Patrese venceu o GP de Mônaco de 1982. Mas não sabia.

Uma verdadeira corrida maluca: nas ruas do Principado, ao final da última volta, nenhum piloto aparecia para receber a bandeirada e vencer a prova. Isso mesmo.

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Ricardo Patrese em 1986 | Foto: philinflash

Você já deve ouvido falar ou mesmo assistiu a corridas bizarras na F1. Mas bem poucas na história de 70 anos da competição foram tão diferentes de tudo o que se conhece quanto o GP de Mônaco de 1982. Há 37 anos, nas ruas do Principado, ao final da 76ª e última volta, nenhum piloto aparecia para receber a bandeirada e vencer a prova. Isso mesmo.

Como a F1 vai se apresentar no fim de semana agora em um traçado de rua, Marina Bay, em Singapura, 15ª etapa do calendário, aquele evento em Mônaco, em 1982, me veio à mente.

Voltando ao Principado, para a felicidade do príncipe Rainier III, de pé no recinto real, em frente à linha de chegada, o italiano Riccardo Patrese, da Brabham, surgiu na reta dos boxes, sem entender o que se passava, como veremos mais para a frente. A confusão na classificação da corrida era tamanha que não estava certo, ainda, quem era o vencedor.

Em 2011, almocei no motorhome da Ferrari, em Monza, na mesma mesa em que estava Riccardo Patrese. Éramos apenas quatro pessoas. Obviamente que falamos daquele evento único, que se você me pedisse para definir em uma frase eu diria: “A corrida que o piloto venceu e não sabia que havia vencido”.

Patrese deu risada. Na 75.ª volta, uma antes da bandeirada, o italiano liderava. Rene Arnoux, da Renault, o pole position, havia batido na 14.ª volta. Alain Prost, seu companheiro, líder então até a 74.º volta, também se acidentou na saída da chicane após o túnel, na época mais veloz que hoje. Com o erro de Prost, Patrese assumiu o primeiro lugar, a apenas duas voltas do fim.

“Um pouco antes, começou uma chuva fina e a aderência ficou crítica”, disse Patrese. “Eu me aproximei da curva Loews (a de menor velocidade da F1 até hoje) quase parando, mas estava tão escorregadio que comecei a deslizar, lentamente”, contou o italiano, terceiro no ranking com mais GPs disputados, 256. O primeiro é Rubens Barrichello, com 326. Michael Schumacher vem a seguir, com 308.

“O motor (Ford V-8 Aspirado) da Brabham morreu na Loews. Mas sabia que poderia fazê-lo funcionar de novo porque o trecho é em forte descida. Naquela época os carros tinham ainda três pedais, ou seja, a embreagem comandada por nós, o que permitia ao piloto fazer o motor pegar no embalo”, explicou Patrese.

Elio de Angelis (à esquerda) terminou em quinto, mas foi indevidamente solicitado a subir ao pódio.

Reviravolta total

Nesse instante, Patrese viu Didier Pironi, da Ferrari, segundo colocado, Andrea De Cesaris, da Alfa Romeo, terceiro, e Derek Daly, com a Williams sem os dois aerofólios, em decorrência de batidas, quarto, ultrapassá-lo enquanto tinha sua Brabham BT49D-Ford atravessada na pista na Loews. Daly na realidade tinha uma volta a menos de Patrese, Pironi e De Cesaris.

“Aquela altura, com tantos pilotos me ultrapassando e a uma volta do encerramento já dei a corrida como perdida”, disse Patrese. O que ele não podia imaginar era o que aconteceria em seguida.

Vale a pena recapitular os acontecimentos, ao menos os mais recentes. Na 74.ª volta, a duas da bandeirada, Prost, então líder, tinha enorme vantagem, mas erra da saída da veloz chicane do túnel e bate forte com seu Renault RE30B Turbo. Patrese assume a ponta, com Pironi, Ferrari 126 C2 Turbo, em segundo, De Cesaris, Alfa Romeo 182 V-12, terceiro, e Derek Daly, Williams-Ford V-8, apesar de com uma volta a menos, quarto.

