Sérgio Sette Câmara fala sobre a desclassificação na corrida de Baku da F2

Foi um final de semana de emoções para Sérgio Sette Câmara. O brasileiro competiu em sua pista favorita, no Arzeibaijão, pela segunda etapa do campeonato de Fórmula 2. Voando baixo, Sette garantiu o 4° lugar na corrida de sábado (28), mas foi na prova do dia seguinte que mostrou todo o seu talento, liderando por boa parte das voltas e conquistando o 2° lugar ao final. Porém, logo depois de cruzar a linha de chegada, já na volta de desaceleração, o carro do brasileiro ficou sem combustível e parou no meio da pista. A consequência foi uma punição por parte da federação do automobilismo (FIA), que exige que todos os carros terminem cada corrida com pelo menos 800 ml de combustível no tanque para fazer testes e garantir que não há adulteração. Sette acabou desclassificado da prova, caindo da 2ª para a 3ª colocação no campeonato geral. Mas ainda há muitas corridas pela frente. Em um depoimento exclusivo ao jornalista Livio Oricchio, o piloto conta pra gente o que aconteceu exatamente durante a prova e como ele já está se preparando para a próxima etapa, na Catalunha, dia 11 de maio.

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Ganhamos e perdemos juntos

Sérgio Sette Câmara, de Barcelona (Espanha)

Oi pessoal!

Não tem essa de ficar lamentando a perda do segundo lugar na segunda corrida, lá na minha pista favorita, em Baku. Foi duro acreditar no primeiro momento, mas já assimilei o golpe.

Junto com meu engenheiro, o Daniele (o italiano Daniele Rossi), mudamos o carro da primeira corrida, no sábado, para a segunda, no domingo, e voltei a ter aquela confiança necessária para ser agressivo na pilotagem, como é fundamental em Baku, traçado super rápido e com muro dos dois lados do asfalto. Quem erra em Baku paga um preço alto.

Larguei bem de novo. Da quinta colocação avancei para terceiro, na curva 2 ultrapassei o meu companheiro na Carlin (o inglês Lando Norris) e fiquei em segundo. E no começo da segunda volta ultrapassei o Latifi (o canadense Nicholas Latifi, da equipe DAMS) para assumir a liderança.

Permaneci em primeiro até a 17ª volta. Faltavam apenas quatro para a bandeirada. O Russell (o britânico George Russell, da ART) me ultrapassou porque tinha um carro muito mais rápido que o meu. Acabei em 2º. Não fiquei chateado porque era o meu 3º pódio em quatro corridas. Na primeiro etapa, no Barein, fui 2º no sábado e 3º no domingo.

Na volta de regresso aos boxes, cumprimentei o Daniele no rádio, ele a mim, felizes, quando o carro deu uma falhada e o motor deixou de funcionar. Como o circuito é longo (6.003 metros), até um veículo da organização ir me buscar para levar à cerimônia do pódio demorou. Quando cheguei, estavam entregando os troféus e deu tempo de receber o meu, lindo por sinal.

Até aí, pessoal, tudo bem. Do pódio fomos à sala de imprensa e depois para a área reservada às TV, dei várias entrevistas. Como o Lando tinha terminado em quinto, ele somaria 6 pontos e eu, segundo, 12, o que me deixaria vice-líder do campeonato, um ponto apenas atrás dele, 53 a 52.

Até falar com todos os jornalistas passou um bom tempo. Isso tudo no paddock da F1. Terminada as entrevistas, caminhei para a área destinada às equipes de F2, o nosso paddock, não distante, do outro lado do paddock da F1.

Quando eu cheguei no espaço da Carlin, vi os comissários da FIA verificando o meu carro e fazendo coisas que eu não havia ainda visto. Junto dos mecânicos, levantaram o carro e o inclinaram, a fim de ver se conseguiam tirar os 800 mililitros de gasolina, quase um litro, como manda o regulamento, para checar sua legalidade. É a mesma para todos os pilotos.

Pois nem virando o carro foi possível, o tanque estava vazio. Conversei com o Daniele e ele assumiu o erro. Disse a ele que faz parte. E quando nós, pilotos, rodamos sozinhos? No meu caso é pouco comum, mas já aconteceu e pode acontecer de novo, apesar de eu me sentir muito mais preparado, este ano.

Gostaria de sair em defesa do meu engenheiro, com quem me dou muito bem. Eu liderei a maior parte da corrida. Foi o meu carro que teve de enfrentar, primeiro, ventos de até 60 km/h na reta de mais de dois quilômetros. Dá para ter uma ideia da força extra que meu motor teve de fazer, durante os mais de 30 segundos que ficamos com o acelerador no curso máximo?

Quem vem atrás, em uma reta como essa, bem de longe já pega o vácuo do carro da frente e precisa de bem menos energia para avançar. É por isso que vimos tanta ultrapassagem no fim da reta. No fim da primeira volta, como falei, eu peguei o vácuo do Latifi e senti os giros do meu motor crescerem, o que me permitiu ultrapassá-lo, sem dificuldade, para ser líder.

Portanto, o erro do meu time tem lá seus atenuantes. Liderar a corrida como fiz a maior parte do tempo consumiu bem mais combustível do normal. Mas é isso, ganhamos juntos e perdemos juntos. O grupo da Carlin é muito capaz e até agora está sendo ótimo comigo. Trabalhamos bem juntos.

Bola para a frente. Eu cheguei em casa, perto de Barcelona, na segunda-feira de manhã, depois de voar a noite toda, cansado e doído, claro, pela desclassificação, e já no dia seguinte, bem cedo, voei para Londres, a fim de passar o dia no simulador, me preparando para a terceira etapa do campeonato, dias 12 e 13 na pista perto de casa, em Barcelona. Saí de lá sem pensar mais na perda dos 12 pontos do segundo lugar em Baku.

Agora, em vez de ter 52 pontos e um apenas a menos do Lando, líder do campeonato, caí de segundo para terceiro, com 40 pontos. O Albon (o tailandês Alexander Albon, da DAMS) é o vice, com 41 pontos. E com minha desclassificação o Lando foi para 55. Tudo bem, vou para o GP da Espanha com ainda mais gana de terminar no pódio de novo. Sei que posso.

Na F2, é fundamental você somar pontos. No fim do ano, quando você for conversar com os chefes de equipe da F1, ou eles te chamarem, é isso o que vão olhar. Se eu deixei de somar 12 pontos na corrida do domingo em Baku porque eu não tinha 800 mililitros de gasolina no tanque nem vão se lembrar.

A memória no automobilismo é curta. E seus profissionais, extremamente objetivos. Tem pontos no campeonato, foi o campeão, o vice, o terceiro, pode eventualmente interessar. Não tem currículo, não interessa, obrigado.