Sette Câmara mostra estratégia e recuperação na Áustria

A etapa deste final de semana da Fórmula 2 na Áustria foi uma verdadeira aula de mudanças de estratégia. O tempo de parada no pit stop, as trocas de pneus supermacios por macios, a economia nas acelerações e nas frenagens, a interferência do safety car… Tudo decisivo para o resultado de cada um dos pilotos disputando seu espaço no pódio e uma possível vaga na Fórmula 1. Com Sérgio Sette Câmara não foi diferente. O brasileiro da Carlin cravou o sexto lugar na primeira prova e garantiu a terceira colocação na segunda. Em meio às dificuldades, o mineiro mostrou talento no mesmo final de semana que seu companheiro de equipe (e rival) perdeu a primeira posição no ranking geral do campeonato. Confira a reportagem que o jornalista Livio Oricchio preparou sobre o final de semana.

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Sérgio Sette Câmara fala sobre a etapa da Áustria da F2

Por Livio Oricchio, de Spielberg (Áustria)

O único representante brasileiro na F2, a antessala da F1, Sérgio Sette Câmara, mineiro de 20 anos, da equipe Carlin, disputou no último fim de semana a etapa da Áustria. Como sempre na F2, cada etapa tem uma corrida no sábado, com o grid definido em sessão classificatória na sexta-feira, e outra no domingo, com o grid formado a partir do resultado da primeira, mas invertido entre os oito primeiros. O oitavo colocado na primeira corrida, no sábado, larga em primeiro na corrida do domingo; o sétimo, em segundo; o sexto, em terceiro, e assim por diante.

Na sessão que definiu o grid para a primeira corrida, sexta-feira, Sérgio registrou o terceiro tempo. O inglês George Russell, 20 anos, da equipe ART, estabeleceu a pole position, com o companheiro de Sérgio na Carlin, o inglês Lando Norris, 18 anos, e até então líder do campeonato, em segundo.

A primeira corrida foi caracterizada pelo excessivo desgaste dos pneus. A Pirelli distribuiu no Circuito de Spielberg os pneus macios e supermacios. E, como sempre também, o safety car interferiu diretamente no resultado. No fim da 40ª volta, Russell, o pole, recebeu a bandeirada em primeiro, com Norris, segundo, o italiano Antonio Fuoco, da equipe Charouz, em terceiro. Sérgio teve de se contentar com a sexta colocação.

O piloto explica o que aconteceu para cair de terceiro no grid para sexto no final:

Oi pessoal. É ótimo dispor de um espaço sem as formalidades que temos de ter quando conversamos com a imprensa. Aqui me sinto à vontade. Obrigado.

Eu me senti profundamente frustrado depois da bandeirada, sábado. Larguei em terceiro, administrei meu ritmo nas voltas iniciais, fundamental para ter os pneus em condições, pois sabíamos que o degaste seria excessivo. Depois de umas cinco voltas, percebi que eu, em terceiro, tinha os pneus mais preservados que os dois na minha frente, Russell e Lando.

Mas logo em seguida o safety car entrou na pista. E foi bem na hora em que os boxes abriram para fazermos o pit stop. Antes da sexta volta não é permitido. Largamos com os supermacios e tínhamos de passar para os macios. Naquela condição, o melhor a fazer era os dois carros da equipe entrarem nos boxes. A prioridade para o pit stop é de quem está na frente, no caso dessa corrida, o Lando. E a equipe está certa com essa política. Ele entrou, eu atrás dele e, claro, tive de aguardar a minha vez.

Meus problemas começaram aí. Tanto a parada do Lando como a minha não foram boas, os outros times, que também chamaram seus dois pilotos ao mesmo tempo, realizaram a operação de troca de pneus em menos tempo. Mas o que realmente comprometeu minha corrida foi que na hora em que eles acabaram de colocar os pneus macios no meu carro outros três pilotos já estavam passando em frente aos nossos boxes.

Na minha visão, daria para eu sair na frente deles, mas o pessoal da Carlin não quis correr riscos de punição por liberar o piloto em condição perigosa e só autorizou minha saída depois dos três passarem. Sabe o que aconteceu com o pit stop lento e a gentileza de deixar todo mundo passar nos boxes? Eu caí de terceiro para décimo. E dispondo de um carro rápido para lutar lá na frente.

Lá na hora tudo o que você deseja é ultrapassar quem te deixou para trás na operação de pit stop e voltar ao grupo que luta pela vitória. Foi o que fiz. Ultrapassei o Albon (Alexander Albon, tailandês da DAMS), o Günther (Maximilian Günther, alemão da BWT Arden), o Delétraz (Louis Deletraz, suíço da Charouz).

Enquanto isso, o Russell e Lando não tinham de ficar gastando pneu, freios, como eu, para recuperar posições perdidas. Quando me livrei de todo mundo e cheguei perto deles, o que aconteceu? Obviamente aquele esforço todo comprometeu meus pneus. E o Fuoco (Antonio Fuoco, italiano da Charouz), o Merhi (Roberto Merhi, espanhol da MP Motorsport) e o Albon me passaram como balas. Recebi a bandeirada em sexto, enquanto, sem as dificuldades no pit stop, no pior cenário teria sido terceiro, portanto estaria no pódio. Entendeu melhor minha frustração?

