Ferrari e RBR causam boa impressão. Mercedes, como sempre, não está preocupada

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Carro da F1 da equipe Aston Martin Red Bull Carro da F1 da equipe Aston Martin Red Bull

Como regra, os treinos de F1, em especial o primeiro da pré-temporada, não oferecem grandes informações sobre o estágio inicial das equipes. Por vezes criam até falsas impressões. Nesta segunda-feira, no Circuito da Catalunha, no entanto, os ensinamentos contrariaram um pouco essa regra. Podemos dizer que o batismo de pista dos modelos de 2019 foi um tanto revelador.

Ok, verdade, nada conclusivo, sem dúvida, mas tivemos indicações sustentadas por números capazes de nos dar boas ideias do que está em curso nesse início de preparação, quem está partindo de uma boa base para crescer.

Deixemos o dia espetacular da Ferrari um pouco de lado, sem tirar sua importância, a ponto ter levado Toto Wolff, diretor da Mercedes, e Christian Horner, da RBR, o elogiarem. Vamos ficar por enquanto na RBR. No primeiro dia de atividades da associação RBR-Honda o resultado foi animador, como o próprio Max Vertappen, piloto da equipe, destacou, embora mantivesse os pés na terra.

“Contente, lógico, treinamos bastante, não tivemos nenhum problema, mas foi apenas o primeiro dia.”

O que primeiro chama a atenção no modelo RB15-Honda da RBR é como o coordenador do projeto, Adrian Newey, concentrou o foco na melhor resposta aerodinâmica possível, adotando tomadas de ar relativamente pequenas para a unidade motriz japonesa, justo a que mais cobrava ar nos três anos na McLaren e na temporada passada na STR.

Pois nesta segunda-feira Max completou nada menos de 128 voltas nos 4.655 metros da pista catalã, o equivalente a dois GPs, sem nenhum problema. E o russo Daniil Kvyat, com o modelo STR14-Honda, outras 77 voltas. O GP da Espanha disputado no mesmo traçado tem 66 voltas.

Temperatura sob controle

O repórter perguntou a Horner se a opção de Newey de fazer um carro bem fechado, para ganhar eficiência aerodinâmica, não o preocupava, pois se não funcionar o genial engenheiro inglês terá de repensar o projeto como um todo:

“Nós perguntamos até onde podíamos ir. O carro foi projetado a partir dos dados que nos foram passados. Não creio que teremos problemas de refrigeração.”

É importante lembrar que a temperatura ambiente não ultrapassou os 17 graus e da pista, 20, favorecendo a que os sistemas dos carros não fossem expostos a esforços excessivos. O teste verdadeiro será quando a F1 competir em Melbourne, etapa de abertura do mundial, dia 17, em geral sob as temperaturas elevadas do fim do verão no hemisfério sul. Mas o resultado desta segunda-feira não deixa de ser promissor.

Quanto à velocidade, o modelo RB15-Honda da mesma forma agradou, embora nesse aspecto pouco podemos falar. A cada 10 quilos a mais de gasolina no tanque o carro se torna três décimos de segundo mais lento em Barcelona, para se ter uma ideia de como as muitas variáveis interferem no resultado. No fim da sessão da tarde, às 17h12, hora mais favorável para registrar bons tempos, Max com pneus macios, C3, estabeleceu 1min19s426, quarto melhor do dia.

A Pirelli levou para a primeira série de ensaios da pré-temporada seus cinco pneus para pista seca, o intermediário e os destinados a maior quantidade de água no asfalto. Os para pista seca têm nova classificação, agora: C1, o mais duro; C2, médio; C3, macio, C4, ultramacio, e C5, hipermacio. Não existe mais o supermacio.

Horner pareceu entusiasmado ao falar da integração do chassi à unidade motriz, nunca perfeita com a Renault, por seu time ser cliente da montadora francesa, costumava explicar. Agora a Honda é parceira oficial, estão juntos no projeto, um dos motivos de Newey ter apoiado a associação com a Honda.

“A melhor integração que já tivemos até hoje.”

Para resumir a história, a RBR-Honda passou sem dificuldades pelo primeiro exame da temporada. Os desafios, agora, serão maiores. Daqui a pouco o grupo de engenheiros liderado Newey, Rob Marshall e Dan Fallows terá de buscar performance, ou seja, elevar todos os limites. O real potencial do projeto da RBR-Honda começará a aparecer por inteiro.

O francês Pierre Gasly, 22 anos, assume o carro da RBR nesta terça-feira.

Ferrari, muito além do esperado

Pois se a RBR-Honda deixou Max e a equipe toda estimulados para a sequência dos trabalhos, o que então o dia de Sebastian Vettel não pode ter gerado nos homens da Ferrari, liderados por Mattia Binotto?

O piloto alemão completou 169 voltas no Circuito da Catalunha, sem um único problema no modelo SF90, sendo 72 de manhã e 97 à tarde. Além de confiável para as condições do treino, o carro se mostrou veloz. Na hora do dia em que o asfalto esteve mais quente, 12h39, Vettel obteve 1min18s161, com pneus macios, C3, melhor do dia. Se levarmos em conta as melhores parciais de Vettel ao longo do dia, separássemos seu tempo ideal, essa marca seria ainda mais relevante.

