Iniciativas urbanas que pegam carona no Dia Mundial Sem Carro

Algumas cidades já redesenham seus espaços públicos em prol de uma mobilidade menos centrada no uso do automóvel – e os benefícios ultrapassam os ambientais

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Imagem: Getty Images

Em calendários do mundo afora, o 22 de setembro marca o Dia Mundial Sem Carro, uma celebração levantada por ativistas franceses em 1997 que propunha repensar os impactos causados na mobilidade urbana com o automóvel na dianteira.

Com a sustentabilidade no banco do passageiro, a data faz um convite: como podemos nos aproximar ainda mais das nossas cidades?

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Torná-las caminháveis, sem dúvidas, é um grande passo. Sem trocadilhos: pavimentação, medidas de ruas e calçadas, faixas de pedestre, iluminação pública e outros afins trazem uma série de benefícios ambientais, sociais e econômicos.

Lançar um olhar sobre esses aspectos é literalmente abrir espaço pra que mais e mais pessoas se entreguem à experiência de descobrir rincões do espaço urbano, ou mesmo um cafezinho ali virando a esquina, e assumam o espírito flâneur que habita dentro de cada um.

Porque algum tempo depois de o termo em francês já caminhar com os próprios pés, urbanistas de todo o globo começaram a prestar atenção em como as cidades estavam se moldando em torno do carro. E perceberam que mais do que nunca seria importante resgatar o caminhar tal como ele era antes dessa ascensão vertiginosa dos veículos particulares lá pelos anos 1920.

Não por isso, no entanto, o carro deve ser vilanizado. Para a arquiteta e urbanista Gabriella Valente, não dá pra apenas tirar o carro da rua, porque as pessoas continuarão precisando se movimentar, e pra dinâmica urbana de um bom planejamento é fundamental que se movimentem. “Fora que, como qualquer diminuição de circulação, poderia representar até mesmo diminuição da segurança”, diz. “É preciso, então, conscientizar a população e fazer com que ela adote os meios caminháveis e cicláveis com mais frequência, e que esses meios sejam acessíveis a todos”. 

Algumas iniciativas recentes ilustram como isso pode ser feito:

  1. Entrada proibida

O centro de algumas cidades, sobretudo europeias, como a espanhola Pontevedra, ficou mais silencioso, mais seguro e com o ar mais limpo desde que os governantes locais optaram por restringir o acesso de veículos nessas áreas. Em vez de implementar condições para que o tráfego de automóveis fluísse melhor, a saída pra revitalizar essas regiões, muitas vezes degradadas por serem apenas locais de passagem, foi priorizar os espaços de permanência.

No exemplo da Espanha, os estacionamentos sobre a superfície caíram por terra e deram lugar a construções subterrâneas alocadas nos arredores, considerando que essa procura por uma vaguinha pra parar era justamente o que mais parava o trânsito. Semáforos foram substituídos por rotatórias, cresceu o número de parques e praças, e os shoppings, com permissões mais restritas de construção e funcionamento, em muitos casos deram lugar a pequenos comércios locais.

  1. Pra passar tem que pagar

Quando a circulação não é limitada de maneira expressa, uma forma mais sutil de indicar que carros talvez não sejam tão bem-vindos assim é a adoção de medidas como o pedágio urbano. Desde 2003, quem quiser entrar no Centro de Londres em um carro particular em horário de pico precisa desembolsar com antecedência £15 — o que aumentou consideravelmente o uso da magrela pelos londrinos.

Os planos estão cada vez mais próximos pra Nova York e outras cidades estadunidenses seguirem um modelo muito parecido, inventado na verdade em 1975 pelos sul coreanos. 

  1. Novos hábitos

Vale lembrar também do incentivo a outras formas de uso do espaço que antes era ocupado apenas por carros. Senão como bicicletários, extensão da calçada ou pra acomodar mobiliário urbano, as vagas de estacionamento podem dar lugar a parklets, por exemplo, pontos de descanso e recreação que importaram a ideia de São Francisco, nos EUA, e já existem em diversos lugares do mundo de forma temporária ou permanente.

Durante setembro de 2020, o projeto Ocupa Rua usou uma fatia das ruas do Centro de São Paulo pra acomodar estruturas de restaurantes que se viram na corda bamba e equilibrando pratos pra atender e servir os clientes em espaços fechados.

  1. Pego minha bike e vou embora

Isso inclusive vem sendo incentivado pela Câmara Municipal de Lisboa, que criou o “Programa de Apoio à Aquisição de Bicicleta” pra compras de bicicletas e mesmo pra pagamento de reparos e acessórios. A ideia de fazer com que mais pessoas se movimentem sobre duas rodas é, além de saúde, sair pedalando em busca de mais qualidade do ar, menos poluição sonora e um ambiente urbano mais agradável.

Enquanto a Itália promete até €500 pra habitantes de cidades com mais de 50 mil pessoas adquirirem uma magrela ou um patinete elétrico, a França propõe uma oferta: pode ganhar até 2,5 mil quem trocar o carro antigo por uma bike. 

  1. De cabo a rabo

Mas pra que a gente consiga andar sem carro de maneira funcional e segura, é justo e necessário que a rede de transporte coletivo seja não apenas eficiente, mas intermodal. Isso quer dizer que é muito mais proveitoso quando ciclovias estão juntas e misturadas com estações de trem e de metrô pra que não haja interrupções pelo trajeto e o circuito seja concluído com sucesso.  

É o que acontece em lugares como a Holanda, dona e proprietária do maior estacionamento de bicicletas do mundo. De um total de mais de 23 milhões existentes no país, mais de 12 mil delas cabem no complexo da cidade de Utrecht, que fica do ladinho do metrô. Por lá também é possível alugar uma magrela ou mesmo fazer um check up geral no veículo de duas rodas.

  1. Tarifa zero

E a probabilidade de pegar uma rota alternativa é ainda maior quando o ônibus sai na faixa, como vem estudando fazer a região metropolitana de Los Angeles para todos.

Mesmo que alguns lugares da Estônia, da França e até aqui em Maricá, no Rio de Janeiro, já tenham adotado o passe livre há algum tempo, essa seria a experiência mais ousada em se tratando de grandes cidades.

  1. Sinal verde para pedestres

Nos últimos anos, Paris vem apertando o passo em direção à sustentabilidade, com mudanças como a criação de parques onde eram ruas, novas faixas exclusivas pra transporte coletivo e proibição de circulação pra certos tipos de carros em certos dias e zonas da cidade. 

No começo de 2021, a prefeita Anne Hidalgo já deu o aval pras obras que devem tornar a reconhecida Champs-Élysées uma via muito mais compartilhada. Pra agradar os moradores e quem circula pela região, que achavam a avenida muito barulhenta, congestionada e poluída demais por causa do apelo turístico e comercial, a proposta apresentada pelo estúdio PCA-Stream restringe o tráfego de carros, aumenta o espaço para os pedestres, e cria o que a própria governante chamou de “um jardim extraordinário”. 

 

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