Na volta seguinte, 75.ª, Patrese roda na Loews e Pironi assume a liderança com De Cesaris em segundo e Daly em terceiro. A uma volta da bandeirada, os três cruzam a linha de chegada nessa ordem, um próximo do outro, para abrir a 76.ª e última volta.

Mas na entrada do túnel a Ferrari de Pironi reduz drasticamente a velocidade e dentro do túnel o francês estaciona o carro. Um pouco antes, no Cassino, De Cesaris havia feito o mesmo. Os dois enfrentaram o mesmo problema: falta de gasolina. Mais: Daly para a Williams na saída da Piscina por quebra da transmissão.

O diretor de prova já estava a postos com a bandeira quadriculada na mão desde o fim da volta 75, quando Pironi, De Cesaris e Daly passaram em primeiro, segundo e terceiro. Mas eles não apareciam. Afinal, onde estavam? Um piloto pode ter problemas na última volta, dois, menos provável e três quase impossível. Não havia um sistema de comunicação eficiente como hoje, nem mesmo telões que permitissem a todos acompanhar o desenvolvimento da corrida.

O diretor colocava a cabeça para dentro da pista, na direção da última curva, Antony Noghes, para ver se vinha alguém. E sem entender o que se passava, olhava para os que estavam ao seu lado. Estaria mesmo certo por não ter visto nenhum piloto passar por ali?

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Irritação em vez de alegria no GP de Mônaco

Todos na reta dos boxes ouviram um barulho de motor mais forte, típico dos aspirados em relação aos turbo. Era Patrese. O italiano recorda daquele momento: “Eu estava bastante irritado, não feliz. Não sabia que eu era o vencedor. Não havia rádio para conversarmos com a equipe”.

Ao percorrer o circuito da curva Lowes, onde ficou atravessado, até a linha de chegada, Patrese disse ter visto o pilotos que o ultrapassaram parados na pista. “Eu sabia que tinha reconquistado várias colocações, mas não todas. Pelas minhas contas, eu terminara em segundo. Por isso quando o nosso diretor esportivo (Herbie Blash) veio me abraçar, no cockpit, e cumprimentar pela vitória, gritei para ele parar com aquilo porque eu havia sido segundo, não primeiro.”

Foi depois de ouvir insistentemente de Bash que Pironi, De Cesaris e Daly não tinham cruzado a linha de chegada que Patrese se convenceu da história. “Obviamente fiquei muito feliz. Foi a minha primeira vitória na F1, justo em Mônaco. E estávamos todos muito sensibilizados ainda com o que havia ocorrido 15 antes, em Zolder, quando Gilles Villeneuve morreu. Aquele resultado ajudou a me refazer emocionalmente”, contou Patrese.

“Eu corria com o motor Ford aspirado e Nelson (Nelson Piquet, seu companheiro na Brabham) estava desenvolvendo o motor BMW Turbo, pensando já no futuro. A Brabham havia sido campeã com Nelson no ano anterior e eu, basicamente, pilotava o mesmo carro”, disse. Naquele GP Piquet abandonou na 49.ª volta com pane no turbo. Mas seria campeão em 1983 com o motor BMW Turbo.

O legal dessa história é que não foi apenas Patrese que venceu e não sabia. Precisaram convencer também Pironi e De Cesaris de que mesmo sem receber a bandeirada haviam sido segundo e terceiro. Eles podiam, sim, ir ao pódio, ao lado do príncipe Rainier III.

Patrese deixou a F1 no fim da temporada de 1993, como companheiro de Michael Schumacher na Benetton-Ford. De 1977 a 1993, nos seus 256 GPs, venceu 6, chegou 37 vezes no pódio e largou 8 vezes na pole position. A melhor colocação no Mundial foi em 1992, quando acabou vice do companheiro de Williams, Nigel Mansell.

Veja o vídeo das alucinantes duas voltas finais do GP de Mônaco de 1982, com as todas as mudanças na liderança: