Venha comigo conhecer um pouco do Barein!

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Autódromo de Sakhir Autódromo de Sakhir
O arquiteto alemão Herman Tilke observou a cultura árabe no projeto do autódromo construído no deserto de Sakhir, ao sul da capita Manama

Vou falar um pouco do porquê estarmos aqui no Barein e depois enveredamos por algo mais pessoal, combinado?

Em setembro de 2001, três árabes vestindo roupas ocidentais, entraram discretamente no motorhome de Bernie Ecclestone, estacionado no paddock do Circuito de Monza, na Itália. Um deles era o xeque Muhamed al Khalifa, primo do príncipe Salman Isa al Khalifa. Depois de longa reunião, saíram para conhecer melhor o antigo autódromo italiano, inaugurado em 1922.

Eu me aproximei de Muhamed e, muito acessível, conversamos. Ele havia concluído o seu curso de economia nos Estados Unidos há pouco e estava de volta ao seu país. Falou de onde vinha e, confesso, além de saber que era uma nação árabe desconhecia o restante.

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Mas, responda, por favor, quem conhecia muita coisa do Barein há 15 anos? Comparado com hoje, bem menos gente. Quantos negócios foram realizados nesses quase 20 anos entre a reunião de Muhamed com Ecclestone e este ano?

Se você conhecesse esse pequeno país no início dos anos 2000, permanecesse esse tempo todo sem aparecer por aqui e, de repente, passasse a circular por Manama, diria não ser a mesma nação. A transformação foi radical, nas edificações, vias públicas, serviços, transporte, comunicação, dentre outros.

Para os intervalos entre os treinos, há na área das arquibancadas inúmeras opções de lazer.

Muhamed foi o líder da comissão que levou o projeto de inserir um país que ocupa uma área de 778 quilômetros quadrados, ou seja, metade do município de São Paulo, sem nenhuma tradição no automobilismo, no calendário da F1.

Com um objetivo essencialmente: mostrar ao mundo que existe, encontra-se no Oriente Médio, recebe muito bem estrangeiros, que já desfrutam de importante infraestrutura de toda natureza, e gozam de grandes liberdades, nada comuns em outros países de religião islâmica e vizinhos na península arábica, como a radical Arábia Saudita, o Qatar e o Kwait.

Mais: os interessados em investir no Barein contam com isenções e garantias do governo bem atraentes.

Não tem petróleo

Não foi por falta de investimento em pesquisa, mas infelizmente para o povo barenita, 50% de árabes e 50% de outros países, não descobriram petróleo ou gás nesse arquipélago de diminutas ilhas localizadas no Golfo Persa, região literalmente de deserto, plana, sem fontes de água doce e onde quase nunca chove. Há várias usinas de dessalinização. Pode acreditar que custam caro e consomem muita energia. Mas não há outra maneira de se obter água doce.

A saída econômica para o Barein foi se inspirar no vizinho Dubai, dos Emirados Árabes Unidos: se desenvolver na área de serviços, instalação de bancos, sede de empresas e comércio. E, por que não, turismo, promovido com a sua inserção no calendário de importantes eventos esportivos internacionais.

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Na conversa com Muhamed, em Monza, o grupo que compunha descobriu não haver plataforma mais apropriada para tudo isso do que investir na F1. Atenderia a todos os seus interesses: denota estar em contato com a mais alta tecnologia, mostra ao mundo que você tem lastro para bancar o evento, você compactua com a modernidade, defende o capitalismo e seu país entra na casa de bilhões de cidadãos no mundo todo, por a F1 ser de fato internacional. Por isso a comissão do Barein decidiu concordar com as severas imposições de Ecclestone para fazer parte do campeonato.

A funcional sala de imprensa do autódromo, localizada em uma das extremidades do paddock.

“Construa um autódromo”

Por exemplo, o dirigente exigiu a construção de um autódromo padrão FIA F1, concebido e construído por um “conhecido” seu, o arquiteto alemão Herman Tilke. Por conhecido entenda “sócio” nesses projetos de construir autódromos ou definir traçados em cidades, como foi o caso de China, Rússia, Azerbaijão, Abu Dhabi, Singapura, Estados Unidos.

