Domingo difícil para Sérgio em Silverstone. Saiu da pista e terminou apenas em 17º

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Silverstone, Inglaterra – Se no sábado Sérgio Sette Câmara, piloto patrocinado pela Youse, não escondeu ter ficado insatisfeito com o quarto lugar na primeira corrida da sétima etapa da F2, neste domingo sua expressão de profundo descontentamento era ainda mais evidente. É possível percebê-la no seu depoimento, disponibilizado no fim deste texto.

O piloto da equipe DAMS largou em quinto, pelo critério do grid invertido entre os oito primeiros no sábado, e manteve a quinta colocação nas primeiras três curvas. Na curva 4, Sérgio ficou lado a lado com o inglês Callum Ilott, da Sauber Junior, para tentar ultrapassá-lo.

Na curva seguinte, a 5, à esquerda, Sérgio vinha por fora, trajetória desfavorável, e acabou saindo da pista. Isso fez com que quase todos os pilotos o ultrapassassem, pois era o início da primeira volta. No fim dela, Sérgio ocupava o 16º lugar.

A corrida do domingo é mais curta que a do sábado, são 21 voltas em vez de 29. Avançar significativamente na classificação seria mais difícil, apesar de dispor de um carro veloz. Mas obviamente Sérgio tentou. Na quinta volta, era o 12º colocado. Para marcar pontos no domingo, é preciso estar entre os oito primeiros, ao passo que no sábado, os dez primeiros.

O 11º colocado era o norte-americano Juan Manuel Correa, da Sauber Junior. Apesar de o carro da DAMS ser mais rápido e Sérgio poder usar o DRS, o flap móvel, para tentar a ultrapassagem na reta, em todas as tentativas, e foram muitas, Correa lhe fechou a porta. No limite da legalidade, verdade, tanto que os comissários não o advertiram.

Para Sérgio ter chance de marcar pontos precisaria ultrapassar o quanto antes Correa. Seu ritmo era muito bom. Todos estavam com o jogo de pneus duros da largada. Na 16ª volta, Sérgio foi para o tudo ou nada. Para Correa parecia ser uma questão de honra não perder a 11ª posição. De novo os dois dividiram o mesmo espaço em várias ocasiões, com o piloto da Sauber Junior conseguindo se manter na frente.

Na volta seguinte, outro tudo ou nada para Sérgio. Mas com consequências. Houve um toque entre ambos. O aerofólio dianteiro do carro de Sérgio foi danificado no toque na traseira do Dallara de Correa, exigindo que fosse para os boxes substituí-lo.

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Pódio era possível

Na 19ª volta, sem Correa na frente, mas muito lá atrás na classificação, 18º, Sérgio estabeleceu a melhor volta da corrida até então, provando que se não tivesse saído da pista, na primeira volta, poderia estar lutando pelo pódio. Ou, se tivesse sido possível passar Correa, marcar bons pontos.

Lá na frente o coreano/inglês Jack Aitken, da Campos, liderava, com o suíço Louis Deletraz, da Carlin, em segundo, e o holandês Nyck de Vries, da ART, terceiro.

A corrida deste domingo teve pegas espetaculares, além do de Sérgio com Correa, como o que envolveu a mesma dupla que no sábado proporcionou fortes emoções, o canadense Nicholas Latifi, companheiro de Sérgio na DAMS, e o italiano Luca Ghiotto, da UNI-Virtuosi, vencedor no sábado. Valia o quinto lugar neste domingo.

O filho de Michael Schumacher, Mick, da Prema, pôde finalmente realizar um bom trabalho, ao largar em 11º, fazer várias ultrapassagens e chegar em sexto.

Não foi um bom fim de semana para Sérgio, em termos de campeonato. Ele chegou na Inglaterra como terceiro e saiu quarto, mas um ponto apenas atrás do terceiro. Vries, com um sexto lugar e um terceiro, viu sua vantagem para Latifi diminuir. O canadense foi segundo e quinto.

Agora, faltando cinco etapas, 10 corridas, Vries lidera com 170 pontos, enquanto Latifi, segundo, soma 139, Ghiotto, terceiro, 122, e Sérgio, quarto, 121. A vitória neste domingo ajudou Aitken a chegar mais perto. Está em quinto, com 113.

A F2 faz uma pausa agora. Não acompanhará a F1 no GP da Alemanha, em Hockenheim, do dia 26 a 28. A F2 volta para a oitava etapa do calendário, no Circuito Hungaroring, na Hungria, de 2 a 4 de agosto.

Sérgio: “Não está fácil levantar a cabeça. Vou precisar de uns dois dias”.

Logo depois de levar o Dallara-Mecachrome da equipe DAMS aos boxes, em seguida à bandeirada da segunda corrida da F2, em Silverstone, neste domingo, Sérgio deu o depoimento abaixo para a Youse.

Olá, amigos.

Imagina um fim de semana em que as coisas dão quase tudo errado. Foi o meu aqui em Silverstone. Se você não tem um bom carro na mão, acaba por não se abater tanto. Mas esse não foi o meu caso no GP da Grã-Bretanha. A DAMS, o meu engenheiro, o Damien Augier, me deram um bom carro. Apenas as coisas não se encaixaram.

