Dia das Mães do seu jeito: conheça três histórias de atitude

E cada um destes relatos só mostra que ser mãe realmente não tem padrão

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Foto: Getty Images

Quando o mês de maio aponta no calendário, imediatamente a gente lembra: o Dia das Mães vem chegando aí. E por mais que aquela frase clichê de que “todos os dias são delas” realmente faça sentido, é nesta data tão especial que a gente aumenta o nosso carinho por elas, não é mesmo?

E claro que nós não poderíamos deixar de homenageá-las. Por isso, conversamos com três mães que são #TipoVcc, cheias de atitude e coragem. Elas enfrentaram tudo o que foi preciso para, hoje, estarem ao lado de suas crias, comemorando o amor incondicional de ser mãe. Confira a seguir a história destas três mulheres que ousaram ser mães. 😀

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Mãe de alma e coração

Daniela Almeida, 48 anos, mãe da Maria Eduarda, 17 anos, e do Paulo Vitor, 22 anos.

“Quando eu e meu marido decidimos engravidar, descobrimos que não poderíamos ter filhos. Então, começamos a fazer alguns questionamentos: se faríamos fertilização, e no fim, chegamos à conclusão de que deveríamos partir para adoção. 

Então, fomos buscar o Fórum de São Paulo para fazer a inscrição para começar o processo de adoção. Os anos foram passando e nada de alguém entrar em contato conosco. Algum tempo depois, uma amiga que morava em Minas Gerais, sabendo da minha história, descobriu que na cidade onde ela trabalhava tinha um bebê que estava para nascer, ia para adoção e não tinha ninguém para adotar. Então, retornei ao Fórum e pedi autorização para entrar na fila de Minas Gerais. O juiz autorizou, e quase que imediatamente eu recebi o contato do Fórum mineiro avisando que a nenê estava com seis meses e que seria eu quem a adotaria. 

Daí em diante, até o nascimento da minha filha, eu passei a ter as mesmas sensações como se estivesse grávida: sono, desejos, seios inchados. O meu ginecologista falou que era uma gravidez psicológica e que eu poderia ficar tranquila. E mesmo com tudo isto, eu e meu marido decidimos não contar sobre a adoção para ninguém. Não queríamos criar expectativas. 

No dia que a Maria Eduarda nasceu, eu acordei já sabendo que ela viria ao mundo. Cheguei no trabalho, arrumei minhas coisas, não deixei nenhuma pendência. Quando foi 11 horas, minha amiga me ligou e avisou que a nenê estava chegando. Eu e meu marido fechamos as nossas malas e fomos para lá. No meio do caminho, tivemos que parar na estrada, porque eu estava passando mal. Foi neste momento que a minha amiga ligou novamente e contou que a bebê tinha acabado de nascer. Eu senti tudo! É uma ligação inexplicável.

Quando a gente estava com ela no nosso colo, com papel da guarda do juiz em mãos, aí avisamos todos da família. Foi um evento mágico. Todo mundo esperava por isso há anos, e liguei avisando. Minhas irmãs foram para lá na hora ficar comigo, ver a minha nenê. Fiquei lá por 7 dias até tomar todas as vacinas e poder viajar. Quando cheguei aqui, tive três chás de bebê. Todos estavam aguardando muito a chegada dela.  

A Duda é minha filha, nós somos muito parecidas. Foi um presente de Deus na minha vida. A paixão que ela tem pelo pai é maravilhosa. É uma ligação que temos de outra vida, não tenho dúvidas. Desde pequena ela sabe que é adotada, e percebo que esta questão está muito bem resolvida na cabeça dela. 

Quando a Duda tinha 7 anos, o meu cunhado faleceu. O filho dele, meu sobrinho, chamado Paulo Vitor tinha 11 anos, e falou para mim que não queria ir para Belém do Pará, cidade onde a mãe dele morava, e que gostaria de ficar comigo. Foi aí que liguei para mãe dele, expliquei a situação, pedi a guarda dele e ela aceitou. Fizemos todos os trâmites legais, e eu me tornei mãe de um casal. Para quem não tinha nenhum, acabei tendo dois. 

Foto: Arquivo Pessoal

Hoje, a Maria Eduarda tem 17 anos e o Paulo Vitor, 22 anos. Eles são muito irmãos, se defendem, se cuidam. É muito legal ver a relação deles. E eu tento ser uma mãe muito parceira, estou sempre conversando com meus filhos. Mas, ao mesmo tempo, a gente sabe que precisa ter regras, afinal de contas, estamos educando seres humanos. Por isso que eu acho que ser mãe adotiva, hoje em dia, é um ato de bastante coragem. Ser mãe, na verdade, já é um ato de coragem.”

Mãe em dose dupla

Roberta Santiago, 36 anos, mãe das gêmeas Olívia e Helena, de 5 anos.

