito de Monte Carlo, em Mônaco. Tinha o segundo melhor tempo do meu grupo na classificação e na última tentativa de ser primeiro e largar na pole toquei a zebra na curva número 1, a roda saiu do chão, me impedindo de evitar o choque no guardrail. O volante virou bruscamente e feriu, sem gravidade, o meu pulso direito. Passei pelos médicos, fizeram o raio X e, como eu esperava, não encontraram nenhuma fratura.

Os médicos da FIA me chamaram para um teste no dia seguinte, ainda pela manhã. Queriam ver a evolução do meu caso. Fiz o tratamento que me indicaram, com gelo, não havia inchaço, apenas alguma dor dependendo do movimento. Mas quando eu entrei para supostamente ser examinado, tranquilo de que correria, eles nem me examinaram. Disseram que eu não iria correr e pronto.

Não adiantou eu argumentar que não havia lesão alguma e me sentia em condições. Decidiram e pronto. Quando vejo os pilotos da MotoGP competirem depois de acidentes de verdade sérios, confesso não ter entendido a proibição de eu correr. A equipe me deu todo apoio o tempo todo.

E nem na segunda corrida do GP, no domingo, eu poderia também largar. Mesmo em último, por ter não disputado a primeira, com o carro que temos e como me sinto à vontade no Circuito de Monte Carlo, tenho certeza de que chegaria nos pontos, apesar da imensa dificuldade para ultrapassar. Tenho de aceitar, obviamente, a decisão dos médicos da FIA, é de esperar que sabem o que fazem.

O que aconteceu, falo da batida, só aumentou a minha gana de entrar logo na pista e fazer bonito, como estava fazendo na classificação, podendo obter a pole position. Em qualquer outro circuito tocar a zebra como fiz teria como consequência escapar um pouco da trajetória ideal e partir depois para nova tentativa de estabelecer o primeiro tempo. Mas Mônaco é assim, errou você paga.

O GP acabou ali para mim. Assistindo depois à primeira corrida, vi que, mesmo largando em quarto, eu poderia ter vencido diante do seu desenvolvimento. Melhor ainda foi ver que o Lando ficou apenas em sexto, o que me permitiria, como planejei, reduzir a diferença entre nós na classificação do campeonato.

Isso me fez regressar para casa, do lado de Barcelona, umas 5 horas de carro de Mônaco, sem saber ao certo o que pensar sobre a decisão dos médicos de sequer me examinarem, fazer um teste de mobilidade, como eu fiz antes de chegar lá na sala deles e estar confiante de que não haveria problemas para disputar a prova.

Qual a consequência do inconveniente em Mônaco? Eu saí da etapa de Barcelona, dia 13, em quinto no campeonato, com 46 pontos. O Lando, líder, tinha 80. Agora caí para sétimo, com os mesmos 46 pontos, enquanto o Lando foi para 100. E há entre nós cinco pilotos.

Sabe por que eu não me sinto abatido com isso? Por causa da certeza de eu, este ano, estar pilotando bem mais que na temporada passada, como demonstrei com três pódios nas quatro primeiras corridas, e a Carlin disponibilizar um carro capaz de me permitir lutar lá na frente. Fiquei é p da vida de não correr numa das pistas que mais gosto, sabendo ser possível.

A F1 vai para o Canadá enquanto a F2 só tem corrida, agora, na França, dias 23 e 24 de junho. Vou seguir na minha preparação física. O meu pulso direito ficará enfaixado, por mais uma semana, recomendação do fisioterapeuta. Mas minha preparação física segue a programação normal.

Do ponto de vista emocional, ao contrário do se possa pensar, nunca me senti tão forte. Por causa do que falei, estou preparado para ser protagonista do campeonato da F2 e só não estou dentre os três primeiros, como no começo, não por minha responsabilidade, exceto no de Mônaco.

Fui segundo em Baku e acabei desclassificado por não ter um litro de gasolina no tanque depois da bandeirada, como manda a regra. Em Barcelona, etapa de casa, tive um problema elétrico na definição do grid e larguei lá atrás. Mesmo assim terminei em sétimo. No dia seguinte, o quarto ou o terceiro lugar eram possíveis. Estava em quarto quando outra pane elétrica me obrigou a parar.

Agora em Mônaco não há o que dizer, errei, ponto, pela primeira vez no ano. Mas era o quarto no grid e, como falei cem vezes, em total condição de correr e com chance de vitória. Não me deixaram participar de nenhum das duas corridas. Deu para ver que minha colocação no campeonato é circunstancial?

Uma hora a coisa vira, amigo. A tal da experiência que mencionei há pouco já me ensinou essa lição. Está hoje ruim, mas depois, com muito trabalho e determinação, termina muito bem. Pode apostar, amigo. Se depender apenas da minha gana e, sem presunção, preparo, voltarei já em Paul Ricard, na França, a obter os mesmos pódios das duas primeiras etapas do ano.

Obrigado pelo carinho de sempre. Grande abraço a vocês!