Sette Câmara, depois da pré-temporada da F2: Estamos rápidos em condição de corrida, um pouco menos na de classificação

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Sergio Sette testa carro da DAMS Sergio Sette testa carro da DAMS

A próxima vez que os carros da F2 vão para a pista, agora, será apenas no dia 29, sexta-feira, no primeiro treino livre da etapa de abertura do campeonato, no Circuito de Sakhir, no Barein. Nesta quinta-feira os 20 pilotos das 10 equipes da F2 terminaram, no Circuito da Catalunha, a segunda fase de testes da pré-temporada.

Sérgio Sette Câmara, patrocinado pela Youse e piloto da francesa DAMS, é o representante brasileiro. No fim do texto, Sérgio conta em detalhes, no seu depoimento, como foi o promissor trabalho no novo time e fala da perspectiva de disputar um grande campeonato a fim de em 2020 poder estrear na F1. Este ano, além da F2, Sérgio é o piloto de desenvolvimento da McLaren, com extenso programa de testes no simulador.

Antes do treinamento em Barcelona, a F2 havia estado por três dias também no autódromo de Jerez de la Frontera, da mesma forma na Espanha. O ensaio serviu, essencialmente, para os pilotos se entrosarem com seus times, engenheiros, métodos de trabalho, procedimentos. A pista não faz parte do calendário da F2 e seu asfalto, dos mais abrasivos, mascara a real performance dos carros nos pisos “normais”.

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A Pirelli distribuiu para cada série de testes seis jogos de pneus médios e dois dos macios por piloto. A temperatura, no Circuito da Catalunha, variou dos 10 graus, no início das sessões, de manhã, a 22 graus, ao longo do dia. O asfalto, de 12 a 30 graus. As temperaturas serão mais elevadas nas 12 etapas do calendário.

Os tempos de volta não representam um reflexo perfeito do que cada piloto e escuderia poderão fazer ao longo das 24 corridas da temporada, distribuídas nessas 12 etapas. Mas não deixam de oferecer indicativos, afinal os pilotos completaram cerca de mil quilômetros, em média, nos 4.655 metros do traçado de Barcelona, de terça-feira a quinta-feira.

Um exemplo de como o último ensaio foi fiel ao estágio de preparação da F2 está no fato de o holandês Nyck de Vries, 24 anos, da campeã em 2018, ART, ter obtido o melhor tempo dos três dias, 1min27s024. Todos no ensaio compreenderam que sua equipe, ART, tem nesse instante o carro mais rápido, em especial para as definições do grid.

Já o fato de Mick Schumacher, alemão, 19 anos, ter ficado apenas com o 11º tempo nos três dias, 1min28s022, não expressa o seu potencial no campeonato. Nas duas ocasiões que colocou pneus macios novos para registrar seu tempo, em uma delas errou, perdeu o melhor momento do pneu, e no outro enfrentou tráfego. Mas seus tempos nas simulações de corrida sugerem que o filho de Michael Schumacher, apesar de estreante na F2, poderá vir forte.

Seis pilotos favoritos

Esses foram os 13 melhores tempos no Circuito da Catalunha, onde estão os seis pilotos que, por seu histórico e de suas escuderias, devem ser os protagonistas da F2 este ano. Estão identificados com o número de voltas completados e os respectivos quilômetros.

Isso não quer dizer que outros pilotos não possam surpreender. Diferentemente da F1, na F2 todos competem com o mesmo equipamento, chassi, motor e pneus. Não há diferenças impensáveis de recursos técnicos e financeiros entre os times, como vemos na F1.

1º Nyck de Vries, holandês, 24 anos, ART, 1min27s024

231 voltas – 1.075,3 quilômetros

2º Luca Ghiotto, italiano, 23 anos, UNI Virtuosi, 1min27s263

200 voltas – 931,1 quilômetros

3º Sérgio Sette Câmara, mineiro, 20 anos, 1min27s392

212 – 986,8 quilômetros

4º Louis Deletraz, suíço, 21 anos, Carlin, 1min27s421

220 – 1.024,1 quilômetros

5º Guanyu Zhou, chinês, 19 anos, UNI Virtuosi, 1min27s454

6º Nobuharu Matsushita, japonês, 25 anos, Carlin, 1min27s585

7º Nikita Mazepin, russo, 20 anos, ART, 1min27s731

8º Jack Aitken, inglês/coreano, Campos, 1min27s817

9º Sean Gelael, indonésio, 22 anos, Prema, 1min27s959

10º Ralph Boschung, suíço, 21 anos, Trident, 1min27s960

11º Mick Schumacher, alemão, 19 anos, Prema, 1min28s022

218 – 1.014,7 quilômetros

12º Callun Llott, inglês, 20 anos, Sauber-Charouz, 1min28s022

13º Nicholas Latifi, canadense, 23 anos, DAMS, 1min28s139

255 – 1.187,0 quilômetros

Antes dos ensaios da pré-temporada já se esperava que esses seis pilotos poderiam ter mais chances de lutar pelas vitórias, pódios e pole positions. Os seis dias de treinos, três em Jerez e três em Barcelona, comprovaram as expectativas.

Sérgio Sette Câmara fala em depoimento exclusivo

Olá amigos.

É agradável a sensação de poder me expor, aqui, sem os policiamentos que temos de ter na maior parte das ocasiões. Começo dizendo, por exemplo, algo que não precisaria expor para todos: sabe aquela gripe que te derruba? Pois bem, foi assim que eu estava na segunda-feira passada, um dia antes do início dos treinos de Barcelona. Ainda bem que pude dormir em casa. Como já falei, resido na região da cidade.