Mais: pagar uma taxa bem mais cara que a dos países europeus a cada edição do GP. As nações da Europa colocam na conta da Formula One Management (FOM) 25 milhões de dólares (R$ 95 milhões) todo ano, a chamada promoter fee. Comenta-se que Barein pague 40 milhões de dólares (R$ 150 milhões) a cada edição do seu GP.

Estamos conversados? Deu para ter uma ideia por qual razão o Reino do Barein investiu 250 milhões de dólares, quase um bilhão de reais, para construir um autódromo espetacular, cartão de visitas do país para o mundo, e gasta algo como 200 milhões de reais para ter e organizar o evento mais importante, por larga margem, do seu calendário esportivo? No seu caso, pode-se dizer evento de maior relevância dentre todos os demais, o que mais permite à nação capitalizar em todos os segmentos.

Entre aquela reunião de Muhamed com Ecclestone, em 2001, e o primeiro GP de F1 no Oriente Médio, no Barein, claro, três anos se passaram: 4 de abril de 2004, data do GP.

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Estive em todas as 15 edições da corrida já disputadas. Gosto deste GP. O autódromo localiza-se a 30 quilômetros ao sul de Manama. Há uns seis anos inauguraram uma autoestrada que nos leva do centro da cidade à porta do Circuito de Sakhir. É bem verdade que é bastante útil, também, aos interesses da Universidade de Barein, instalada ao lado literalmente do autódromo. Eu já a visitei e me impressionei com sua infraestrutura.

Na entrada da sala de imprensa há uma tenda árabe para quem deseja descansar um pouco

Direitos humanos, bem…

Sabe o que me chama a atenção aqui no Barein? O número de estrangeiros: cerca de 25% da população tem aquele biotipo clássico dos indianos, outros 25%, os olhos puxados dos asiáticos, e uns 5% se apresentam como europeus. Sobra algo aí como 45% para os donos da casa, os árabes!

Ouço desses estrangeiros, não europeus, que ganham pouco aqui, menos dos árabes que realizam trabalhos semelhantes. Mas, ao mesmo tempo, me dizem que por mais difíceis que possam ser as condições, como compartilhar o quarto onde residem com três ou quatro outros empregados, e receber menos dos locais, ainda assim é bem melhor viver no Barein que nos seus países de origem, diante da falta de perspectiva lá existente. São eles: Bangladesh, Índia, Paquistão, Filipinas, dentre outros.

Em 2011, inspirados pela Primavera Árabe em outros partes, houve um movimento em defesa dos direitos dos cidadãos que gerou mortes aqui no Barein. O movimento teve algumas conquistas, hoje eles são mais observados, mas o caminho é longo, como em toda nação árabe, onde famílias se perpetuam no poder.

Local das refeições de pilotos, integrantes das equipes de F2, Porsche Cup e imprensa, montado no paddock.

País caro

Este ano estou sentindo tudo mais caro. Hoje, quarta-feira, por exemplo, fui ao mercado, no fim da tarde, depois de terminar o meu trabalho. Sempre me dedico a visitas dessa natureza, não importa onde estou. São reveladoras da cultura da nação e do seu momento econômico.

Compro sempre alguns biscoitos de trigo, sem açúcar, para os intervalos longos sem comida no estômago, como é comum para quem trabalha na F1, dependente de tanta coisa. Da aviação nem se fala. Olho os preços no mercado, prefiro os centrais aos supermercados. O de Manama é incrível, na cidade velha, você sente que voltou no tempo, adoro essas experiências.

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E a forma de eles fazerem negócio, então? Não é diferente da que se fazia há séculos por aqui. Os árabes são comerciantes brilhantes. O legal é que as mercadorias podem ser compradas, a maioria, a granel, como aprecio. Não precisa falar da qualidade de algumas delas, não?

Você quer exemplos? Vamos lá: lentilha, grão de bico, carne de carneiro, frutas secas. Tâmaras, que delícia!

É um GP caro para nós por causa da valorização do Dinar do Barein, chamado por eles de BD, de Bahrain Dinar. São precisos 2,4 euros para obter um BD. E são necessários 4,5 reais para termos um euro. Em outras palavras, para você comprar um BD é preciso desembolsar algo como 10 reais.

