Sérgio Sette Câmara vence em Abu Dhabi e garante pontos para F1

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Não perca as contas, hein? Vitória espetacular neste sábado na primeira corrida da etapa de Abu Dhabi da F2, última do calendário. Pole position estabelecida na sexta-feira. Melhor tempo na sessão de treinos livres também na sexta-feira. Em outras palavras, o piloto Sérgio Sette Câmara, patrocinado pela Youse, está invicto no Circuito Yas Marina. Foi primeiro em todas as competições disputadas até agora do fim de semana. Falta só a segunda corrida do programa, neste domingo.

Obviamente tamanha eficiência gerou resultados práticos de inestimável lavor. Para começar, os 25 pontos da vitória neste sábado somados aos 4 pontos da pole pole position garantiram a esse piloto mineiro de 21 anos a tão sonhada superlicença, documento que o autoriza a disputar a F1.

Antes de a F2 chegar nos Emirados Árabes Unidos, Sérgio era quarto na classificação, com somente 6 pontos a mais que o inglês Jack Aitken, da Campos, quinto, 165 a 159. Para garantir a superlicença Sérgio precisava terminar o ano em quarto e Aitken era uma ameaça real. Os quatro pontos da pole elevaram essa diferença para 10 e os 25 da vitória, diante de nenhum de Aitken, somente 11º neste sábado, garantiram o acesso a F1. Não há mais como Aitken alcançá-lo.

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Há chances de Sérgio terminar o campeonato como vice. Ele esta apenas 6 pontos atrás do segundo colocado, o seu companheiro na equipe DAMS, o canadense Nicholas Latifi, 200 a 194. O campeão da F2 este ano, o holandês Nyck de Vries, da ART, não marcou pontos neste sábado, 13º. Ele tem 266 pontos. Vries já assinou como piloto da Mercedes na Fórmula E, para carros elétricos, e Latifi com a Williams, para disputar o mundial de 2020 ao lado de George Russell, campeão da F2 em 2018.

Sérgio Sette Câmara e a vaga piloto na F1

Não há mais vaga no grid da Fórmula 1 em 2020. Com a superlicença, no entanto, Sérgio pode negociar a importante função de terceiro piloto de uma das dez equipes. E a imagem que está deixando no GP de Abu Dhabi é a melhor possível, com a vantagem de ser um dos mais jovens pilotos da F2. Foi a primeira vitória de Sérgio na corrida do sábado, mais longa que a do domingo e com pit stop.

Ele já havia vencido em Spa-Francorchamps, na Bélgica, em 2017, e este ano na Áustria, mas sempre na prova do domingo, mais curta e com o grid invertido entre os oito primeiros no sábado. A meta de Sérgio é tornar-se titular de um time de F1 em 2021. No ano que vem Sérgio provavelmente disputará a F2 mais uma vez.

Não é só isso que o desempenho excepcional no Yas Marina já deu a Sérgio. A sua vitória somada ao sexto lugar de Latifi garantiu o título por equipes para a DAMS. Depois de 12 etapas, 11 realizadas – o GP da Bélgica foi cancelado por causa da morte do piloto francês Anthoine Hubert, da Arden, no sábado – a DAMS atingiu 394 pontos, enquanto a UNI-Virtuosi tem 331.

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Performance elogiadíssima

A mensagem no rádio do chefe da equipe DAMS, o francês Francois Sicard, depois da bandeirada, dá bem o tom do feito de Sérgio neste sábado: “Fantástico, desempenho impressionante, perfeito na gestão dos pneus, vitória absolutamente merecida.”

Sicard tocou no ponto-chave, a melhor exploração dos pneus Pirelli, um grande desafio nas 31 voltas na pista árabe de 5.554 metros, 21 curvas. A maioria largou com pneus supermacios. Mas depois de poucas voltas, três, quatro, eles literalmente acabaram, os tempos de volta subiram muito. Isso favoreceu sobremaneira os pilotos que largaram com os macios, com autonomia muito maior.

Sérgio caiu de primeiro para terceiro, na largada, e na quarta volta, com os pneus supermacios já degradados, perdeu o terceiro lugar para o japonês Nobuharo Matsushita, da Carlin, com pneus macios.

Na sexta volta os boxes se abriram para os pit stops. Quase todos que largaram com supermacios entraram para a troca dos supermacios pelos macios. Tinham pela frente 25 voltas.

Sérgio Sette vence teste de paciência

Assim, os pilotos que iniciaram a corrida com os macios passaram para a frente: Matushita, líder, o chinês Guanyu Zhou, da UNI-Virtuosi, segundo, Giuliano Alesi, Trident, terceiro, Luca Ghiotto, UNI-Virtuosi, quarto. Eles teriam mais tarde de trocar os macios pelos supermacios. Sérgio manteve-se em nono, tenho já feito a sua parada.

Nas voltas finais, esse grupo que não havia realizado o pit stop começou a ir para os boxes. Sérgio não se deixou levar pelo ritmo do suíço Louis Deletraz, da Carlin, o primeiro dentre os que já haviam parado. Deletraz abriu 5 segundos para Sérgio na volta 12.

