F2 em Monza, o verdadeiro templo da velocidade

Sérgio Sette Câmara como é dirigir em uma das pistas onde 70% do tempo corre com o acelerador no curso máximo

• por
© 2019 Sebastiaan Rozendaal / Dutch Photo Agency

Neste fim de semana, acontece a F@ em Monza, ainda abalada com os acontecimentos em Spa, sábado. O piloto francês Anthoine Hubert perdeu a vida no acidente ocorrido na segunda volta da primeira corrida do GP da Bélgica. Mas como os próprios colegas afirmam, “a vida prossegue”, é a máxima no automobilismo. Os ensinamentos da triste experiência estão sendo já usados pela FIA para reduzir ainda mais as possibilidades de novos acidentes graves. 

Sérgio Sette Câmara, patrocinado pela Youse, fala de Spa no depoimento do fim do texto e do que espera do GP da Itália, décima etapa do Campeonato da F2. A não ser os 4 pontos da pole position em Spa, estabelecida pelo líder da classificação, o holandês Nyck de Vries, da ART, ninguém marcou pontos, por as duas corridas do programa terem sido canceladas.

Assim, Sérgio tem agora apenas as duas provas do fim de semana, da F2 em Monza, e as duas de Sochi, na Rússia, de 27 a 29, e de Abu Dhabi, de 29 de novembro a 1º de dezembro, para tentar ser vice-campeão da F2. Hoje Sérgio é o terceiro na classificação, com 141 pontos, diante de 166 do canadense Nicholas Latifi, seu companheiro na equipe DAMS, e 200 de Vries.

Os desafios da F2 em Monza

O Circuito de Monza foi construído dentro do Parco di Monza, cidade localizada a cerca de 20 quilômetros, apenas, ao norte de Milão, no distante 1922. Está perto de completar um século de existência, o mais antigo em atividade na F1. Interlagos vem a seguir, inaugurado em 1940, e depois Silverstone, 1948.

Saiba+: 30 anos entre Pedro Piquet vencer em Spa e o pai, Nelson, não se classifica

Saiba+: Em qual equipe Sérgio Sette Câmara pode correr na F1 em 2020?

A principal característica dos atuais 5.793 metros de Monza, somente 11 curvas, é os pilotos permanecerem mais de 70% do tempo de volta com o acelerador no curso máximo, ou seja, tentando tirar o que der de velocidade do carro, pois as retas são longas e há poucas curvas. As corridas têm a peculiaridade de oferecer a maior batalha pelo vácuo dentre todos os traçados do calendário.

Grosseiramente, o carro, na F2 em Moza, que está na frente encara o ar enquanto o que está imediatamente atrás enfrenta menor resistência para se deslocar, por causa de o da frente estar abrindo caminho no ar. Quem está atrás sente os giros do motor crescerem, por esse motivo. Obviamente isso lhe dá maior velocidade. 

Essa é a principal razão de assistirmos a tantas ultrapassagens nas corridas da F2 em Monza, o aproveitamento do vácuo do adversário à frente. O flap móvel, aquela parte superior do aerofólio traseiro que se move, chamado de DRS, tem grande influência na performance em Monza. Ele pode ser acionado pelo piloto quando passa no ponto de detecção a um segundo ou menos do carro à frente. 

Os pontos de detecção em Monza para a F1, F2 e F3, as três no programa do fim de semana, são os mesmos: antes da curva Parabólica, para poder usar o DRS em toda a reta dos boxes, e antes da segunda perna da Curva Lesmo, da mesma forma possibilitando seu uso na reta que se estende até a curva Ascari.

As corridas em Monza são as mais rápidas das 12 etapas do calendário, exatamente pela elevada velocidade média, na casa dos 200 km/h. Na freada da primeira chicane e na da Parabólica os pilotos estão a mais de 300 km/h. A primeira corrida, em 30 voltas, dura, sem entrada do safety car, cerca de 35 minutos, enquanto em geral se estendem a 50 minutos.

A sessão que definirá o grid da primeira corrida da F2 em Monza será disputada na sexta-feira, a partir das 11h55. A largada, no sábado, às 11h45 (30 voltas). A segunda, no domingo, às 5h50 (21 voltas), horários de Brasília.

Sérgio: “Monza favorece o piloto que está atrás do carro imediatamente à frente”

Depoimento de Sérgio Sette Câmara

Depois de trabalhar no simulador da equipe DAMS, em Le Mans, França, dentre outras atividades exercidas, visando o GP da Itália, Sérgio deu o depoimento abaixo para a Youse:

Olá, amigos.

Não posso não falar nada sobre os acontecimentos tristes e inesperados de Spa. Temos consciência dos riscos, mas a segurança do nosso esporte cresceu tanto que é preciso uma fatalidade, como a que se passou na Bélgica, para perdermos um colega. 

Mas todos nós temos certeza de que o pensamento de quem parte é de que temos de continuar fazendo o que fazemos. Se hoje a segurança oferecida é elevada é porque aprendemos muito com a experiências de acidentes. Nada é em vão. 

Monza é uma pista que gosto muito, essencialmente rápida. É também tradicional, como Spa, Silverstone, Interlagos, Suzuka. Você sente uma energia especial. 

Adotamos um acerto no carro único, extremo. Para sermos rápidos precisamos de pouca pressão aerodinâmica, a inclinação dos aerofólios é mínima. Se você aumenta o grau, perde velocidade nas retas (é intuitivo), pois você eleva a resistência para cortar o vento, digamos assim.

Mas há o outro lado dessa história. Um carro com pouca pressão aerodinâmica tem freadas instáveis, seu comportamento nas curvas é arisco. Nós a usamos porque, como falei, permanecemos muito pouco tempo em curva em Monza. 

Isso exige uma guiada um pouco diferente, mais sutil, a sua importância no controle do carro aumenta por ele estar menos pressionado contra o asfalto. 

No começo de carreira, não favorecia o meu estilo. Mas evolui muito. E hoje adoro correr em Monza. No ano passado, pela equipe Carlin, estabeleci a melhor volta da primeira corrida e fui ao pódio na segunda, terceiro colocado.

As corridas costumam ser emocionates por ser possível ultrapassar em Monza. Usamos o vácuo do carro da frente como em nenhuma outra pista, o tempo todo. 

Olha que louco: suponha que você e um colega estejam lutando pela vitória. É a última volta. Se você chegar na curva Parabólica, ultima antes de reta de chegada, atrás do carro que está na sua frente as chances de você vencer são maiores do que se estivesse liderando.

O motivo é o que falei, o uso do vácuo. Ele te dá mais velocidade do carro da frente. Assista às nossas corridas, no fim de semana, provavelmente verá muitas ultrapassagens. A não ser que alguém encontre um acerto meio mágico que lhe dê certa vantagem, sempre possível também.

Não sei o que esperar do carro da DAMS em Monza. Na teoria, deveremo ser rápidos. Mas até o fim do treino livre não dá para sequer ter uma ideia de como será. E vimos este ano que mesmo a classificação, às vezes, oferece um panorama diferente do que assistimos, depois, nas corridas. 

Em resumo, amigos, não dá para dizer nada, apenas que estou confiante, como estava em Spa. Se você se lembra, quase fiz a pole lá, fiquei em segundo no grid.

Nos encontramos aqui, de novo, nesta sexta-feira, depois da sessão de classificação, combinado? Apenas lembrando que a posição no grid em Monza é menos importante do que em outros circuitos porque se você tem um carro rápido pode ultrapassar. Abraços.