Sérgio Sette Câmara enfrenta duro desafio no GP da Espanha 2018

O final de semana não foi fácil para Sérgio Sette Câmara. O brasileiro enfrentou muitos desafios na pista. Correndo no circuito da Espanha, Sette ficou com a 7ª colocação na prova de sábado (12) após problemas elétricos. Largando em 2º lugar no grid de domingo (13), não conseguiu terminar a corrida ao enfrentar novas dificuldades com um carro que claramente não rendia o mesmo que os adversários. Ficou pelo caminho na 12ª volta com problemas mecânicos. Não foi um fim de semana pra esquecer, mas sim para aprender, como o piloto conta na reportagem exclusiva feita pelo jornalista Lívio Oricchio, que você confere abaixo.

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O desafio emocional de um piloto é tão grande quanto o técnico

Por Lívio Oricchio, de Barcelona (Espanha)

Se Sérgio Sette Câmara fosse piloto de Frank Williams, o que o lendário dono e ex-chefe de equipe faria no domingo, ao ver a frustração do piloto no seu regresso aos boxes, por abandonar a corrida em razão de um problema elétrico, seria lhe dizer, em tom paternal: “Sérgio, isso faz parte do seu aprendizado. Todos já tiveram experiência semelhante. E sem desejar aumentar seu desconforto, em algum momento da carreira vai ocorrer de novo”.

O piloto mineiro foi para o GP da Espanha 2018, no Circuito da Catalunha, distante apenas meia hora de carro de onde reside, com grande confiança em se aproximar do líder do campeonato da F2, o seu companheiro de equipe na Carlin, o inglês Lando Norris.

Sérgio conhece bem os 4.655 metros da pista, seu time tem um bom carro e ele próprio está em fase de ascensão como piloto.

Mas aconteceu tudo ao contrário. Para um adolescente de 19 anos, ver seu planejamento seguir rota oposta, ou seja, os adversários ampliaram a diferença na classificação do campeonato, sem que tenha responsabilidade alguma nos incidentes que o levaram a somar apenas 6 pontos dos muito mais possíveis, de fato exige preparo emocional.

Na sexta-feira (11), na sessão de classificação, uma pane elétrica o fez sair dos boxes faltando somente três minutos para o encerramento. Deu uma única volta lançada e sem poder aquecer os pneus obteve o 14º tempo. Na corrida, teve excelente desempenho e poderia ter sido quarto não fosse um erro no pit stop que o fez perder tempo. Acabou em sétimo.

No domingo (13), não tinha o carro na mão, no piso úmido, mas o quarto ou quinto lugar eram bem prováveis. Mais uma vez a parte elétrica do seu Dallara-Mecachrome falhou só que agora sequer pôde seguir na prova. Norris, a quem Sérgio havia derrotado no Barein, para piorar, conquistou dois pódios, dois terceiros lugares e aumentou a vantagem na liderança da competição.

Sérgio que era vice no começo está em quinto, com 46 pontos, ao passo que o talentoso piloto inglês de 18 anos, sem enfrentar nenhum problema mecânico até agora, tem 80. Haja estrutura emocional.

Michael Schumacher costumava dizer: “Na forma como o automobilismo se estruturou, nossos desafios mudaram. O que mais conta é, claro, se você tem ou não velocidade. Mas o peso de outras qualidades que temos de ter cresceu bastante. Por isso eu afirmo que hoje o desafio é 50% técnico e 50% emocional. Quem tem a velocidade que mencionei e é capaz de não transferir para a pilotagem as imensas pressões que nos cercam, e crescentes, fará grupo dos vencedores. Sem isso não há como”.

Portanto, Sérgio Sette Câmara tem aí dois excelentes exemplos para orientar sua preparação para a próxima etapa da F2, de 24 a 27 deste mês nas ruas do Principado de Mônaco, a orientação que Frank Williams costumava dar a seus pilotos e o entendimento de ninguém menos de Michael Schumacher sobre a atividade profissional de piloto.

Em conversa com a nossa reportagem, Sérgio comentou a esse respeito, em seguida a uma importante reunião com a direção da Carlin, domingo, em Barcelona: “Nos ganhamos juntos e perdemos juntos, como já falei aqui. Mas é essencial a direção da Carlin identificar o que gerou as dificuldades que me impediram de somar bem mais pontos do que tenho. Mostrei a eles que na classificação, na abertura do campeonato, em Barein, meu carro tinha alguma coisa errada. Descobrimos e fui rápido na primeira corrida, segundo colocado, da mesma forma na segunda, terceiro”.

Sérgio explicou mais o que disse ao time com quem mantém excelente relação. “Colocamos tudo de maneira que a solução depende de todos. No Azerbaijão, fui quarto na primeira corrida e segundo na segunda. Só que acabei desclassificado da segunda por não ter 800 mililitros de gasolina no tanque depois da bandeirada. Pode acontecer, ainda mais com aquele vento de frente na reta de dois quilômetros e eu líder a maior parte do tempo”.

O evento do GP da Espanha, em Barcelona no último fim de semana, mereceu um capítulo à parte. “Saí para marcar tempo no último instante, perdi 25 minutos parado nos boxes, por um problema no controle eletrônico do acelerador. Na corrida, erraram no meu pit stop. E na segunda prova, no domingo, nova pane elétrica. Eu os fiz ver que é muita coisa junto e só no meu carro. Não estou dizendo nada, por favor, em relação a favorecimentos ao meu companheiro. Não acredito nisso. O meu interesse é também o da Carlin de obter os melhores resultados possíveis“.

Agora o que Sérgio tem de fazer é digerir esse imbroglio todo e chegar zerado para competir em um cenário que é a sua especialidade, circuito de rua, o de Mônaco. Deve se lembrar, sempre, o que pensam Frank Williams e Michael Schumacher.

“Tenho consciência da necessidade de manter-me equilibrado para ter clareza de ideias na hora de tomar as decisões lá na pista, em especial em um circuito como o de Mônaco, onde os erros te cobram um preço bem alto, com aquelas grades dos dois lados do asfalto”, diz Sette.

Como disse Sérgio, os erros custam caro nas ruas do Principado, mas por outro lado a vitória lança sobre o piloto olhares mais atentos dos dirigentes da F1. O sucesso nos superdesafiadores 3.337 metros, 19 curvas, do Principado exige qualidades avançadas.