“Quando eu tinha 28 anos, conheci a Juliana e a gente se casou. Com um ano de relacionamento, a gente decidiu ter um filho. A gente sempre quis ter um filho, mas nunca tínhamos pensado nisso, porque não sentíamos que era hora. E assim aconteceu. 

Quando eu tinha 30 anos e a Juliana com 36 anos, começamos a buscar métodos para engravidar. Encontramos uma clínica de fertilização, marcamos a consulta, e o médico foi super claro, positivo em relação à possibilidade de ter filho. Vendi meu carro e, um ano e três meses depois da gente ter se conhecido, estávamos iniciando o processo de fertilização na Juliana.  

Escolhemos assim, por conta da idade da Juliana, e também porque ela sempre teve o sonho de engravidar, e eu não. Sempre achei que fosse ter filho adotivo, porque é um tipo de amor que eu sempre admirei. Então, pensamos: primeiro a Juliana engravida e, depois, se gostarmos da experiência, eu engravidaria do segundo filho. A gravidez foi toda muito festejada. Foi uma surpresa para família, porque, quando você diz que é lésbica, a pessoa fala ‘ah, legal, não vai ter filho, poxa, vai virar tia para sempre’.

Foi muito maravilhoso para mim, como mulher, poder acompanhar a gravidez num outro corpo. Porque, nós, mulheres, somos muito simbióticas. A Juliana teve um dia de enjoo, eu tive enjoo dois meses, ela teve um dia de azia, eu no chá de bebê não pude comer nada, porque ia fazer exame no outro dia, por conta da azia. Então, eu absorvi muitas coisas.

E foi em maio de 2015 que Olívia e Helena vieram ao mundo. Quando elas nasceram, foi cesariana, eu tava filmando, e foi maravilhoso, um dos melhores momentos da minha vida. Eu até fiz um texto nesta época que falava que mãe sem gerar é amar tijolo a tijolo desta construção, porque é uma construção diária. 

Foto: Arquivo Pessoal

Eu nunca tive muito jeito com criança, mas sempre soube que com os meus filhos seria diferente. E foi assim que aconteceu. Eu sabia exatamente o que fazer e como lidar com as bebês, mesmo não tendo parido.

Acabei me separando da Juliana quando as crianças tinham 1 ano e 10 meses. No primeiro ano pós separação, acabei me mudando para a casa da minha mãe, que mora no mesmo prédio. Então, sempre mantive o contato. Eu encontrava com as crianças todos os dias.

Depois destes 12 meses, eu tive uma mudança no meu trabalho, e seria muito mais prático que eu voltasse a morar com a Juliana e as crianças, e foi assim que aconteceu. Durante dois anos, residimos no mesmo apartamento. Neste meio tempo, acabei me casando de novo com outra mulher, que tem 3 filhas da mesma idade que as minhas. Então, começamos a ser casadas em casas separadas. 

Aí, veio a pandemia, e acabamos morando eu, a Juliana, minhas duas filhas e a Bianca, minha atual companheira. No meio do ano passado, a Juliana começou a namorar a Élen, e acabou indo morar em outro apartamento, mas no andar de baixo, no mesmo prédio. Então, o que separa as nossas vidas é uma escada e as crianças vão e voltam tranquilamente. A Bianca se mudou do Rio para Niterói, e hoje, somos uma família de 7 pessoas na minha casa, sendo 5 crianças, e a minha ex, Juliana, morando no apartamento de baixo, ocasionalmente, com a namorada e a filha.  

A gente vive uma relação completamente harmônica. Isso me dá uma paz muito grande, pois nossas filhas sabem que estão abraçadas em qualquer ambiente que estejam. A realidade delas é completamente diferente em cada casa, as dinâmicas são diferentes e elas sempre entenderam isso. Eu espero que elas estejam crescendo muito certas de que elas estão protegidas, amadas, cercadas por esta convivência que é tão pacífica.

Ser mãe é o que eu sempre quis, embora nem soubesse que queria tanto. Eu queria muito, mas achei que fosse algo completamente diferente. Mas é muito mais legal do que eu achei que fosse ser. Eu achei que fosse ser muito mais angelical, eu achei que fosse ser muito mais divino, e não é, é bem real, é bem mundano, no sentido de que a gente está aqui, a gente nasceu nessa era e precisa lidar com estes tempos, precisa lidar com esta cidade, com esta nossa realidade. O sentimento que eu tenho por elas hoje é de amor profundo, incondicional e dedicação extrema, esperança.”

Força e desejo de ser mãe

Irlana Azevedo, 45 anos, mãe da Helena, recém-nascida.

“Sempre tive desejo de ser mãe e nunca escondi isso para ninguém. Quando estava com 24 anos, me mudei para Inglaterra e comecei a ter um relacionamento. Nos casamos e ele sempre soube dos meus planos e desejo de ser mãe. Mas éramos muito jovens, estávamos em outro país, queríamos curtir e viver aquele momento. Fomos deixando para frente. 

