Sette Câmara: “Na McLaren, descobri que estou metido em um projeto muito grande!”

• por
sergio sette na mclaren (2) sergio sette na mclaren (2)
Sérgio Sette Câmara com o novo carro da McLaren na F1

Dentre a porção de Brasil que havia no lançamento do modelo de 2019 da McLaren, nesta quinta-feira na sede da equipe, em Woking, Inglaterra, estava o piloto de testes Sérgio Sette Câmara, mineiro, 20 anos, patrocinado pela Youse.

Depois da boa temporada na F2, no ano passado, apesar da sexta colocação, gerada por vários problemas mecânicos, principalmente, Sérgio foi contratado para ajudar a desenvolver o modelo MC34 equipado com unidade motriz Renault, no avançado simulador da McLaren.

VEJA+: Conheça o novo carro da McLaren para a F1

Como os testes coletivos são limitados a oito dias na pré-temporada e mais quatro, apenas, ao longo do campeonato, a função de piloto de testes no simulador ganhou grande dimensão na F1. Esses experimentos, cada vez mais realistas em relação ao que os carros enfrentam nas pistas, servem de base, junto dos dados obtidos nos fins de semana de GP, para os engenheiros estudarem as modificações que os tornarão mais velozes, equilibrados e resistentes.

 “Foi exatamente o que percebi durante essa semana em que estou na impressionante sede da McLaren, a importância do meu trabalho. Estou ainda mais consciente do quanto ele pode contribuir para o desenvolvimento do carro”, disse Sérgio nesse depoimento exclusivo para a Youse.

Sérgio Sette Câmara diz o que achou do novo carro da McLaren

Oi pessoal.

Estou de volta. Tive uma semana bem cheia. Não dispus de tempo para absolutamente nada. Agenda repleta desde cedo. Gosto disso. Os técnicos da McLaren estão me preparando para lhes repassar o máximo de informações possíveis durante o trabalho no simulador.

Não que seja algo completamente novo para mim, mas a equipe não tem dados de como o modelo MCL34 se comporta, não foi para a pista, ainda. Os dados inseridos nos computadores são os que os engenheiros acreditam que sejam corretos. Só a hora que o carro começar a rodar é que saberemos.

Novo carro da McLaren para a F1

Enquanto eles não chegam, eles me orientam a estar atento ao que desejam saber de mim, o que preciso fazer para corresponder. As minhas informações somadas às que os sensores instalados no próprio carro enviam para um computador instalado a bordo orientam o grupo responsável por melhorar o MC34. O que tem de ser feito para melhorar sua performance.

O que me chama a atenção é que nem sempre vou estar exigindo tudo de mim e do carro. No simulador terei de manter um ritmo elevado, claro, como tudo na F1, mas ao mesmo tempo constante, sem picos de desempenho. É essa regularidade em alto nível que interessa aos engenheiros.

Os dois pilotos titulares, o Lando (Lando Norris, inglês, 19 anos, companheiro de Sérgio na equipe Carlin de F2, em 2018, agora estreante na F1, titular na McLaren) e o Carlos (Carlos Sainz Júnior, espanhol, 24 anos, com quatro anos de experiência na F1) também estiveram no simulador, conversamos sobre o trabalho.

Nesta quinta-feira não fizemos nenhum treino no simulador, pois o dia foi dedicado ao lançamento do modelo MCL34. Amigos, vi durante a semana toda e mesmo quando aqui estive há duas semanas, como os mais de 800 integrantes da McLaren estão se dedicando para fazer o time voltar a disputar melhores colocações, como quase sempre foi em sua história.

Gostei muito do resultado dos engenheiros, fizeram um belo carro. Vocês não acham, também? Mas só saberemos o quanto ele é eficiente na Austrália, nem mesmo nos testes de Barcelona teremos uma informação completamente precisa de como deverá ser o começo do campeonato. É bem verdade que nunca vi uma escuderia não fazer nada nos testes e, de repente, nas primeiras corridas, começar vencendo.

“O problema na F1 é que não adianta você fazer tudo certo porque outros podem, da mesma forma, desenhar e construir bons carros. Você tem é de fazer melhor que o de seus adversários.”

Uma coisa que gostaria de destacar é ter ficado claro para mim ontem, na apresentação do MCL34 para o pessoal da própria equipe, pois nem todos têm contato com o carro, e hoje, no lançamento para o público, o tamanho do projeto em que estou metido. Amigos, é muito grande!

O nível do pessoal é alto, tem gente da maior capacidade no grupo.

Tem sido um aprendizado de inestimável valor para mim.

Eu já entendi, também, que quando for para a F1, e tenho confiança de que poderá ser no ano que vem, como as exigências são grandes. Passei o dia dando entrevistas, junto com os demais integrantes do time. É ótimo, lógico, mas no fim do dia você sente que está cansado. Vi que será assim. Estou preparado.

A pergunta mais frequente que me fizeram é se acredito que a McLaren voltará com o MC34 a lutar lá na frente, como sua história que começou lá em 1966 demonstra. A resposta é, como já mencionei, impossível saber hoje. Não sou engenheiro, por isso o que posso dizer é que vi um carro construído com extremo requinte em todos os seus detalhes, resultado de estudos aprofundados.

E depois do que tenho visto, do amor dessa gente ao que faz, como torcem para a McLaren voltar a lutar lá na frente, só posso me dedicar ainda mais e mais e torcer para dar tudo certo. O problema na F1 é que não adianta você fazer tudo certo porque outros podem, da mesma forma, desenhar e construir bons carros. Você tem é de fazer melhor que o de seus adversários.

O regulamento exige que cada equipe faça o seu carro, diferentemente da F2 onde corro em que chassi, motor e pneus são os mesmos para todos. Portanto, a torcida não é para o novo carro da McLaren ser rápido, mas rápido o suficiente para ser mais rápido que o dos concorrentes, onde há profissionais igualmente dos mais capacitados. Por isso a F1 é o que é, os melhores estão aqui.

Permaneço no meu flat organizado pela McLaren em Woking, perto da sua imponente sede, até sábado de manhã. Depois volto para casa, em Barcelona. Mas logo em seguida embarco para Jerez de la Frontera, na Andaluzia, também na Espanha, para os primeiros treinos da pré-temporada de F2. Como já escrevi aqui, vou correr este ano com a equipe francesa DAMS, tendo como companheiro o experiente canadense Nicolas Latifi (seu pai é sócio da McLaren).

Vamos ter somente seis dias de testes na F2 antes da etapa de abertura do campeonato, dia 30 de março, no sábado do GP de Barein, junto da F1. Meu foco este ano é lutar pelo título da F2 e aprender o máximo possível com a experiência na McLaren para, no fim da temporada, estar bem preparado para ser contratado por um time da F1 e estrear em boas condições, o que faz toda diferença. Torça por mim. Estou trabalhando muito por isso. Grande abraço!