Eras distintas. Fangio foi campeão com 46 anos. Max pode ser com 22

Apesar do aumento exponencial da performance dos carros, a idade dos pilotos diminuiu bastante!

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Luigi Fagioli corria desde 1925 quando, em 1950, estreou na F1, com 52 anos de idade, pela Alfa Romeo.

Nice, França – Atente para estes dados. No último GP de F1, disputado na Hungria dia 4, o vencedor, o inglês Lewis Hamilton, da Mercedes, tinha 34 anos. O segundo colocado, o holandês Max Verstappen, Red Bull-Honda, 21. O terceiro, o alemão Sebastian Vettel, Ferrari, 32. O quarto, o monegasco Charles Leclerc, Ferrari, 21. O quinto, o espanhol Carlos Sainz Júnior, McLaren-Renault, 24. O sexto, o francês Pierre Gasly, Red Bull, 23.

A idade média dos seis primeiros classificados na corrida de Budapeste foi de 25 anos e oito meses.

Já que este espaço se chama F1 Vintage, voltemos no tempo, até a primeira temporada da história da competição, em 1950. Estamos no dia 4 de junho, no Circuito Bremgarten, próximo a Berna, na Suíça, quarta etapa do campeonato. Façamos o mesmo exercício, verificar a idade dos seis primeiros colocados.

Em 1957 Fangio conquistou seu quinto titulo mundial, com Maserati, aos 46 anos e 42 dias, o mais velho da história.

O vencedor, o italiano Giuseppe Farina, da Alfa Romeo, 44 anos. O segundo classificado, seu companheiro, outro italiano, Luigi Fagioli, 52. O terceiro, o francês Louis Rosier, com Talbot, 45. O quarto, o tailandês Prince Bira, Maserati, 36. O quinto, o italiano Felice Bonato, Maserati, 47. O sexto, o suíço Emmanuel de Graffenried, Marerati, 36.

A idade média dos pilotos nessa prova na Suíça, 59 anos antes do evento na Hungria há pouco mais de uma semana, foi de 43 anos e 3 meses.

Repare que entre um GP e outro a idade média dos pilotos diminui 17 anos e 5 meses. Se levarmos em conta o campeonato todo, a idade média dos 20 pilotos que disputam este ano a 70ª temporada da história da F1 é de 26 anos e 8 meses.

Em 1950, a idade média dos pilotos foi de 46 anos e 9 meses. Os pilotos, na média, eram 20 anos mais velhos dos que dia 1º de setembro, agora, vão alinhar seus carros no Circuito Spa-Francorchamps, na Bélgica, 13ª etapa do calendário, o primeiro depois das férias da F1.

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Tomemos alguns exemplos para expor as discrepâncias de idade entre uma e outra época. O mais jovem no grid no GP da Suíça de 1950, o italiano Alberto Ascari, da Ferrari, tinha 32 anos. Sua precocidade impressionava o público. O mais velho, o suíço Philippe Etancelin, com Talbot, 54 anos.

Voltemos para o futuro, o GP da Hungria. Lembra da idade dos pilotos? Max e Leclerc, 21 anos, Gasly, 23, Sainz Júnior, 24. E os “velhos” Vettel, 32, e Hamilton, 34.

Ao longo dos últimos anos ouvi pilotos, ex-pilotos e dirigentes sobre a impressionante mudança na idade em que esses profissionais começam a competir, apesar do aumento exponencial da performance dos carros.

Antes deles, resgato o que o tenor Placido Domingo me disse (e ri muito) sobre a idade cada vez mais baixa dos pilotos de F1. Foi no GP do Japão de 2014, no paddock do Circuito de Suzuka. Max Verstappen, com 17 anos recém-completados, participou do primeiro treino livre, na sexta-feira de manhã, com o carro da equipe que disputaria a temporada de F1 de 2015, Toro Rosso: “Onde estamos, meu Deus! A próxima geração de pilotos virá para as corridas de chupeta”.

Max Verstappen estreou na F1 com 17 anos e venceu seu primeiro GP com 18 anos, recordista de precocidade.

Rubens Barrichello é o piloto de maior longevidade na F1. Competiu de 1993 a 2011, disputou impressionantes 325 GPs e foi duas vezes vice-campeão do mundo, com Ferrari, em 2002 e 2004. “O que primeiro eu diria a esse respeito é que esses pilotos que corriam até os 60 anos, ou perto disso, hoje não fariam.”

O atual piloto da Stock Car, de 47 anos, explica: “Um dos problemas que enfrentei, nos meus últimos anos de F1, foi a dificuldade de interagir com os muitos e crescentes recursos do carro. Mexer em tantos botões existentes no volante, tirar os olhos da pista às vezes a 300 km/h, pensar ali na hora o que fazer em frações de segundo, ao mesmo tempo em que você pilota, não é fácil.”

Mais de Barrichello: “Percebi que a idade não te deixa mais lento, ao menos comigo, mas intervém na sua lucidez para, como falei, seguir todos os procedimentos interativos com precisão”.

O escocês Jackie Stewart, três vezes campeão do mundo, 1969, 1971 e 1973, hoje com 80 anos, diz algo semelhante: “O desafio de pilotar agora não é mais fácil como dizem. Ao contrário, é mais difícil por conta de tudo o que o piloto precisa fazer no cockpit para estar rápido. No meu tempo de piloto (1965 a 1973), nossa obrigação essencialmente era pilotar, o volante servia apenas para virar as rodas, hoje há neles o controle de um número enorme de funções. Mudou o exame. Acredito que a idade é um fator limitante nessa F1 interativa”.

