Sérgio Sette Câmara analisa a temporada de F1

“Para vencer no automobilismo é preciso dispor de um carro veloz e confiável” diz Sérgio.

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Imagem: Joe Portlock

A Mercedes garantiu o título mundial de construtores, o sexto seguido, no GP do Japão, dia 13, e neste domingo, na corrida do México, pode assegurar o de pilotos também, com Lewis Hamilton. Desde a introdução da tecnologia híbrida na F1, em 2014, a Mercedes conquistou tudo possível, seis títulos de pilotos e seis de construtores.

Sérgio Sette Câmara, piloto da equipe DAMS de F2, patrocinado pela Youse, responde nesta reportagem perguntas sobre o campeonato em curso da F1, onde pretende estrear em 2021.

Para entender melhor o cenário da disputa que Sérgio irá analisar, na primeira parte da temporada a hegemonia da Mercedes foi total. Venceu as oito primeiras etapas, sendo que em seis delas com uma dobradinha. Ora Hamilton recebia a bandeirada em primeiro, com seu companheiro, Valtteri Bottas, em segundo, ora invertiam as posições.

Quando a F1 regressou das férias, em agosto, com o GP da Bélgica, o quadro mudou. A Ferrari que pouco havia feito se impôs na competição. Mas a Mercedes havia já estabelecido importante vantagem na classificação, a ponto de em Suzuka, 17ª etapa de um total de 21, definir o mundial de construtores e ver Hamilton, agora, com a mão na taça.

Se no Circuito Hermanos Rodriguez, domingo, Hamilton somar 14 pontos a mais que Bottas, celebra seu sexto título. Hamilton soma 338 pontos, tem nove vitórias no ano, enquanto Bottas, 274, com três vitórias. Restarão depois as provas de Austin, nos Estados Unidos, dia 3, Brasil, 17, e Abu Dhabi, 1º de dezembro.

Lewis Hamilton, 82 vitórias, 148 pódios e 87 poles, o melhor piloto este ano e um dos maiores da história, na visão de Sérgio Sette Câmara | Imagem: GP

Olhar atento

Os pilotos de F2 seguem com interesse, obviamente, o campeonato da F1. Sérgio sempre que pôde assistiu às 17 corridas disputadas este ano. As responsabilidades com a equipe de McLaren de F1, para quem trabalha no seu simulador, por vezes exige que viaje no domingo de manhã, depois da segunda corrida de F2, para Woking, sede do time inglês, e não consegue acompanhar as corridas.

Sérgio se prepara para a etapa final do campeonato da F2, no mesmo fim de semana da F1, no Circuito Yas Marina, em Abu Dhabi. O holandês Nyck de Vries, da ART, com 266 pontos, já definiu o título, em Sochi, na Rússia, dia 29. A luta pelo vice reúne o canadense Nicholas Latifi, companheiro de Sérgio na DAMS, com 194 pontos, e o italiano Luca Ghiotto, da UNI-Virtuosi, 184.

Sérgio tem 165 pontos, quarto colocado. Matematicamente pode ainda ser vice, mas se terminar na posição em que está garantirá a superlicença, documento que o autoriza a disputar a F1, ou ao menos concorrer a uma vaga na categoria. A luta pelo quarto lugar é com o inglês/coreano Jack Aitken, da Campos, com 159 pontos.

Mercedes é a melhor em tudo, segundo o piloto

Equipe fez grande festa, em Suzuka, para celebrar o sexto título seguido de construtores. | Foto: Arquivo Mercedes

Livio Oricchio (LO) – Sérgio, qual piloto mais te impressionou este ano na F1?

Sérgio Sette Câmara (SSC) – O Hamilton me impressiona e não é de hoje. É um piloto excepcional, está sempre produzindo no nível máximo. Não é fácil manter-se nesse nível tanto tempo. Este ano o Bottas começou muito forte, venceu na Austrália, no Azerbaijão, liderou o mundial. Mas aí o Hamilton buscou performance dentro de si e, claro, encontrou. Neste fim de semana, no México, pode ser campeão pela sexta vez, não tenho dúvida de que baterá o recorde de sete títulos do Schumacher. Hamilton tem números que já o colocam dentre os maiores de todos os tempos, entrou para a história.

