Sergio Sette Câmara na disputa por seu espaço na Fórmula 1

Sérgio Sette Câmara começa neste fim de semana o maior desafio da carreira. Esse mineiro de 19 anos estará ao lado de outros 19 jovens pilotos na abertura do Campeonato da Fórmula 2, no Circuito de Sakhir, em Bahrein. Todos com um mesmo sonho: chegar à Fórmula 1. A gente aqui na Youse acredita na capacidade, determinação e ousadia do Sérgio ao topar pilotar o carro da Carlin nesta temporada. Vamos dar nosso apoio e acompanhar de perto o desempenho do brasileiro. E a gente vai contar com a companhia do Livio Oricchio, jornalista que há 30 anos segue de perto a F1 e já acompanhou a trajetória de outros jovens pilotos brasileiros dispostos a tudo para realizar o sonho de conquistar a maior categoria do automobilismo e fazer a alegria de milhões de fãs da competição no país. Confira o que pensa o jornalista desse momento de decisão na carreira do Sérgio.

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Poucas vezes um piloto demonstrou tanta ousadia como Sérgio Sette Câmara

Por Livio Oricchio, de Nice (França)

Foi com prazer que aceitei o convite da Youse para abordar o desafio do Sérgio Sette Câmara na Fórmula 2 este ano. O que primeiro chama a atenção é que a grande maioria dos pilotos evitaria o confronto com Lando Norris, ou seja, competir com o mesmo equipamento, na mesma equipe, feudo do inglês, a Carlin, com quem Norris foi campeão, por exemplo, na conceituada F3 europeia em 2017, dentre outras antes disso.

Resido na França, tenho acesso um pouco mais íntimo ao tratamento destinado, em especial pelos ingleses, a Lando Norris. É como se surgisse no Brasil um adolescente talentoso, com postura semelhante a de Ayrton Senna, ganhando tudo por onde passa. O espaço dele na imprensa e a forma de tratamento impressionam.

Mais: Norris completou 18 anos em novembro. Parte da mídia britânica, pouco prudentemente, não teme os riscos em afirmar que seguirá os passos de Hamilton, haja vista que a McLaren já o tem sob contrato e, imagine, é o substituto de Fernando Alonso e Stoffel Vandoorne se por alguma razão não puderem disputar um GP.

É, em primeiro lugar, contra esse piloto talentoso e formado cientificamente pela McLaren, como fez com Hamilton, e paparicado de todos os lados, que Sérgio irá lutar.

Conversei longamente com o Sérgio depois dos três dias de testes com o carro e motor novos da F2 em Paul Ricard, aqui na França, e os outros três dias no Circuito de Sakhir, onde vai disputar no fim de semana a abertura do campeonato. Acompanharei tudo de perto. Estarei lá. Depois dos testes, Sérgio contou ter gostado muito da Carlin e que, ao menos hoje, não há diferença de tratamento entre o dedicado a ele e a Norris. Elogiou o nível técnico e a isenção da Carlin.

E se ele for mais veloz que o companheiro, a Carlin vai ver Sérgio com olhos ainda melhores. Se perder, é provável que haverá quem pense em concentração de interesse em Norris. Não necessariamente. A competição entre os dois começa aberta, até porque será preciso vencer outros pilotos, igualmente talentosos e potenciais campeões, em equipes muito bem estruturadas, como o inglês George Russell, 20 anos, da ART, da Academia da Mercedes, e o holandês Nick de Vries, da Prema, também da Academia da McLaren, embora haja mais.

Nos testes, houve pequena vantagem de Norris no confronto com o Sérgio, mas não é conclusivo, até porque os engenheiros da Carlin se basearam mais na sensibilidade e experiência do brasileiro de uma temporada na F2, em 2017, com vitória na pista mais seletiva, Spa-Francorchamps, para definir os caminhos do acerto do carro, tudo novo para pilotos e técnicos.

Uma coisa é certa. Este ano é decisivo para a carreira do Sérgio. Se vencer Norris, por conta do superconceito do piloto inglês, sua cotação no mercado crescerá bastante. Ser mais eficiente que Norris é carimbar o passaporte para a F1 já em 2019, resta saber onde, diante das raras vagas que se abrem. Se Sérgio perder por pequena margem, também já será uma vitória. Poderia aspirar ser piloto de testes de algum time de F1, ao mesmo tempo em que disputaria o terceiro campeonato da F1, sem problemas, por ser bastante jovem.

Agora, se Norris se mostrar bem mais eficaz, pouco provável diante da proximidade de ambos nos testes, da forma como a Carlin reconheceu logo a importância do trabalho de Sérgio para fazer dela umas as escuderias mais rápidas em Paul Ricard e Sakhir, Sérgio teria de reconstruir a carreira, repensar os caminhos profissionais.

Sérgio tem muita confiança em si, no que pode conquistar, caso contrário não iria aceitar o desafio. Está consciente da extensão da perda se as coisas fluírem apenas para o lado de Norris. Por não entender como possível é que vai abaixar a viseira, sexta-feira, no início dos primeiros treinos livres, vendo no horizonte uma vaga na F1, no ano que vem ou no máximo em 2020, com o apoio de seu patrocinador, como afirmou, capaz de enxergar o sucesso no automobilismo como um projeto de longo prazo.