Dez voltas mais tarde, Sérgio aumentou um pouco o ritmo enquanto Deletraz já não tinha os pneus no seu melhor estado. A diferença entre ambos começou a cair. Na frente, Matsushita, primeiro, Zhou, segundo, Ghiotto, terceiro, Alesi, quarto, teriam de parar ainda. Se Sérgio ultrapassasse Deletraz ele se tornaria o líder da corrida quando os quatro primeiros fossem para os boxes.

Foi o que aconteceu. A estratégia impecavelmente executada por Sérgio o levou a ultrapassar Deletraz na 28ª volta, a três da bandeirada, usando o DRS na reta. Matsushita fez seu pit stop na 27ª volta e Zhou, na 28ª. Mas Sérgio ainda tinha pneus para poder acelerar.

Mesmo com os supermacios novos Matsushita e Zhou não conseguiram chegar em Sérgio Sette Câmara. O japonês cruzou a linha de chegada em segundo, a 5 segundos de Sérgio, e o chinês, em terceiro, a 7 segundos.

Meta atingida: a superlicença para a Fórmula 1

Depois do pódio e da reunião com o seu engenheiro, Damien Augier, Sérgio Sette Câmara deu o depoimento abaixo para a Youse:

Olá, amigos.

Vocês não imaginam a minha felicidade por essa vitória. Em outras ocasiões eu e o pessoal da DAMS também havíamos feito um planejamento inteligente, mas pelos mais variados motivos, desde erros meus ou circunstâncias da corrida, as coisas não fluíram conforme nosso potencial permitia.

Neste fim de semana, contudo, tudo o que fizemos nos trabalhos realizados na sede da DAMS, em Le Mans, conseguimos colocar em prática. Nós sabíamos depois dos treinos livres da sexta-feira que a gestão do desgaste dos pneus seria o fator que mais influenciaria o resultado da corrida deste sábado.

Definimos um acerto básico para o nosso carro que o deixou excelente para a corrida. Eu teria, no entanto, de ter muita paciência. Não poderia deixar me afetar com os pilotos na minha frente abrirem certa distância de mim. Teria de me preocupar com a minha corrida e não a deles.

Não é fácil. Nossos instintos de piloto nos impele a querer acelerar, andar perto e tentar ultrapassar. Mas eu sabia que mesmo perdendo terreno para eles mais para a frente na corrida eu teria pneus para ser rápido e meus adversários, não.

Faltando umas dez voltas disse a mim mesmo que era hora de acelerar mais. Logo compreendi que meu ritmo era muito bom, bem melhor que o do Deletraz, na minha frente. A equipe ia me informando sobre os que largaram com macios e não pararam.

“Achei que talvez não desse mais para vencer”

Sérgio Sette Câmara

Confesso que quando estava lá atrás, em oitavo, nono, porque fiz o pit stop e os pilotos na minha frente não, pensei que seria difícil ganhar a corrida, seria uma repetição do que aconteceu em Paul Ricard, na França. Também larguei na pole, mas fui segundo para o Nyck de Vries.

Agora estabeleci um ritmo com meu engenheiro e mantive-me nele. Era preocupante a diferença que o Matsushita mantinha para o Deletraz, na minha frente, e eu. Eu perguntava ao meu time a diferença do japonês para nós. Se ele conseguisse manter os 30 segundos que tinha, poderia fazer o pit stop e sair na minha frente. Vi que provavelmente conseguiria ultrapassar o Deletraz, como fiz.

Mas algumas voltas antes de o Matsushita ir para os boxes, na 27ª volta, seus tempos subiram muito e eu, podendo exigir, melhorei bastante. Assim, quando ele voltou à pista, depois do pit stop, saiu atrás de mim. Não era nenhuma garantia de que eu venceria. Mas, como falei, a tática de economizar os pneus macios depois do pit stop, na sexta volta, me fez tê-los em boas condições nas voltas finais. O Matsushita recebeu a bandeirada uns cinco segundos depois de eu cruzar a linha de chegada.

Sinto-me aliviado. A minha meta foi atingida, o direito a superlicença. Posso, agora, conversar com as equipes de F1. E já estabeleci outro objetivo: ser titular na F1 em 2021 e piloto de testes na próxima temporada.

Antes disso tenho ainda, neste domingo, a última corrida da F2. Largo em oitavo, com o critério do grid invertido, enquanto o meu adversário na luta pelo vice-campeonato, o Latifi, em segundo, por ter sido sétimo neste sábado. Mas, obviamente, vou tentar. De novo valerá o discurso da administração dos pneus, mas acho que agora todos entenderam melhor.

Serão 22 voltas e sem pit stop. Largamos e chegamos ao fim com o mesmo jogo de macios. Neste sábado eu completei 25 voltas com os macios, da sexta a 31ª volta. Teremos de repetir a dose.

Para encerrar, obrigado pelo apoio e torcida. Cumprimos o estabelecido. Não vejo a hora de ir a Paris para retirar a minha superlicença. Agora vem outro desafio: disputar possivelmente uma grande temporada em 2020 para em 2021 ser titular na F1. Grande abraço, amigos.