LO – Qual a melhor equipe da temporada?

SSC – Como sempre, a Mercedes começou o ano já em um estágio avançado de desenvolvimento, mais do que todos. E conseguiu abrir uma vantagem grande na classificação. Foi essa vantagem que a fez ser campeã tão cedo, no Japão, e vencerá entre os pilotos com Hamilton. Além de terem um carro rápido, quem se lembra da última vez que Hamilton ou Bottas abandonaram uma corrida com problemas mecânicos? Para vencer no automobilismo é preciso dispor de um carro veloz e confiável. A Mercedes tem não apenas isso, mas o restante necessário para o sucesso, como um grupo técnico incrivelmente competente. Ah, dinheiro não é problema lá também.

LO – Nessa F1 hiperinterativa, a importância da equipe nas vitórias cresceu exponencialmente. O piloto está o tempo todo em contato pelo rádio com a equipe. Qual a que melhor tem respondido a esse exame este ano?

SSC – Se você levar em conta que a Mercedes venceu 12 das 17 etapas realizadas, os números não deixam dúvida de que foram os melhores. Vi corrida em que eles chamaram Hamilton e Bottas ao mesmo tempo para os boxes para a estratégia funcionar melhor. Além de terem um carro bem competitivo a Mercedes tem gente muito capaz nos boxes também, em especial Toto Wolff (diretor). Ele consegue manter o grupo estimulado ao máximo mesmo depois de vencer tudo há anos.

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LO – A Ferrari regressou das férias outra equipe. Estabeleceu a pole position nas últimas cinco etapas e venceu três corridas. Como vê essa súbita e inesperada melhora da Ferrari?

SSC – Acredito que a Mercedes passou a concentrar mais seus interesses no projeto do ano que vem. Eles devem ter visto que de qualquer forma seriam campeões e não precisariam mais investir tanto no desenvolvimento do carro. E esse não foi o caso da Ferrari. Eu diria exatamente o oposto. Estavam atrás, precisavam melhorar o carro, até porque o regulamento de 2020 será o mesmo deste ano. O que você descobre agora pode colocar no seu novo projeto. Voltando a Mercedes, eles estão sempre com o relógio uma hora na frente. Provavelmente o projeto de 2020 está tendo bem mais horas de estudos, pesquisa que o dos concorrentes. Quem pode sequer imaginar que deixarão de ser competitivos?

LO – Agora uma questão envolvendo sua classe, a de pilotos. Como viu a decisão de Christian Horner e Helmut Marko de trocarem Pierre Gasly na Red Bull por Alexander Albon, da Toro Rosso? Você competiu com eles durante anos?

SSC – Foi uma pena para o Gasly, não se adaptou a Red Bull. Ele sempre foi rápido, venceu por onde passou, todos sabem que é um piloto rápido, tirou mais da Toro Rosso do que qualquer outro piloto, antes de chegar na Red Bull e agora de novo. Acho importante dizer, também, que o trabalho de Gasly foi confrontado com o de Max Verstappen quando o holandês estava ganhando corrida e fazendo pole, este ano. E o Albon chegou na Red Bull quando o Max já não produzia no mesmo nível, bateu em algumas corridas, quebrou o motor, sua confiança não é mais a mesma do início do campeonato. Isso ajuda o trabalho do Albon, que é também bom piloto, a aparecer mais. Se olharmos os pontos somados pelo Albon, ok, será mais que o Gasly, mas eles entraram em momentos diferentes na Red Bull.

LO – Quais são seus planos para o futuro?

SSC – Espero terminar em terceiro o campeonato da F2, resultado não ruim diante dos problemas que enfrentei este ano. E espero também definir logo a equipe por quem vou correr na F2 em 2020. Tenho me preparado bastante fisica e tecnicamente para a corrida de Abu Dhabi para, em último caso, terminar em quarto e obter a superlicença. Não dará para ser titular na F1 em 2020, mas com a superlicença posso me tornar um terceiro piloto, o que ajuda você se formar como piloto, reduzindo as surpresas quando for titular, o que no meu caso tem de ser em 2021.