Corrida do domingo

Na segunda corrida, domingo, esperava-se uma degradação dos pneus ainda mais acentuada que no sábado, já que a temperatura do asfalto pulou de 32 para 42 graus. A prova é mais rápida, 28 voltas em vez das 40 do sábado. E quem faz pit stop perde qualquer chance de um grande resultado. O piloto tem de saber administrar o ritmo com o mesmo jogo de pneus nos cerca de 40 minutos que dura a competição.

Pelo critério do grid invertido entre os oito primeiros, o russo Artem Markelov, da Russian Time, oitavo no sábado, largou em primeiro. O japonês Tadasuke Makino, também da Russian Time, sétimo no sábado, em segundo. E Sérgio, sexto na primeira corrida, largou em terceiro no domingo. Só lembrando, o vencedor no sábado, Russell, começou a prova do domingo em oitavo e Norris, segundo, em sétimo.

Sérgio demonstra maior satisfação ao contar como foi sua participação nessa segunda corrida:

Em primeiro lugar, o pessoal da F2 não conseguiu resolver os muitos problemas de embreagem dos novos carros, este ano, equipados com motor de mais potência, manifestados desde a primeira etapa. Vários pilotos ficaram parados no grid. Em toda corrida sempre aconteceu. É um risco enorme ficar parado no grid. Quando o último colocado passa pela posição do pole position ele já está a mais de 200 km/h. Os carros da F2 são muito rápidos.

Assim, até que resolvam o sério problema da embreagem vamos largar atrás do safety car. É outro ponto que jogou contra nós da Carlin. Eu, pessoalmente, não tive nenhum problema com a embreagem na largada até agora. Pelo contrário, era um dos meus pontos de força, conseguia administrar a alavanca atrás do volante, a da embreagem, com precisão. Isso porque o meu engenheiro, Daniele Rossi, tornava a nossa embreagem menos sensível, dando-me maior margem para trabalhá-la.

Eu quase sempre ganhei posições na largada este ano por conta do ótimo trabalho da Carlin. Agora isso acabou. Atrás do safety car, em fila indiana, não tem aquela disputa intensa de posições depois da largada. Assim, no domingo, minha esperança de pular de terceiro no grid para primeiro, por aproveitar de um dos nossos pontos fortes, a eficiência da embreagem, e eu também acredito saber largar bem, não existia mais.

Quem arriscou literalmente tudo nessa hora foi o Russell. Ele estava em oitavo e sabia que para assumir a liderança do campeonato precisava de outro grande resultado no domingo. Ele é capaz e deu sorte de não bater na primeira volta. O fato é que de oitavo ele saltou para segundo. Eu me mantive em terceiro.

Adotei a mesma tática do sábado, nas voltas iniciais. Preservei ao máximo os pneus sem que com isso fosse lento. É possível, você tem de pilotar com precisão extrema, não arrastar as rodas em nenhuma condição. O Markelov, com a experiência de anos de F2, largou em primeiro e, com o bom carro que tem, manteve-se na ponta até a bandeirada. Eu pensei em atacar o Russell, segundo, no fim, por ter os pneus em boas condições, mas as chances de nos tocarmos e abandonar a corrida seriam grandes. É muito difícil ultrapassar em Spielberg.

Assim, o terceiro lugar era uma garantia, o segundo, de maneira alguma. O Russell, com o segundo lugar, assumiria a liderança do campeonato. Como você acha que ele reagiria se eu tentasse a ultrapassagem? Iria defendê-la com toda sua energia. Por isso escrevi que um acidente entre nós era algo bem possível. Não valeria a pena. Se fosse uma disputa de campeonato, tudo bem.

O GP da Áustria foi o sexto do calendário. Marcou exatamente a metade do calendário. Nós vamos agora para a Inglaterra, correr em uma das minhas pistas favoritas, Silverstone. Rápida, desafiadora, exige técnica, habilidade, coragem, enfim um traçado completo. Eu já escrevi aqui que gosto muito de curvas de alta velocidade. A sequência Maggotts, Becketts, Chapel, em Silverstone, “esses” de alta velocidade, é demais, seletiva e prazerosa.

Saí de Spielberg, um dos cenários mais bonitos do automobilismo, em quinto no campeonato, sabendo que daria para ser o quarto. Tenho 86 pontos, diante de 89 do Albon e 94 do Markelov. Faltando seis etapas para o encerramento do campeonato, minha luta, agora, é nesse grupo. Deu para ver que é bem realista eu poder assumir o terceiro lugar, não? O Markelov está somente oito pontos na minha frente.

A novidade da F2 é o meu companheiro perder a liderança do campeonato pela primeira vez no último fim de semana. O Lando ficou sem pneus no domingo e não marcou pontos. No sábado, foi segundo. Já o Russel venceu no sábado e terminou em segundo no domingo. Com isso, soma 132 pontos diante de 122 do Lando.

Neste momento eles estão um pouco longe de mim, mas penso, sim, em pelo menos chegar bem perto deles. A Carlin é uma ótima equipe e trata eu e o Lando da mesma forma. Se eu não enfrentar dificuldades como os problemas elétricos que tive e novos azares, apesar de não gostar dessa palavra, como a de sábado, na Áustria, dá para avançar bastante na classificação. Torça por mim, sua energia vai ajudar. Grande abraço. Até Silverstone.