Se o seu hotel, quatro estrelas (pelo meu critério, três) por seis noites te cobra, tudo incluído, como as caras taxas locais, 400 BD, em reais o valor é de 4 mil. Não é barato. Costumo gastar ao redor de 540 euros com hotéis ou casas em que me instalo há anos, a cada GP, ou R$ 2.300, mais ou menos, quase a metade do necessário aqui.

Algumas espécies de árvores são capazes de crescer mesmo na areia bastante pobre de nutrientes do deserto.

Serviços grátis

Uma coisa bem legal do GP de Barein é a existência de uma super tenda, com ar condicionado, instalada do lado de lá do paddock, acessível por um túnel que passa por baixo da reta dos boxes. É imensa. Com exceção das equipes de F1, que têm seus próprios cozinheiros, todos os profissionais que trabalham no fim de semana, no Circuito de Sakhir, tomam café da manhã, almoçam e jantam lá.

Teremos a segunda etapa da F1, a prova de abertura da F2 e a da Porsche Cup, seção Oriente Médio. Dá para imaginar o número de pessoas que comem nesses super self service de alta qualidade? Há sempre várias opções de entrada, prato principal e sobremesa. Até 2017, a responsável por esse super catering era uma empresa alemã. Desde o ano passado, porém, é uma empresa local. Igualmente de muito bom nível.

Olha que como morador da fronteira da França com a Itália, em Nice, somada a minha origem, Itália, sou exigente, ou pelo menos aprecio, uma boa comida.

Às quinta-feiras à noite eles fazem o que seria um churrasco, no Brasil, ao ar livre, no paddock, para todos os profissionais da F1, FIA, FOM e imprensa. Já que nunca chove no deserto. Comida apenas árabe, à moda antiga, com fogo produzido por lenha. Não preciso dizer que somos muito bem servidos, não? E esse tipo de comida, feita rusticamente, é a que mais me atrai. No meu rancho, no Brasil, próximo a São Paulo, tenho um fogão e um forno a lenha para colocar em prática essa minha paixão pela cozinha rústica.

Não pagamos nada para nos alimentar no autódromo aqui em Barein. Você leu corretamente: grátis! É o único GP que nos oferece esse serviço. Nos demais, almoçamos nas equipes, mas jantamos sempre fora dos circuitos. Em alguns lugares, perdi até o interesse em ir para lá por conta dos preços que cobram aproveitando-se do GP de F1.

Onde? Montreal é o pior deles. Com a triplicação dos preços dos hotéis e aumento substancial dos valores, de modo geral, a cidade conseguiu criar em muitos profissionais envolvidos com a F1 certa repulsa. Uma pena, pois já passei até dias de férias no Canadá.

Uma imagem do paddock, um dos mais bonitos dentre os 21 circuitos do calendário.

Transporte para todos

Outra coisa boa deste GP é que, a rigor, você não precisa alugar carro, como faço em quase toda prova de F1. Isso porque há um serviço regular de ônibus para a imprensa, saindo do bairro de Juffair, onde a maioria de nós se instala. Saem de um dos hotéis controlados pela FOM, de custo mais alto que o meu, e vão direto para o autódromo.

Não é um serviço rápido, em especial para regressar, à noite, pois os horários de retorno são flexíveis. Perde-se tempo precioso, por vezes, depois das 22 horas, pela indefinição dos horários. Mas existe e, de novo, você não paga nada.

Vou a pé do meu hotel ao credenciado da FOM, 10 minutos, e de lá sigo com o ônibus disponibilizado pela organização. Se quiser ir ou voltar de táxi o preço é 15 BD, ou 36 euros, ou R$ 160.

A gasolina aqui é muito barata. Quando alugo carro, preciso de algo como 15 euros para encher um tanque de 40 litros, ou 25% do que gasto na França. O petróleo vem da vizinha Arábia Saudita, separada do Barein por uma ponte. A refinaria é aqui mesmo.

A temperatura nesta quarta-feira, em Manama, e no deserto de Sakhir, local do autódromo, esteve bem amena, não passou dos 27 graus. Deve ficar um pouco mais quente nos próximos dias, vi a previsão da TV. Já peguei aqui de quinta-feira a domingo 44 graus, sem variação durante o dia. À noite cai sempre, para algo como 22, 23 graus. Estamos no deserto, não se esqueça.

Bem, vamos lá. Eu digo sempre que não vou escrever muito e vejo que minto para mim mesmo. Um grande abraço, amigos!