No sábado, como contei para vocês depois da corrida, eu vi que tinha carro para lutar pela vitória. Larguei em terceiro. O meu companheiro, o Latifi, forçou a ultrapassagem e não criei grande resistência porque, como vimos em outras provas este ano, naquele ritmo dele os pneus iriam acabar antes do fim.

Assim me mantive em confortável quarto lugar, com reserva de performance, para atacar no fim, como fiz em duas das três últimas etapas e cheguei no pódio. Mas estamos em Silverstone e os pneus duros da Pirelli, no asfalto novo da pista, não geraram o mesmo desgaste nos pneus dos outros circuitos.

No fim, eu estava superrápido, mas os outros não perderam desempenho por conta da degradação dos pneus, não existente aqui na Inglaterra. Fui obrigado a engolir aquele quarto lugar, tendo feito a melhor volta da corrida.

Neste domingo, estava em quinto no grid, por ter sido quarto no sábado. Sempre explico aqui. O grid é invertido entre os oito primeiros no sábado. O vencedor da primeira corrida larga em oitavo. Eu, quarto no sábado, larguei em quinto.

Erro que custou caro

Tentei me livrar de pilotos com carros não tão rápidos logo depois da largada. Mas acho que fui otimista demais ao vir por fora nas curvas 4 e 5. Da maneira como os carros se organizaram na minha frente, acabei saindo pela direita, para fora do asfalto, onde obviamente você se torna mais lento. E quase todo mundo me passou.

Não acreditei quando vi que depois de apenas cinco curvas eu era o 16º colocado, tendo carro para lutar pelo pódio.

Antes da largada sabia que tinha boas chances de manter a sequência de pódios, terceiro em Mônaco, segundo na França e primeiro na Áustria. Mas, de repente, tudo o que me restava era, com um pouco de sorte, chegar digamos em oitavo, sétimo, somar alguns pontos.

Dentro do carro você não desanima, só depois. Comecei a acelerar para valer já que o sábado me ensinou que o desgaste dos pneus é pequeno aqui em Silverstone. Estava indo tudo muito bem, tanto que logo já estava em 12º, ganhei quatro posições.

Piloto indesejável

Aí na minha frente, em 11º, apareceu um piloto cujo interesse era só tumultuar, jogar pesado, por vezes sujo, e perdi um tempo (Juan Manuel Correa, da Sauber Junior). Se o passasse poderia chegar no pessoal que marca pontos. Estava realmente rápido e não tinha de me preocupar em economizar pneus.

Dei um tempinho para respirar fundo, depois de algumas fechadas de portas violentas, e parti para cima de novo, estava bem mais veloz que ele. Mas Silverstone não é, ao contrário do que muitos pensam, um lugar fácil para se ultrapassar. Imagina que mesmo dispondo do DRS eu colocava de lado e não conseguia deixá-lo para trás.

Foi assim por muitas voltas, inacreditável. Ok, ele estava disputando a posição, mas acho que quis provar algo para si, como poder segurar a todo custo um piloto mais rápido atrás, não deixá-lo passar. Até porque, a colocação que ocupava, o 11º lugar, não lhe daria nada, ponto algum. Ele se preocupou essencialmente em me manter atrás e não tentar avançar na classificação.

Choque inevitável

Em uma das minhas muitas tentativas, agora na 17ª volta, a nossa diferença de velocidade era tão grande na curva que não tive como evitar o toque na sua traseira, danificando o meu aerofólio dianteiro. Ali entendi que não haveria o que fazer para somar pontos, pois tive de ir aos boxes para substituí-lo.

Não troquei os pneus e mesmo assim fiz a melhor volta da corrida na 19ª, a duas da bandeirada. Não me daria pontos, pois precisaria estar entre os oito primeiros. Mas mostrei quão rápido estava e pelas circunstâncias descritas não marquei ponto algum. Duro de engolir, amigos.

Concordo que tive responsabilidade nisso tudo, ao arriscar demais na primeira volta e sair da pista. Vale como grande ensinamento, mas como este é uma espécie de confessionário, digo a vocês que precisarei de um tempo para digerir o meu domingo na Inglaterra. 

Há um lado bom nisso tudo, apesar de eu ter caído de terceiro para quarto no campeonato. É que o Ghiotto ficou um ponto apenas na minha frente, 122 a 121.  

Vamos daqui a três semanas para a Hungria. Eu larguei na pole lá no ano passado com o carro da Carlin. A DAMS não foi rápida naquela pista. Vamos mudar o acerto de 2018 e ver o que vai dar. 

Sabíamos que aqui em Silverstone, salvo surpresa, seríamos bem competitivos, como de fato fomos, já para Budapeste não temos ideia de como o carro irá se comportar com um ajuste bem distinto do usado no ano passado. 

O que tenho de fazer é me preparar com muito afinco na sede da DAMS, em Le Mans, na França, depois dos testes que farei esta semana para a McLaren aqui na Inglaterra. Amanhã mesmo já estarei em Woking, no simulador da equipe de F1. Apesar de o GP da Hungria ser somente daqui a três semanas, antes disso vamos nos encontrar aqui no espaço da Youse. Abraços.