O interessante é que mais da metade do paddock estava com esse vírus debilitante. No primeiro dia já estava um pouco melhor e no último, na quinta-feira, em condições aceitáveis. Não interveio em meu trabalho, pelo menos decisivamente.

Vamos ao que mais interessa, o estágio de preparação da minha equipe. Vocês sabem que em 2018 competi pela inglesa Carlin, onde só tenho amigos, e agora estou na francesa DAMS. São metodologias de trabalho distintas. Nos primeiros três dias de treinos em Jerez, obviamente que focamos nossa atenção em como ser rápidos, mas precisamos de um bom tempo para eu me adaptar aos procedimentos operacionais da DAMS.

Eles são os que mais estudam cada área relativa a performance, nada é ao acaso. É um aprendizado constante. Para esse modelo funcionar, os técnicos precisam de um número grande de dados. É isso que quero dizer com “me adaptar”, seguir os procedimentos solicitados, estar mais atento a aspectos que antes não faziam parte do meu menu, ao menos na extensão como fazemos na DAMS.

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Os ensinamentos em Jerez foram muitos, para mim e para o time. Já no primeiro dia, em Barcelona, vi que dispunha de um carro muito mais acertado, poderia exigir bem mais. A limitação no número de pneus foi um problema para todos. Você treina com pneus usados a maior parte do tempo. O nosso salto de performance foi grande de Jerez para Barcelona.

O meu engenheiro este ano, Damien Augier, tem uma filosofia de trabalho que se encaixou muito bem comigo, formamos uma dupla complementar profissionalmente. Estou bem contente.

Como já expliquei, nós competimos em condições bem diferentes ao longo do fim de semana de GP na F2, corridas longas e com pit stop e outra mais curta, sem parar nos boxes. Temos de simular tudo isso, além da importantíssima sessão de classificação.

Hoje, sem mais treinos até a primeira etapa do calendário, daqui a três fins de semana, posso afirmar que o intenso trabalho realizado com o pessoal da DAMS nos deixou em condição bem promissora nas corridas. A análise dos tempos de volta, meus e do meu companheiro, Nicholas Latifi, sugerem que estamos no nível dos melhores. Mas não posso dizer o mesmo quanto às definições do grid. Nosso carro é rápido, mas não o mais rápido. Estamos trabalhando.

Na quarta-feira, segundo dia, a DAMS colocou um dos dois jogos de pneus macios novos no meu carro, antes do fim da sessão da manhã, e fui o mais veloz. O piloto que mais impressionou a todos nos seis dias de testes, o Nyck de Vries, ficou em segundo, 115 milésimos mais lento.

Na quinta-feira, último dia, mexemos no carro e achávamos que daria para melhorar um pouco mais. O que aconteceu? Andamos para trás, meio segundo, muita coisa. Já o Vries conseguiu ser mais rápido, chegou em 1min27s024, o melhor tempo dos três dias. A minha marca ficou a 368 milésimos da dele. Entre nós dois há um piloto experiente, por ser sua quarta temporada na F2, o Luca Ghiotto, da ex-Russian Time, agora UNI-Virtuosi, com 1min27s263.

O pessoal da McLaren me disse existir, este ano, uma incrível semelhança de desempenho entre os carros de seis equipes de F1, fora as três primeiras, Ferrari, Mercedes e Red Bull, e a Williams, última. Pois saiba que na F2 deverá ser assim também.

Como escrevi, nós na DAMS temos um respeitável ritmo de corrida, mas vimos que outros também. Não dá para afirmar nada. Cada detalhe no acerto do carro, na conduta do piloto será determinante para conquistar os melhores resultados.

Vamos para o Barein onde, pelo que vimos este ano, as referências de 2018 ajudam pouco para acertar o carro. Já estamos bem mais rápidos que na definição do grid do GP da Espanha, em maio do ano passado. O Albon (o tailandês Alexander Albon, com o carro da DAMS) estabeleceu a pole position, 1min28s142. Eu já fui 750 milésimos mais rápido. E o Vries, mas de um segundo!

Lá no Circuito de Sakhir todos vão começar do zero para ajustar seus carros para a pista. Será um exercício de quem melhor acertar o chassi no breve treino livre. Podemos ter surpresas. Nesse sentido, ter um companheiro experiente como o Nicholas, com quem você se dá bem, ajuda bastante. Compartilhamos informações.

(Esta é a quarta temporada de Nicholas Latife na DAMS, já disputou 77 corridas de F2, obteve duas vitórias e 12 pódios. Sérgio tem 44 corridas, uma vitória, 10 pódios e uma pole position.)

Vou para a sede da DAMS ao lado do circuito das 24 Horas de Le Mans pelo menos duas vezes antes de viajarmos para o Barein. Nesse espaço de tempo estarei também, durante vários dias, no flat que a McLaren providenciou para mim em Woking, ao sul de Londres, perto da sede da equipe. Tenho um longo trabalho a ser feito no simulador. Estou aprendendo muito sobre a F1.

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Nos dias do primeiro GP de F1 deste ano, na Austrália, enquanto o Carlos (Carlos Sainz Júnior) e o meu ex-companheiro na Carlin, no ano passado, o Lando Norris, estiverem competindo, estarei no simulador, na Inglaterra, testando as modificações a serem feitas em seus carros, verificando se de fato os tornam mais rápidos e equilibrados.

Vamos lá, nos encontramos novamente aqui em breve, com certeza antes de eu viajar para o Barein. Abraços!