Para o piloto que se caracterizou também por levantar a bandeira da segurança, as exigências físicas atualmente são muito maiores que no passado. “Se você observar a velocidade nas retas, claro que encontrará diferenças, mas onde os carros mais se diferenciam é na velocidade nas curvas, hoje muito mais elevada. O piloto fica submetido a acelerações laterais enormes, assim como longitudinais nas freadas e acelerações violentas.”

Mais de Stewart: “É por esse motivo que todo piloto da F1 tem no mínimo um preparador físico que trabalha exclusivamente para si. Conta ainda com nutricionistas, psicólogos para esporte de alta performance, dentre outros profissionais para ajudá-lo a dar sempre o máximo. Os pilotos hoje são superatletas, capazes de disputar uma maratona. Naquela época os pilotos não sabiam o que era nada disso. Repare nas fotos, eram gordos na sua maioria, até porque, também, tinham bem mais idade”.

A evolução dos freios

Um dos componentes que mais evoluiu no automobilismo foi o sistema de freios. Das lonas em tambores passaram a disco de aço, depois autoventilados e no fim dos anos 80 começaram a ser confeccionados com fibra de carbono, discos e pastilhas.

O austríaco Gerhard Berger, de 60 anos, competiu na F1 de 1984 a 1994 (210 GPs). Vivenciou de perto a evolução notável da eficiência do sistema de freios. Ele diz: “O mais difícil é você convencer o cérebro de que pode continuar acelerando, mesmo tão perto da curva. É complexo para o cérebro acreditar que quando você frear o carro irá reduzir a velocidade a ponto de você poder contornar a curva”.

Para o ex-companheiro de Ayrton Senna na McLaren, de 1990 a 1992, essa adaptação é menos dramática quando o piloto, bem jovem, é educado com a supereficiência dos sistemas de freios em carbono. “No meu caso, que venho de outra escola, não foi fácil. O seu cérebro interpreta como risco iminente e ordena o deslocamento do pé para o pedal do freio, essa reação se torna um ato reflexo, você nem se toca e já está freando.”

Em curvas com o S do Senna, em Interlagos, a aproximação se faz em oitava marcha a cerca de 320 km/h. O pilotos mantêm o acelerador no curso máximo até a apenas 70 metros do início da curva nas voltas lançadas de classificação. Então freiam forte para no espaço de algo como 60 metros reduzir a velocidade para 90 km/h.

A exemplo de Barrichello e Stewart, Berger pensa que um piloto dos anos 50, 60 não conseguiria pilotar um modelo atual de F1. “Eram corajosos, muito mesmo, pois morriam vários por ano e eles continuavam correndo. Mas não tinham o preparo necessário para ser um piloto de sucesso hoje. E com a idade que tinham, seria ainda menos possível.”

Ayrton Senna e seu amigo Gerhard Berger, companheiros na McLaren, de 1990 a 1992. Para Berger, é difícil para um piloto com alguma idade se adaptar à supereficiência dos freios na F1.

Ao comentar sobre sua experiência na F Indy, em 2017, o espanhol Fernando Alonso, 38 anos, disse ter entendido muita coisa. A idade média dos pilotos na categoria norte-americana é mais elevada que na F1. E até há alguns anos, quando os dinossauros da F Indy ainda corriam, essa idade era bem mais alta.

“Quando eles (pilotos da antiga da F Indy) competiam, a maior parte dos circuitos tinha pista oval. As exigências físicas são bem menores nesses traçados. Você basicamente vira o volante para o lado esquerdo nas quatro ou três curvas existentes. É tudo bem diferente do que fiz nos meus 17 anos de F1 (312 GPs, duas vezes campeão do mundo, 2005 e 2006, com Renault).

Niki Lauda costuma dizer uma frase que define bem as tentativas de colocar eras distintas do automobilismo lado a lado: “Nós investimos milhões para nossa equipe (Mercedes) ganhar alguns décimos de segundo no pit stop, estudar o que fazer para sermos frações do tempo mais rápidos. Nos anos 50, o piloto parava nos boxes, saía do carro, sem cinto de segurança, capacete, ao menos de verdade, ia no banheiro e quando regressava os mecânicos estavam ainda reabastecendo o carro e trocando os pneus. Ele ainda tinha alguns segundos para discutir algo com a equipe, pois o rádio na F1 só chegou no fim dos anos 80. Você acha mesmo que dá para comparar uma e outra época? Impossível”.

Recordes e idades da F1

Alguns dados estatísticos para ilustrar o nosso tema:

  • Piloto mais jovem a estrear na F1: Max Verstappen, com 17 anos e 166 dias, no GP da Austrália de 2015, com Toro Rosso.
  • Piloto mais jovem a estabelecer a pole position: Sebastian Vettel, com 21 anos e 73 dias, no GP da Itália de 2008, com Toro Rosso.
  • Piloto mais jovem a vencer um GP: Max Verstappen, com 18 anos e 228 dias, em Barcelona, Espanha, 2016, com Red Bull.
  • Piloto mais velho a vencer um GP: Luigi Fagioli, com 53 anos e 22 dias, o GP da França de 1951, com Alfa Romeo.
  • Piloto mais jovem a conquistar o título mundial na F1: Sebastian Vettel, com 23 anos e 134 dias, em 2010, com Red Bull.
  • Piloto mais velho a ser campeão do mundo na F1: Juan Manuel Fangio, com 46 anos e 42 dias, em 1957, com Maserati.

Esse discurso de a idade média dos pilotos de F1 hoje ser bastante baixa é longo e poderíamos ir bem mais além. Quem sabe em um outro capítulo da seção F1 Vintage. Abraços.