O conceito de Sérgio na F2 é elevado, mas a F1 exige mais

Terceiro na classificação do campeonato, Sette ainda precisa competir em mais quatro etapas

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Nice, França – Sérgio Sette Câmara, mineiro de Belo Horizonte, 21 anos, patrocinado pela Youse, disputa sua terceira temporada na F2. Apaixonado pelo jogo de controlar na pista um veículo a 300 km/h, seu sonho é tornar-se piloto profissional de F1, onde o desafio é máximo.

Neste momento ele e os demais 19 pilotos do grid da F2, todos com o mesmo objetivo, aproveitam a pausa de três semanas no calendário da competição para descansar, conviver com a família e se preparar sem pressa, física e tecnicamente.

Até agora oito etapas da F2 foram disputadas, 16 corridas, por serem duas por GP. Restam quatro. A nona e próxima será o GP da Bélgica, no Circuito Spa-Francorchamos, de 30 a 1º de setembro. Depois teremos, ainda, as corridas de Monza, Itália, de 6 a 8 de setembro; Sochi, Rússia, de 27 a 29, e Yas Marina, em Abu Dhabi, de 29 de novembro a 1º de dezembro.

Como Sérgio está se saindo nesse exame, último antes de encarar o mencionado “desafio máximo”, a F1?

Em números, o desempenho de Sérgio pode ser considerado bom. Por quê? Ele é o terceiro na classificação, com 141 pontos, diante de 166 do seu companheiro na equipe francesa DAMS, o canadense Nicholas Latifi, 24 anos, segundo colocado, no quarto ano na categoria, e 196 do líder da F2, o holandês Nyck de Vries, 24 anos, da também francesa ART, com 196 pontos, no terceiro ano.

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Pole e vitória

Nas 16 definições do grid que disputou, Sérgio teve altos e baixos. Obteve a pole position no Circuito Paul Ricard, na França, quinta etapa do calendário, o terceiro tempo em Silverstone, Inglaterra, sétima etapa, e o quarto, no traçado de rua de Baku, no Azerbaijão, segunda do ano.

Em algumas pistas, porém – normal das categorias de formação, como a F2 -, a impressão de pessoas do meio foi a de que Sérgio poderia ter feito um pouco mais, como o terceiro tempo no seu grupo na sessão de classificação em Mônaco, atrás de dois estreantes na F2, o inglês Callum Ilott, da Sauber Junior, e Mick Schumacher, da Prema, ambos estreantes na F2.

Nas corridas, o ponto mais alto do seu trabalho foi a vitória na prova do domingo no GP da Áustria, em Spielberg, sexto do calendário, depois de largar em quarto. Outros resultados importantes para a sequência da sua carreira foram os dois pódios na primeira prova do ano, no Barein, terceiro no sábado e segundo no domingo.

Mais: o terceiro lugar na primeira corrida de Mônaco, o segundo na primeira da França e o terceiro domingo agora, no Circuito Hungaroring, em Budapeste, na Hungria.

Constar no seu currículo que fez a melhor volta na segunda corrida em Baku, na primeira em Spielberg e de Silverstone também ajuda a montar uma imagem positiva de Sérgio. Ainda mais importante: promissora.

Piloto do simulador da McLaren

Também circula no paddock da F1 a informação de que Sérgio desenvolve um trabalho profissional no simulador da equipe McLaren de F1. É um piloto sensível e competente para repassar aos engenheiros as reações que sente a cada mudança de acerto no carro.

São essas performances marcantes, que colocam Sérgio dentre os mais eficientes da F2, que lhe dão lastro, fazem com que ele e seu empresário, o espanhol Luis Garcia Abad, o mesmo de Fernando Alonso, sejam atentidos pelos chefes de equipe da F1 “para uma conversa”.

Sem demonstrar essa capacidade de estar à frente de todos, ser o primeiro, ou pelo menos estar dentre os melhores, os profissionais com mais força para definir os pilotos para seus times de F1 sequer dedicam meia hora do seu tempo “para uma conversa”.

Nessa fase do processo seletivo, portanto, Sérgio já foi aprovado.

Raramente erra

Seu conceito no paddock da F2 e mesmo da F1 é elevado, mas sem ser classificado como genial. Estes são raros. Os profissionais o veem como um piloto rápido, primeiro parâmetro de julgamento, e tão importante quanto, constante, traz o carro de volta para os boxes, com bons pontos no bolso do macacão.

Sérgio envolveu-se em um acidente, este ano, na corrida de sábado, em Baku, quando foi atingido, por trás, pelo carro do italiano Luca Ghiotto, da UNI-Virtuosi, lançando-o no muro, em pleno regime do safety car. Ghiotto foi punido.

Já o 17º lugar na segunda corrida de Silverstone teve a participação de Sérgio. Largou em quinto, por ter sido terceiro no sábado, e ainda na primeira volta, ao tentar ultrapassar Ilott, saiu da pista na curva 4 e voltou no fim do pelotão. Foi seu único erro de pilotagem na temporada até agora.

“Eu havia sido prudente demais na corrida do sábado. Economizei os pneus até metade da prova para, com eles em bom estado no fim, tentar ultrapassar os três pilotos na minha frente e vencer. Acontece que a degradação dos pneus em Silverstone foi mínima. Não apenas eu, os meus adversários também tinham os pneus em boa condição no fim, assim terminei em quarto. No domingo, fiz o contrário. Em vez de ser excessivamente prudente, fui agressivo demais. E errei. Se ultrapassasse o Ilott na primeira volta eu teria boa chance de lutar até pela vitória. Saí da pista e na volta me encontrei atrás de um piloto que jogou sujo o tempo todo (o americano Juan Manuel Correa, da Sauber Junior).”

Sérgio precisa vencer no sábado

O piloto mineiro da equipe DAMS precisa nessas quatro etapas que restam preferencialmente vencer uma corrida do sábado, a mais importante do fim de semana, algo que ainda não tem no currículo. Venceu na pista mais seletiva do calendário, Spa, em 2017, com o carro da modesta equipe MP Motorsport – resultado de grande impacto – e este ano em Spielberg, mas sempre no domingo, competição mais curta, de grid invertido entre o oito primeiros no sábado e com menor distribuição de pontos.

Os dois próximos traçados do calendário, rápidos, desafiadores, Spa e Monza, estão dentre os favoritos de Sérgio, como ele diz. Representam, portanto, excelentes oportunidades para grandes desempenhos, reforçar ainda mais a sua imagem de piloto de potencial para crescer e candidatar-se a uma das vagas de titular da F1 em 2020.

Terá de, obviamente, terminar pelo menos entre os quatro primeiros no campeonato da F2 para somar no total os 40 pontos necessários para receber a superlicença, documento exigido pela FIA para disputar o mundial de F1. É sempre bom lembrar, também, a imposição de levar altas somas dos patrocinadores.

Os carros de F2 voltam à pista, agora, dia 30, para os primeiros treinos livres do GP da Bélgica.