Charles Leclerc conduz o modelo SF90 nesta terça-feira.

O diretor da Mercedes, Toto Wolff, conversou com a imprensa nesta segunda-feira. Falou muito das consequências do Brexit para as escuderias com sede na Inglaterra e, claro, dos treinos. Reconheceu o bom início de trabalho da Ferrari. Mas também afirmou:

“Nossa preocupação não é verificar o quão rápidos podemos ser, mas entender nosso carro e fazer com que todos os sistemas funcionem como o planejado. Depois, sim, começar a buscar velocidade.”

De fato, Valtteri Bottas, de manhã, e Lewis Hamilton, à tarde, se limitaram a treinar com os pneus médios, menos velozes, mas de maior vida útil. O finlandês completou 69 voltas, com 1min20s127, oitavo do dia, e Hamilton, 81 voltas, com 1min20s135, nono.

O repórter perguntou a Wolff se o modelo W10 ainda tem grande margem de desenvolvimento, pois ele tem tantos apêndices aerodinâmicos que parece já um carro com elevado grau de desenvolvimento. O W10 tem potencial para crescer como o modelo do ano passado, cuja evolução melhor que a da Ferrari foi decisiva para Hamilton conquistar o título?

“Nós sempre procuramos um meio termo entre trazer um carro básico para os testes e com algum desenvolvimento. Este ano não foi diferente. O W10 tem ainda imenso espaço para crescer.”

A exemplo do ano passado, a Mercedes não colocou os pneus mais macios no seu carro no começo da preparação. Em 2018, no primeiro dia da pré-temporada, Hamilton ficou apenas com o sexto tempo, a 2s148 de Daniel Ricciardo, da RBR-Renault, o mais rápido. Mas na definição do grid do GP da Espanha, na mesma pista, três meses depois, Hamilton estabeleceu a pole position e Ricciardo, o sexto tempo, 645 milésimos mais lento.

Nesta terça-feira, Hamilton começa o dia e Bottas acelera o W10 à tarde.

O segundo tempo de Carlos Sainz Júnior com o modelo MCL34-Renault da McLaren pode também ser explicado com o fato de ter deixado os boxes com os pneus ultramacios, agora C5, e às 17h41, de temperatura mais amena, ar mais denso, melhor resposta de potência: 1min18s858. Mas a estreia do MCL34 deve ser vista com otimismo, se levado em conta a debilidade de performance do carro do ano passado.

O espanhol completou importantes 119 voltas, quase dois GPs, sem problemas. Ao contrário de 2018, a impressão deixada pela nova McLaren foi a de ter uma boa base para progredir.

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Alfa ratifica expectativa

A Alfa Romeo parecia competir, ainda, nas etapas finais do campeonato de 2018, tal o bom e regular ritmo imposto por Kimi Raikkonen ao modelo C38-Ferrari. Completou 114 voltas no traçado de Barcelona. No final do ano passado, em várias pistas Charles Leclerc, piloto da Sauber, era o mais rápido depois de Mercedes, Ferrari e RBR. O monegasco está agora na Ferrari.

Como era esperado, algumas soluções do modelo C38 da Alfa Romeo foram observadas um pouco mais de perto pelos projetistas concorrentes, notadamente o aerofólio dianteiro. Ele foge ao padrão dos demais, passa a impressão de driblar o regulamento, seguir gerando os desejados vórtices, ar espiralado que ajuda na produção de pressão aerodinâmica. O carro, como um todo, já sugeria ser bem concebido. O primeiro dia de testes ajudou a colaborar essa ideia. A meta da Alfa Romeo é pular de oitava, em 2018, para quarto.

Não foi o início de atividades práticas que a Renault mais gostaria, ainda que tenha sido, como tantas vezes mencionado, o primeiro dos oito antes do embarque dos carros para a corrida de Melbourne, dia 17. A segunda série de treinos será de 26 a 1º de março, também em Barcelona.

Nico Hulkenberg pilotou o modelo RS19 de manhã, completou 65 voltas, um GP, sempre com pneus médios. Na melhor passagem fez 1min20s980, décimo no geral. Daniel Ricciardo, à tarde, deu mais 44 voltas, com 1min20s983, o 11º.

Hulkenberg disse ser muito cedo para emitir qualquer opinião. Estranhou a resistência ao movimento gerada pelos novos aerofólios, em especial o traseiro, mais largo e alto (“parece haver um para quedas aberto). Também não teve a chance de seguir nenhum adversário de perto, para sentir se o novo regulamento de fato pode tornar as ultrapassagens menos difíceis.

O chefe da equipe, Cyril Abiteboul, comentou, como Wolff, que nessa fase da preparação o time se concentra em realizar o programa de experimentos estabelecido pelos projetistas, haja vista que os dois pilotos só usaram pneus médios.

Nesta terça-feira Ricciardo acelera o RS19 de manhã e Hulkenberg, à tarde.

O segundo dia de treinos começa às 5 horas. A primeira sessão termina às 9 horas. A segunda tem início às 10 horas e se estende até as 14 horas. Horários de Brasília.