Quando eu fiz 30 anos, conversamos para planejarmos o futuro e ter um filho. Ele concordava. Os anos foram passando, e sempre uma desculpa: precisava de dinheiro, estabilidade. E eu sempre dizia: ‘tanta gente com menos condição do que nós educaram bem seus filhos, porque a gente não pode? Estamos em um país bom, que dá para dar uma boa educação’. E os anos foram passando… 30 anos, 32, 34, 36, e nada de acontecer. E meu relógio biológico gritando, porque a gente sabe que a mulher nasce com um número de óvulos, que amadurecem e acabam. Quanto mais velha, mais difícil.

Fui casada por 10 anos com esta pessoa. Até o final do nosso relacionamento, ele dizia que sim, que iríamos ter filhos. Voltamos para o Brasil e nos separamos. Foi aí, neste momento, que ele foi bem claro comigo e disse que não queria ter filhos. Isto foi muito frustrante para mim, pois poderíamos ter outra alternativa. 

Anos se passaram, aos 41 anos, eu conheci meu atual marido. Na época, estávamos nos conhecendo e, novamente, falei dos meus anseios e de querer ter um filho. Num belo dia, durante estas conversas, falando da frustração de nunca ter sido mãe, ele olhou para mim e disse: ‘se eu pudesse, eu te dava um filho’. Naquele momento fiquei sem entender e questionei. Foi aí que ele disse que tinha feito uma vasectomia. Meu chão abriu neste momento. Na época, fiquei na dúvida se levava o relacionamento a frente, ou não. Acabei levando, porque ele é um cara legal e existem outras maneiras de ser mãe. 

No começo de 2018, meu marido conversou comigo e disse que havia pesquisado e viu que a vasectomia podia ser revertida. Eu já sabia, mas não falei nada, porque esta é uma decisão dele, é o corpo dele, a vida dele. Já tinha 11 anos que ele fez a vasectomia, e quando o tempo é grande deste jeito, as chances da reversão dar certo gira em torno de 25%. E, aí, eu não aguentei e perguntei se ele estaria disposto a mudar, a fazer a reversão. Ele falou que sim! Insisti no questionamento, argumentei: ‘mesmo sabendo que são 25%, que tem que ir pra uma mesa de cirurgia, que tem toda a recuperação?’ E ele respondeu que sim, e completou: ‘a gente não precisa de 25%, a gente precisa de 1%, de 0,1%’. 

Em junho de 2017, ele fez a reversão da vasectomia, e no primeiro exame, constatou que tinha dado certo. Então, meu marido comprou um bodyzinho e um sapatinho vermelho pra me contar que tinha dado certo. A gente se organizou, dois anos depois, em março de 2020, a gente decidiu realmente tentar. Eu estava com 44 anos, e ele com 47 anos. 

Começamos a contar dias, verificar período fértil, toda aquela ansiedade, principalmente o meu marido. Passou abril, maio, junho… foi, então, em julho, que minha menstruação atrasou, e foi bem o mês que nós desencanamos. No começo, confesso que não acreditei. Fiz três exames de sangue, marquei um obstetra para realizar o ultrassom, e foi aí que o médico constatou que eu estava de 6 semanas, ouvi o coraçãozinho. Foi aí que realmente caiu a ficha. Engravidei naturalmente, sem tratamento. Eu tive uma gravidez supertranquila, sem sintomas, como inchaços, ou enjoos. Todo mundo falava assim: ‘ai porque é uma gravidez de risco’. Viver é um risco! E hoje estou com minha pequena Helena, que nasceu dia 13 de abril de 2021. Estou feliz da vida com esta pequena princesa. 

Foto: Arquivo Pessoal

E espero ser para ela como a minha mãe é para mim. Minha mãe é uma mulher muito forte, e sempre trabalhou, cuidou da gente, deu a melhor educação possível. Eu tenho vontade de ser como ela. E, hoje, com a Helena ao meu lado, eu consigo afirmar que não existe uma definição única do que é ser mãe. Eu pensava que seria um sentimento repentino, mas não é. É inexplicável. É um amor tão grande, é acima de qualquer coisa. Ela só tem 15 dias, mas eu amo minha filha, mais do que eu amo qualquer coisa. Eu lembro que eu já ouvi uma frase, e é muito clichê, quando as pessoas dizem ‘pelo meu filho eu mato e morro’. E eu mato e morro, porque não dá para descrever, não dá, é muito maior do que qualquer palavra, do que qualquer frase, é muito maior do que qualquer coisa.”

 

Cada uma destas histórias tem as suas particularidades, o que mostra que ser mãe não tem padrão. Mas, ao mesmo tempo, é nítido que cada uma destas mulheres têm coragem, ousadia e atitude para serem quem elas são. E com a Youse, você continua acompanhando boas histórias por aqui, ou em nossas redes sociais. 😀